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Carlos Carreiras 08/03/2017
Carlos Carreiras

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Quem se mete com o PS leva!

António Costa está aos comandos de uma solução de governo que casou dois populismos, o da extrema-esquerda e o da esquerda aparentemente moderada.

Estamos todos muito preocupados com a ascensão dos populismos na Europa, com a sra. Le Pen em França ou com o sr. Wilders na Holanda. Mas nas nossas barbas está a ganhar força um populismo muito mais nefasto: é o populismo de centro, mais dissimulado nas palavras e menos violento nos modos, o que o torna mais tolerável pelo eleitorado e, por isso mesmo, mais perigoso. António Costa está aos comandos de uma solução de governo que casou dois populismos, o da extrema-esquerda e o da esquerda aparentemente moderada, num estilo de governação que impõe aos portugueses a aceitação de verdades autoevidentes, como o fim da crise e o paraíso para 10 milhões. Há uma maioria circunstancial em Portugal que quer impor, por todos os meios, a sua vontade e a sua visão da realidade.

Os sinais de stresse democrático começam a ser evidentes.

Instituições independentes, como o Banco de Portugal ou o Conselho de Finanças Públicas, estão debaixo da artilharia da maioria das esquerdas.

O parlamento, por seu turno, vive um período excecional de obstrução da oposição no trabalho de fiscalização do governo.

No espaço público há profissionais pagos para papaguear a propaganda do governo e bloggers aliciados a vender espaços para o culto do chefe, com o objetivo de manipular a agenda mediática.

Com este clima, não surpreende que até as brigadas de imberbes da extrema--esquerda nas associações de estudantes tenham força para amordaçar professores em plena universidade.

Citando Ferro Rodrigues, são as “novas circunstâncias democráticas”.

Nestas novas circunstâncias recuperam-se tradições antigas. Como o espírito belicoso dos socialistas de punho cerrado, pronto a bater. Os socialistas recuperaram o famoso slogan “quem se mete com o PS leva!”. Só que agora leva com mais força.

Teodora Cardoso não se deixa catequizar pela teologia orçamental do governo. Leva!

Carlos Costa tenta segurar a independência do banco central. Leva!

Mas não tenhamos ilusões sobre os fundamentos destes ataques. Mais do que reflexo de animosidades pessoais, eles são, e talvez seja o mais importante, sinal de um enorme desprezo que o PS, PCP e BE têm pelos poderes mediadores e pelas instituições independentes.

As coisas são como são: se dependesse destes partidos, não sobrava uma única entidade reguladora ou de supervisão independente em Portugal. Porque PS, PCP e BE abominam estruturas sobre as quais não tenham controlo direto ou indireto. Crentes, como são, na infalibilidade e omnipotência do Estado, eles não compreendem uma existência orgânica decente fora do Leviatã.

As pulsões iliberais das forças que sustentam o governo têm tração no terreno político, especialmente no caso do Conselho de Finanças Públicas (CFP) e no Banco de Portugal (BdP).

Teodora Cardoso tem sido descredibilizada por falhar previsões – a única previsão que a especialista falhou foi, com rigor, o número de planos (b, c e d, com perdões fiscais e esmagamento do investimento) que o governo viria pôr em marcha para controlar os danos. Os comunistas, aqueles que nunca pedem demissões de ministros (do atual governo), voltaram ao regime das soluções finais: exigem cabeças. Bom, mas se pelos padrões do PCP falhar previsões for razão para demitir quem quer que seja, então é bom que António Costa faça as malas, porque falhou todas as previsões de crescimento, de investimento e de controlo da dívida pública. Aparentemente, acertou no défice, ainda que a propaganda do governo não jogue, uma vez mais, com a realidade. Até hoje, o défice mais baixo da democracia portuguesa foi 2,13%, uma marca conseguida por Miguel Cadilhe, em 1989, seguindo uma fórmula oposta à de Centeno. Isto é, com investimento, sem aumento brutal de impostos e sem fazer sangrar a economia.

Carlos Costa é o alvo preferencial da troika de esquerdas. O argumento são as falhas de supervisão, evidentes, que vêm na tradição do socialista Vítor Constâncio, a gozar um exílio de ouro em Frankfurt. Mas não é só a competência do regulador que está em jogo. Há vingança e jogos de influência pelo caminho. Primeiro, o governo é de tal modo irresponsável que não se importa que o Banco de Portugal seja refém das vendetas de Mário Centeno. Depois, já ninguém esconde a ideia de estender até ao regulador o músculo político da frente das esquerdas. É nesse contexto que deve ser lida a entrada de Francisco Louçã no conselho consultivo do banco, por proposta de Centeno.

Louçã é um dos líderes espirituais do Syriza. E a sua chegada ao BdP faz-me lembrar uma história com um par de anos. Conquistado o poder na Grécia, o Syriza tinha um plano para voltar à dracma. Esse plano corria em três estádios: esvaziar os cofres do banco central, prender o governador e pedir ajuda a Moscovo.

Com a entrada do Varoufakis do Quelhas no BdP, os ataques violentos a Carlos Costa e os socialistas no poder em São Bento, temo que o plano grego esteja quase completo em Portugal. Se ouvir chamar por Moscovo, é melhor fugir.

Escreve à quarta-feira


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