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Cara de Maria? Não é mito. Os nomes colam-se mesmo a nós

Cara de Maria? Não é mito. Os nomes colam-se mesmo a nós

Marta F. Reis 02/03/2017 15:25

Investigação da Universidade Hebraica de Jerusalém descobriu que a forma como ligamos alguns nomes a caras não é puro acaso, mas uma espécie de contaminação cultural capaz de afetar a nossa aparência física. É difícil de acreditar. Para tirar teimas, criámos um desafio semelhante a uma das experiências.

A cena é tão habitual que será difícil nunca ter passado por ela. Ou tem mesmo cara do nome que lhe calhou ou não tem nada e chamam-lhe sempre outra coisa qualquer, porque tem cara é de Manuel ou de Rita ou de Sofia ou de Pedro. Se tem o azar ou a sorte de passar despercebido, já fez de certeza este julgamento sobre alguém. Na hora das explicações, não há grandes teorias. Às vezes é uma tia, um professor ou um vizinho que era assim ou assado. Se esta ideia de que alguns nomes parecem estar plasmados na cara de quem os usa poderia não passar de mito urbano, investigadores da Universidade Hebraica de Jerusalém decidiram que o assunto merecia investigação. O resultado foi publicado esta semana na revista científica “Journal of Personality and Social Psychology” e parece que o instinto estava certo.

Os investigadores fizeram oito experiências que mostram que acertar no nome de desconhecidos apenas pelo aspeto facial não é puro acaso. Nas primeiras quatro experiências era pedido a cobaias que acertassem nos nomes tendo várias hipóteses e os nomes corretos tiveram sempre mais votos. Num dos estudos, que tentamos replicar nestas páginas, eram apresentadas fotografias de rostos com quatro hipóteses de nomes, só uma correta. Os participantes escolheram o nome certo em 29,9% dos casos quando, se tudo fosse aleatório, todos os nomes teriam 25% de hipóteses.

Claro que isto não significa que seja possível adivinhar o nome de todas as pessoas só pelo rosto, mas isso seria a ciência a tentar explicar bruxaria. Mas depois de verificar esta tendência, os investigadores usaram uma ferramenta de inteligência artificial para tentar perceber se um computador conseguiria também associar caras a nomes apenas tendo em conta traços faciais. A base de dados, obtida através de páginas pessoais de uma rede social em França, incluía 36 016 imagens de rostos para 15 nomes femininos e 58 018 imagens para 13 nomes masculinos. O computador tinha sempre a hipótese de escolher entre dois nomes para cada e os nomes foram associados corretamente em mais de 50% das tentativas, o que refuta mais uma vez a ideia de aleatoriedade. Os investigadores perceberam ainda que há nomes que parecem mais colados às caras do que outros.
A análise foi feita na língua francesa e o mais difícil para o algoritmo foi distinguir uma Émilie de uma Jeanne, enquanto os resultados mais precisos foram obtidos quando se tratou de acertar que o nome correto era Emma e não Veronique. Já entre os homens, distinguir um Alexis de um Arthur parece ser o mais traiçoeiro, enquanto as caras de Romain foram catalogadas corretamente 74% das vezes quando o nome alternativo era Laurent e vice-versa. Se não está a visualizar as diferenças entre estes franceses, o estudo também explica: somos melhores neste jogo de aparências quando estão em causa nomes da nossa cultura materna.

E daqui partimos para a teoria. Os investigadores sugerem que os nomes são como “profecias que se autorrealizam”, um fenómeno cultural. “Se as outras pessoas esperam de nós determinadas coisas, podemos eventualmente ir ao encontro das expectativas. Um exemplo que conhecemos bem são os estereótipos de género”, explicou ao i Zweber Yonat, uma das autoras do estudo. “Se uma sociedade, por exemplo, espera que as raparigas sejam gentis e educadas, e os rapazes mais assertivos e agressivos, através de processos de autorrealização de profecias, a maioria dos rapazes e das raparigas serão isso mesmo.” Nos nomes, a equipa acredita que acontece o mesmo e um dado curioso foi terem percebido que, na análise do computador, os traços faciais que mais contavam na catalogação eram aspetos controláveis, como o penteado. “Já sabíamos de estudos anteriores que os nomes estavam associados a estereótipos. Por exemplo, um estudo nos EUA demonstrou que as pessoas avaliam uma Katherine como sendo alguém com mais sucesso que uma Bonnie. E um Scott é considerado mais popular que um Herman”, adianta a investigadora. A ciência chama-lhe efeito de Dorian Gray, numa alusão ao retrato do personagem de Oscar Wilde que se ia alterando para refletir as suas ações ao longo da vida. Tal como a personalidade parece influenciar a aparência, também o nome terá esse efeito, levando-nos a parecermo-nos mais com os homónimos e criando-se um círculo vicioso.

Se este fenómeno bizarro podia ficar arrumado por aqui, os investigadores pretendem ir mais longe e perceber porque é que há pessoas cuja cara encaixa mesmo no nome, e outras nem tanto.
E querem também perceber as implicações desta sina ao longo da vida com perguntas concretas. “Por exemplo, confiaria num vendedor que tivesse um nome completamente diferente daquele que a cara sugere? Contrataria alguém totalmente diferente do que imaginou quando marcou a entrevista pelo nome?”, exemplifica Zweber Yonat. Em última instância poderá sair daqui um alerta aos pais, que já fazem todos os exercícios mentais e mais alguns na hora de escolher o nome para os filhos. “Se o nome pode afetar a aparência, pode afetar muitas outras coisas, e esta investigação abre uma porta que pode ajudar a perceber como os pais podem avaliar melhor os nomes que dão às crianças”.

Eis a solução para o desafio em cima: 1) Davide; 2) Márcia; 3) Jorge; 4) Maria; 5) José; 6) Joana

 

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