26/10/21
 
 
Doces, café e redes sociais. Começaram os "sacrifícios" da Quaresma

Doces, café e redes sociais. Começaram os "sacrifícios" da Quaresma

Shutterstock Marta F. Reis 01/03/2017 14:24

Depois da folia, a caminhada de 46 dias até à Páscoa começa hoje, Quarta-Feira de Cinzas. Tradição centenária, a renúncia quaresmal continua a reinventar-se. Lá fora, o Twitter ajuda a traçar um ranking dos sacrifícios mais comuns. Por cá, falámos com quem vai desligar a música, trocar cigarros por orações e cortar em doces e sumo

A 24 horas do início da Quaresma, João Paulo ainda estava indeciso sobre a renúncia quaresmal deste ano. Vai cortar no sumo de laranja que toma todas as noites, porque lhe sabe bem, mas tem procurado fazer sempre mais do que um pequeno sacrifício. A bica depois das refeições ou o queijo eram as opções em aberto, “coisas simples” que ajudam o corpo e o pensamento a libertar-se do que não faz realmente falta. Hoje, os cristãos celebram a Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da caminhada de 46 dias até à Páscoa, que assinala a morte e ressurreição de Cristo. A prática do jejum e da abstinência é milenar, já vem até da Páscoa hebraica, mas continua a reinventar-se. Em 2009, o site Open Bible começou a monitorizar as publicações sobre renúncias quaresmais no Twitter e traça um ranking dos sacrifícios mais comuns. Este ano já houve 2336 tweets sobre o assunto. Redes sociais, álcool e chocolate lideram as renúncias.

O poder do sacrifício

A ideia é renunciar a algo durante toda a Quaresma. O que se poupar com isso pode, depois, ser oferecido à paróquia. João Paulo tem 63 anos, é católico praticante e lembra que, nos seus tempos de miúdo, a preparação para a Páscoa era o jejum de carne, levado a sério. Em sua casa continua a comer só peixe às sextas. Toda a vida ligado à Igreja, foi na última década que começou a inovar na renúncia, por outras palavras, a cortar nas coisas mais mundanas que lhe dão gosto. Já houve um ano em que cortou na cerveja. O queijo também não seria a primeira vez. No ano passado foram os chocolates e não cedeu durante os 40 dias. “Nem penso nisso”, garante. Chegou ao dia de Páscoa e comeu “como um pagão”, sorri. “Sofri as consequências: uma crise de fígado.” No seu blogue Spe Deus, escreveu há poucos dias sobre o sacrifício, lembrando o anjo que apareceu aos pastorinhos e lhes pediu orações e sacrifícios de tudo o que pudessem. “A proposta é simples: a pessoa sacrifica-se (sem ninguém ver) e isso redunda em bem para os outros. Mas como? O Anjo lá sabe (...) Deu resultado, mas permanece a incógnita acerca de como esses sacrifícios transformaram o mundo. Não sei responder, mas pergunto-me: se um Anjo ou o Papa me fizessem a proposta de me sacrificar mais nesta Quaresma, como é que eu reagiria?”

Não é que se fale disto, nem se deve apregoar o sacrifício. Vive-se na intimidade e é uma tradição passada de geração em geração. E não são só os mais velhos que fazem questão de viver a renúncia a sério, até pelo contrário.

Constança, de 17 anos, está de férias da escola, mas a partir desta quarta-feira começa a sua renúncia quaresmal – talvez mais a sério amanhã, quando recomeçarem as aulas. “Este ano, o meu sacrifício vai ser levantar-me logo mal o despertador toque”, conta.

Desde o 9.o ano, quando fez o crisma, que a Páscoa começou a ter um sentido especial, a ser um agradecimento pela “misericórdia” de Deus. Se até aqui tem cortado em doces e refrigerantes, desta vez foi o “pecado” da preguiça a pedir ação. Para Constança, o compromisso é fácil de explicar: é estar à altura do sacrifício de Jesus, contrariando-se a si própria. “Ajuda a crescer”, resume. “Se conseguirmos contrariar-nos nas pequenas dificuldades, talvez seja mais fácil estar à altura das maiores. É uma questão de autodomínio, de conseguirmos dominar-nos a nós próprios.”

António, de 18 anos, frequenta tal como Constança um colégio católico e tem a mesma ideia. “Lá em casa fazemos anos por esta altura e havia sempre a regra de não poder fazer grandes festas à sexta”, lembra. Se na altura “rezavam” para que os aniversários calhassem antes do início da Quaresma, quando começou a ter mais “consciência” da vida cristã, interiorizou isso e muito mais.

Se podia ser fácil cortar (ou prometer cortar) em tudo e mais alguma coisa, não é altura para bazófias. “Não é ter a soberba de querer fazer algo em grande, mas comprometermo-nos com algo de que gostamos e cumprir. Coisas do dia-a-dia.” Este ano, António quer manter-se longe dos refrigerantes e de bebidas alcoólicas. Outra novidade é que quer cumprir o jejum da Quarta-Feira de Cinzas, que só é pedido depois da maioridade, sublinha. As renúncias no dia-a-dia são um complemento à esmola, que os jovens nunca têm muito dinheiro, acrescenta. Mas se puder poupar para isso, também o fará.

Largar vícios

Teresa, de 17 anos, também tem memórias da renúncia quaresmal dos pais desde que era pequena. Mais velha de sete irmãos, cabia-lhe pôr a mesa, e no lugar do pai punha sempre um frasco de picante. “Na Quaresma ia sempre arrumá-lo. Mais tarde percebi que era uma das renúncias dele, por gostar tanto.”

Este ano, Teresa vai trocar a renúncia aos doces que praticou desde miúda por algo que custa um pouco mais: começou a fumar, vai em cinco a sete cigarros por dia e quer reduzir. Espera fumar só três e trocar os outros por orações, partilha. “Em vez de ir fumar rezo uma ave-maria”.

Se o sacrifício deixar marcas depois da Páscoa, melhor ainda. “O meu grande vício antes do tabaco era roer as unhas e renunciei a isso no ano passado. Ainda roí umas vezes, mas menos.”

O que viram nos pais é importante, mas são uma geração que, quando quer, se aproxima da Igreja e encontra grupos que a cativam.

É assim com estes três jovens de Lisboa, que dizem ter grupos de amigos onde a renúncia é algo comum, mesmo que não falem disso. A norte, em Resende, José João, médico de 24 anos, não sabe se a renúncia é habitual nas pessoas da sua idade, mas em sua casa sempre foi. “Cortávamos sempre nos doces. Depois, os dias de Carnaval e de Páscoa eram a desbunda”, conta.

A regra era conhecida: tanto que nas festas de família, nesta época, se passaram a fazer menos doces para não sobrar. Para os próximos 40 dias, José João tem um plano rigoroso. Não vai cortar no tabaco, mas renuncia ao álcool e outras bebidas. E os hidratos de carbono, arroz e massa também estão banidos das refeições. “Sopa, carne ou peixe, e fruta.” Não é a primeira vez que segue um plano alimentar e o resultado são menos dez a oito quilos quando chega a Páscoa. “É um momento de abnegação, faz-nos pensar mais, dar outro valor às coisas.” Em estudante, chegou a instituir às sextas- -feiras de Quaresma uma espécie de retiro das redes sociais. “O telefone ficava debaixo da cama. Hoje, por causa do trabalho, não posso.”

Ter mais tempo para parar para pensar, rezar e desligar a cabeça é também o raciocínio de Cristina, 54 anos, escriturária. Desta vez decidiu-se pela música, que é algo que a distrai. Em vez de ligar a rádio em modo automático, vai limitar-se a ouvir as notícias no caminho para o trabalho ou a seguir em silêncio, nos seus pensamentos.

Na análise do site Open Bible não faltam outras ideias. Há quem renuncie a tudo isto ou a dizer asneiras, a usar maquilhagem, a bolachas, a pizza ou donuts. Joaquim Carreira das Neves, teólogo, explica que nos últimos anos tem havido um incentivo das paróquias para que a renúncia não seja só a nível monetário mas, a montante disso, uma limpeza corporal e espiritual que ajude as pessoas a libertar-se do que é mais supérfluo e, às vezes, até faz mal à saúde. “A Igreja não pode ser estática, está no mundo. É renunciar às coisas que simbolizam o nosso sucesso, que vivemos bem, para bem de outros, através de uma ajuda que se possa dar.”

O apelo do Papa

Na mensagem de Quaresma, divulgada em fevereiro, Francisco não revelou as suas renúncias, mas pediu que se abdique do amor pelo dinheiro que leva à indiferença. “A palavra é um dom. O outro é um dom”, é o título da comunicação. Francisco fala da parábola do homem rico e do pobre Lázaro e lembra como o rico nem tem nome, é vaidoso, e a aparência “serve de máscara para o seu vazio interior (...) Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caem sob a alçada do seu olhar”. O “Huffington Post” escreveu que a mensagem parece dirigida a Donald Trump. E não seria, segundo o diário, a primeira mensagem subliminar do pontífice. No início deste mês, Francisco apelou à construção de pontes e não de muros, e falou de cidades cheias de arranha-céus e negócios de imobiliário mas que continuam a ser lugar de marginalização.

As renúncias mais populares

• Redes sociais

• Álcool

• Chocolate

• Twitter

• Carne

• Gasosa

• Doces

• Café

• Batatas fritas

• Fast-food

Barómetro das renúncias partilhadas no Twitter (2017 Twitter Lent Tracker)

 

Ler Mais


Especiais em Destaque

×

Pesquise no i

×