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Trainspotting. Um filme que foi toda uma geração

Trainspotting. Um filme que foi toda uma geração

Raquel Carrilho 23/02/2017 18:45

Chega hoje às salas portuguesas “T2 Trainspotting”, uma sequela que é mais um post mortem do filme de 1996, também realizado por Danny Boyle e que marcou uma geração – em Inglaterra, mas não só. Uma geração a que se regressa agora, porque o presente e o futuro implicam sempre olhar para trás

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose somethin’ else.

Ainda não existia praticamente nada no hoje chamado Polo Universitário da Ajuda, em Lisboa. Ali estava apenas, desde 1994, o imaculadamente branco edifício da Faculdade de Arquitetura, para pesadelo dos alunos que se debatiam diariamente com o isolamento em redor. O ano letivo apenas arrancara, mas as conversas de corredor já denunciavam um tom comum: “Trainspotting”, o filme de que toda a gente falava. E não apenas ali, mas um pouco por todas as universidades e escolas secundárias de Inglaterra, mas não só – e Portugal não era exceção. Para uma geração que tinha, à data, entre 16 e 25 anos, todas as conversas eram sobre Renton, Spud, Sick Boy, Tommy e Begbie. Todas as festas se tornaram temáticas e faixas como “Born Slippy”, dos Underworld, revelaram-se hinos geracionais.

Naquela noite, naquela espécie de fim do mundo que era o Polo da Ajuda, os portões das enormes e novas garagens da Faculdade de Arquitetura abriram--se para receber mais uma dessas festa temáticas em que depressa se perdia a conta ao número de vezes que os DJ repetiam as faixas que tornaram o filme realizado por Danny Boyle tão importante ao nível da sua banda sonora como do filme propriamente dito. Temas como, além do já referido “Born Slippy”, “Dark & Long”, da mesma banda, ou “Lust For Life”, de Iggy Pop; “Atomic”, na versão dos Sleeper; ou “Think About The Way”, de Ice MC. Quer o filme quer a sua banda sonora viraram culto num mundo onde Boris Ieltsin atingia o mais alto cargo da Rússia e, quatro meses mais tarde, em novembro, Bill Clinton era reeleito presidente dos EUA. O mesmo mundo que, nesse ano de 1996, perdeu François Mitterrand, Tupac Shakur, Marcello Mastroiani e Carl Sagan. Em Portugal, esse foi o ano em que se elegeu Jorge Sampaio Presidente de Portugal, a Expo 98 era ainda um projeto em construção e na colina do Casal Ventoso ainda era possível ver diariamente heroinómanos a injetarem-se, apesar de os programas de substituição com metadona se multiplicarem – a mesma metadona com que Renton consegue sofrer uma overdose.

Inspirado no romance homónimo de Irvine Welsh (1993) e lançado três anos mais tarde na versão filme, realizada por Danny Boyle, “Trainspotting” levava-nos para Edimburgo, nomeadamente para as zonas de Muirhouse e Leith, pano de fundo do filme na ficção mas casa da comunidade heroinómana e infetada com VIH na realidade do final dos anos 1980, nos quais o filme se desenrola.

Renton, Spud, Sick Boy, Tommy e Begbie, viciados em heroína, passavam os dias a fugir da vida tal como esta lhes era imposta. De bar em bar, de rixa em rixa, de bebedeira em bebedeira, de chuto em chuto. Tudo para fintar as expetativas alheias de uma vida na normalidade. No final, Renton engana os amigos e foge com um saco cheio de dinheiro, rumo a uma vida melhor.

Com “Trainspotting” percebemos que, afinal, podíamos estar sempre mais na merda do que pensávamos que estávamos. Seja em forma de uma overdose de metadona embalada pela voz de Lou Reed como se de apenas mais um “Perfect Day” se tratasse; ou de um mergulho poético em busca de supositórios de ópio que, sem querer, se cagaram; ou de um bebé deixado à morte por mais um chuto de heroína; ou ainda de um amigo que se perdeu para o VIH. No fim, depois de tudo estar fucked up e de se perceber que “o mundo está a mudar, a música está a mudar e até as drogas estão a mudar”, alguns seguem na mesma. Outros “choose life”.

Se “Trainspotting” se tornou um culto foi porque, fechando portas a considerações morais, foi a primeira vez que se disse a toda a uma geração que a vida é, acima de tudo, ambígua. Pode ser tudo.

 

The truth is that I’m a bad person. But, that’s gonna change – I’m going to change. This is the last of that sort of thing. Now I’m cleaning up and I’m moving on, going straight and choosing life. I’m looking forward to it already. I’m gonna be just like you. The job, the family, the fucking big television. The washing machine, the car, the compact disc and electric tin opener, good health, low cholesterol, dental insurance, mortgage, starter home, leisure wear, luggage, three piece suite, DIY, game shows, junk food, children, walks in the park, nine to five, good at golf, washing the car, choice of sweaters, family Christmas, indexed pension, tax exemption, clearing gutters, getting by, looking ahead, the day you die.

 

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