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James Bond ou Dusko Popov. Os dois lados do espelho

James Bond ou Dusko Popov. Os dois lados do espelho

Diogo Vaz Pinto 22/02/2017 19:17

"Na Toca do Lobo" apresenta-nos a Dusko Popov, "o maior espião da história", alguém que sob a máscara de diplomata jugoslavo era afinal um agente duplo que passou a perna aos nazis, fingindo estar ao serviço da Abwer, infiltrado no Ocidente, quando na verdade passava informação falsa, e foi uma peça-chave na vitória dos aliados. Ah, e grande parte desta história passa-se em Lisboa, tendo sido no Casino Estoril que, em 1941, a uma mesa de bacará fez a intrépida jogada que surpreendeu de tal modo Ian Fleming que o levou a inspirar-se nele quando criou o agente 007


O nome é Bond, James Bond, pelo menos será este o que ficará imortalizado, na literatura, no cinema, no imaginário da cultura popular. Mas o espião de Ian Fleming não teria durado mais de 48 horas nos bastidores da II Guerra Mundial. Todo o charme e encanto não seriam suficientes para perdoar-lhe as extravagâncias, as falhas contra o mínimo de discrição que se exige de um agente secreto. Foi esse o desconforto mostrado por Dusko Popov em relação à personagem que inspirou. Segundo o seu biógrafo, Larry Loftis, autor do livro Na Toca do Lobo, esse lado exibicionista nunca deixou «o maior espião da história» demasiado à vontade com o que poderia ser encarado como uma fabulosa homenagem.
A primeira aparição do agente que, ao serviço de sua majestade, tinha licença para matar dá-se em 1953, no livro Casino Royale, e apesar de Ian Fleming ter puxado o lustre, exagerando para o lado romântico a vida de um espião, estão lá as memórias daqueles dias em que Lisboa, devido à sua posição neutral, foi o ponto de confluência de um sem número de teias, com a rede urdida nas sombras entre aqueles que penetram os níveis subterrâneos da verdade a terem um impacto decisivo sobre o rumo do maior conflito da história.
A cena no filme Casino Royale (2006) em que Bond tem milhões apostados numa mesa de poker e bate o Full House de Le Chiffre com um Straight Flush, arrancando-lhe uma lágrima de sangue, não é apenas mais um exemplo da esmagadora auto-confiança do personagem de Fleming, mas é inspirada no momento em que Popov siderou todos os presentes numa noite de Maio de 1941, no Casino Estoril. Fleming era o agente do MI 5 que estava encarregue de vigiá-lo, e como Loftis contou ao Sol, foi a uma mesa de bacará que o agente duplo bateu a  figura sinistra que inspirou Le Chiffre, apostando 50 mil dólares – o que equivaleria hoje a três quartos de um milhão – com uma mão ganhadora. Assim, fez baixar a crista ao outro, que não era propriamente um vilão, mas um imbecil fanfarrão que, perseguido pelos russos, estava em trânsito para o outro lado do Atlântico.
Sem pinga de sangue, Fleming sabia que se tratava de uma aposta completamente irresponsável, mas não deixou de ficar fascinado com a ousadia de Popov, que naquele momento arriscara uma soma que resultara de outro golpe aos alemães, e que pertencia agora à coroa britânica. Bond nascia assim dessa capacidade de caminhar no fio, arriscar tudo e ser perdoado pelo desfecho, provando o talento que leva a própria sorte a abandonar a imparcialidade e a ter os seus favoritos.
Foi na pesquisa de material para um romance ficcional baseado nas aventuras dos espiões secretos, que Loftis começou a tropeçar insistentemente no nome de Popov. Ao fim de cinco anos de investigação, e com imenso material reunido, o editor disse-lhe que pusesse de lado o thriller que queria escrever. A grande oportunidade ali seria contar a verdadeira história do agente duplo que enganou os nazis alimentando a Abwehr (secretas alemãs) de informação falsa, desempenhando um papel crucial para o Dia D ao garantir que Hitler mantinha um forte destacamento perto de Calais. Seria ali, segundo Popov, que uma segunda e mais poderosa invasão dos aliados teria lugar, algo que, como sabemos, nunca chegou a acontecer. Se os nazis tivessem deslocado aquelas divisões para a Normandia certamente o assalto das tropas aliadas teria sido esmagado.
Dusko Popov guardava, segundo o seu biógrafo, um sentimento de culpa por não ter sido capaz de impedir o ataque em Pearl Harbor. Não foi por falta de aviso que os norte-americanos foram apanhados desprevenidos. Loftis conta que o agente passou a informação da iminência de um ataque da força aérea japonesa à frota estacionada naquele porto, mas que J. Edgar Hoover, o director do FBI, preferiu ignorá-lo. Porquê? Loftis diz que a principal razão terá sido por não ter ido com a cara de Popov. Não era o tipo de agente que inspira confiança a um maníaco controlador como Hoover. Havia sempre o perigo de um agente duplo balançar para o outro lado. O que é certo é que depois do ataque, Hoover tudo fez para encobrir que tinha recebido a informação meses antes do ataque e que estava no seu poder preveni-lo.
Na Toca do Lobo (Editora Vogais) e cuja adaptação a uma série televisiva está neste momento em curso, mais do que uma biografia do espião nascido na Sérvia, dilui toda a investigação numa narrativa desassombrada e envolvente, expondo uma intricada teia de factos menos conhecidos da Guerra, num compromisso entre os factos e a tensão de um bom thriller. Deste livro emerge o retrato de um homem que, pela sua inteligência e coragem, pelo charme, que lhe valeu, de resto, também um sem fim de conquistas românticas, por representar para a realidade o que o herói de Fleming representa para a fantasia, nos provoca uma irreprimível admiração. 

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