22/3/17
 
 
Carlos Diogo Santos 17/02/2017
Carlos Diogo Santos
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carlos.santos@newsplex.pt

Parabéns de um lisboeta, meu Porto

A Invicta foi eleita o melhor destino da Europa. E basta ir a um restaurante para perceber o porquê. Joga-se futebol entre as mesas, os aniversários são uma festa de todos, os turistas não podem ficar sozinhos e a festa acaba sempre tarde. É o Porto

Mário fez anos e o Porto está de parabéns. E está de parabéns exatamente pelo aniversário do Mário. Pela forma como, no último sábado, ele e os amigos olharam para a mesa do lado e não descansaram até que a turista japonesa se juntasse. Ela estava sozinha e hesitou, eles não desistiram. Assisti a tudo ao longe, da minha mesa. Não há dúvidas: é por isso que eles, Porto (e nós, Portugal), são o melhor destino europeu.

É por cantarem alto e por se levantarem a meio do jantar para dançar ao som da música ao vivo. É por fazerem de um aniversário a festa de um restaurante inteiro e não se importarem de partilhar momentos. E isso é tão bom.

Pouco passava das 19h quando a C.M. chegou ao restaurante, a poucos quarteirões do Palácio de Cristal. Tinha vindo de Tóquio sozinha para uma viagem pela Europa e durante mais de uma hora ficou ali quieta, a jantar e a ouvir música brasileira. Estava bem, mas sozinha.

A rosa e a forma como foi feito o convite levaram a japonesa a abandonar a viagem solitária que há muito programava para voltar a estar com amigos. Novos amigos, todos diferentes, mais extrovertidos. Se antes estava bem, agora ainda melhor. Entre sorrisos rasgados, gargalhadas e caras de espanto, C.M. não entendia muito bem o porquê daquilo e não sabia o que tinha feito para ter aquele afeto todo. Mas havia uma coisa que começava a perceber: o porquê de o Porto ter deixado para trás Milão e Gdansk.

É a terceira vez que a Invicta arrecada este prémio e o segredo está na massa humana, no pulsar das ruas. É aí que o Porto ganha a cidades italianas e polacas (e eu diria que é aí que Portugal atropela muitos outros países europeus).

E aqui, a norte, tudo é vivido intensamente, quer o prémio, quer as suas consequências. Quer o apoio de todos os que visitam a região, quer as atitudes consideradas negativas. Não há meio-termo nesta cidade, não há um talvez, o politicamente correto quase não existe e o sentimento de pertença é inexplicável.

Ainda não era meia-noite e quase todas as mesas se misturavam, havia pessoas de pé a dançar, conversas cruzadas e um ambiente ensurdecedor. Era estranhamente bom ver tudo aquilo numa churrascaria normal. A C.M. era uma das que mais dançavam, já não com o grupo que lhe arrancou os primeiros sorrisos, mas com pessoas de outras mesas. Não estava minimamente alinhada com o ritmo latino, mas estava totalmente enquadrada no ambiente.

Os que não dançavam falavam. Falámos das diferenças entre o Sul e o Norte, brincámos e brindámos. Aos 30 anos do Mário, à declaração que ele fez em búlgaro à namorada e ao Porto. Mesmo sem (muito) álcool, simulámos um jogo de futebol (sem bola) entre as mesas, tirámos selfies e trocámos contactos. Fizemos pontes e estendemos o prémio do Porto (que é dele) ao resto do país, como deve ser: de Lisboa ao Funchal. Foi mesmo bonita a festa, pá.

Nessa mesma noite, talvez embalado pela diversão, enviei uma mensagem à minha afilhada de faculdade, uma portuense ferrenha que agora vive em Lisboa. Falei-lhe da sua cidade e dei-lhe os parabéns pelo prémio. A resposta da Márcia reforçou a certeza de que a C.M. não se desiludiu quando, dias depois do jantar, chegou à capital: “Acredito, padrinho, o Porto tem esse encanto. Mas deixa-me que te diga que a tua cidade também ;)”

É tão bom este ambiente dentro das cidades e entre elas, longe das guerras de outros.

Parabéns de um lisboeta, meu Porto!

 

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