26/6/17
 
 
Mário João Fernandes 17/02/2017
Mário João Fernandes

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Errou Flynn?

A verdade nunca mais foi a mesma coisa desde que foi inventado o telemóvel. E os políticos são as primeiras vítimas

A verdade nunca mais foi a mesma coisa desde que foi inventado o telemóvel. E os políticos são as primeiras vítimas.

Esta semana demitiu-se um dos elementos do inner circle do universo Trump. Michael Flynn era o conselheiro nacional de segurança (CNS) e não durou quatro semanas desde a tomada de posse do 45.o presidente. O cargo foi criado por Truman em 1947 para gerir o dealbar da Guerra Fria e manter em permanência na Casa Branca alguém particularmente sensato e muito bem informado sobre o que se passava no mundo (Aliados, URSS e sobrantes) e quais as melhores condições de reação aos diversos eventos (o que pressupõe uma ligação forte ao dispositivo militar americano). O cargo implica também uma arbitragem permanente com o State Department, com o Pentágono (e, escusado será dizer, com os respetivos secretários) e, claro, com os guardiões do acesso ao presidente (chefe de gabinete e, no caso de Trump, outras criaturas mais ou menos fantásticas). O general Flynn trazia do seu passado como diretor da Defense Intelligence Agency uma aura de lunático que se alimentava dos boatos na internet e não dos relatórios dos serviços. A sua escolha para diretor do departamento África do CNS, Robin Townley, viu recusada a credenciação de segurança, num primeiro aviso de que Flynn seria portador de anticorpos capazes de fazer eriçar a comunidade dos serviços de informação. Na passada terça-feira, Flynn apresentou a sua demissão depois de meia Washington ter tido acesso à transcrição das suas conversas telefónicas com o embaixador russo, onde tecia abundantes considerações sobre o levantamento das sanções à Rússia assim que a administração Trump tomasse posse. Desde a Guerra Fria que o FBI tem por missão escutar com rigor e método as conversas dos diplomatas russos, em particular as que tenham com altos funcionários dos EUA.

A demissão de Flynn representa mais um passo na “normalização” da administração Trump. A sua queda deve-se a um ajuste de contas entre personagens da vasta galáxia de serviços de informação dos EUA, mas implica o regresso à normalidade das convicções americanas: “Não, os russos não são nossos amigos e Putin não é o nosso novo amigo.” A defenestração de Flynn também deixou claro que a gestão interna da Casa Branca é um work in progress. Os dois clãs que lutam pela atenção do presidente, chefiados por Priebus, chefe de gabinete, e Bannon, chief strategist, estiveram momentaneamente de acordo para eliminar Flynn, mas o consenso não se estenderá à escolha do seu substituto. Pior, o Rasputine da alt-right não só conseguiu ter direito a um lugar no CNS como tem estado afanosamente a construir um mini-CNS para seu uso pessoal.

O intervalo da refrega deixou margem para o secretário da Defesa vir à Europa fazer prova de vida NATO junto dos Aliados, sob condição de pagarem a sua quota parte nas despesas do clube. O vice-presidente e o secretário de Estado estarão a partir de hoje na Conferência de Segurança de Munique, onde repetirão as condições da aposta dos EUA na NATO e retomarão o discurso tradicional dirigido à Rússia (ilegalidade da ocupação da Crimeia e do apoio aos insurrectos no leste da Ucrânia, necessidade de respeito pelos acordos internacionais em matéria de desmilitarização, com destaque para a violação recente do Tratado INF por Moscovo).

A entrada em funções da administração Trump está a ser conturbada e muitos lugares estão por preencher nas estruturas dirigentes da diplomacia e da defesa. Mas a sorte também bafeja os inconscientes e, felizmente, não há nenhuma crise internacional a requerer profissionalismo e sangue-frio. Ainda.

 

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