17/12/17
 
 
Ricardo Costa 16/02/2017
Ricardo Costa

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Confiança e fé

Os portugueses, confiantes como nunca estiveram desde 2000, não ligarão muito à trapalhada da Caixa Geral de Depósitos.

Sem dúvida que a novela política em que se envolveu Mário Centeno no processo de transição da Caixa Geral de Depósito não vem na melhor altura. Parece ser uma areia numa engrenagem que tem tudo para resultar, pelo menos até à prova dos nove das eleições autárquicas, e, até lá, com as sondagens a provar que a engrenagem funciona. Noutras circunstâncias, a novela teria tudo para desembocar em efeitos, mas o certo é que o país real não está a ligar muito a um caso cujos detalhes não abonam em nada os princípios de atuação em assunto tão nevrálgico quando se trata do banco público. Por isso os esforços elevados e aturados em abafar uma trapalhada que teria pernas para andar noutros tempos, mas que o estado de otimismo que António Costa incutiu na governação (há vida para além da austeridade), e que Marcelo controla com os seus radares de vigilância da velocidade desse otimismo, desaconselha vivamente a hiperbolizar. Isto, obviamente, na perspetiva de quem governa e contra a expetativa da oposição.

Na verdade, o país real está confiante. Assim o provam os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística neste início de 2017, em exibição dos resultados de inquérito dirigido, para o ano de 2016, às variáveis da situação financeira dos agregados familiares, da situação económica, da evolução do emprego/desemprego e dos níveis de poupança. Na parte das famílias, aliás, o índice já não estava em valores tão altos desde 2000, já lá vão quase duas décadas… Na parte das empresas/empresários, a tendência é a mesma, ainda que com mutações e com valores negativos para o setor da construção e obras públicas. Se assim é, para quê estragar o sentimento coletivo e recordar a depressão aguda de 2012, pico dos sacrifícios, das restrições e da desconfiança? Os portugueses valorizaram claramente, numa visão de natureza imediatista e sem preocupações de longo prazo, os sinais promissores deste ciclo económico (manifestamente encorajadores em alguns negócios), a recuperação dos salários (no exército dos funcionários públicos e dos pensionistas), a inclinação para a queda do desemprego e para o surgimento de emprego novo (ainda que maioritariamente com vínculos em grande parte precários), a redescoberta do acesso ao crédito, a menor pressão para o aforro, algum alívio no recrudescimento do garrote fiscal direto e – não menos importante – a descoberta de uma possibilidade de estabilidade política (feita de tantos pormenores inovadores) que, para muitos, era uma impossibilidade e uma inverosimilhança. E claramente desvalorizam o endividamento alto (do Estado, das famílias e das empresas), a mais-valia da poupança para o equilíbrio do sistema (também bancário e financeiro), a falta de estratégia para a sustentação do Estado social e a fragilidade do país perante os condicionamentos externos (da política do Banco Central Europeu à coesão da União Europeia, em teste perante os desafios eleitorais que se aproximam, passando pelos vendavais estimulados pelas protuberâncias de Trump).

Perante esta análise, a pergunta inicial é se tudo aquilo que havia para correr bem já aconteceu… E a segunda pergunta incide sobre o grau de probabilidade de, mais cedo do que tarde, surgirem cortes, frustrações e reversões das reversões. Por outras palavras, questiona-se se estamos a viver apenas e só uma “pós-confiança” absolutamente digna de uma “pós-verdade”. Acompanhemos as respostas. Com fé, muita fé.

Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto, Escreve à quinta-feira

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