17/10/17
 
 
Carlos Carreiras 15/02/2017
Carlos Carreiras

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Centeno, o ministro útil

Ninguém pode questionar a diligência de Centeno a cumprir as ordens de António Costa. Mesmo quando essas ordens são uma desgraça para o país

CGD já deixou de ser apenas uma marca de banco. É acrónimo para a política doméstica do governo: Centeno a Gerir Desgraças. Com ano e meio de governo, Mário Centeno é o ministro-a--dias. Não no sentido da sua longevidade no lugar, que pela milésima vez foi caucionada pelo primeiro-ministro e, agora, até pelo Presidente da República, mas da forma como ocupa o lugar: a cumprir ordens e a gerir (às vezes a criar) desgraças na casa socialista. Como é um político peso-pluma, quando as coisas correm mal há sempre quem saia em seu socorro na coligação das esquerdas. O problema é quando Centeno decide fugir do guião oficial. Aí, não raras vezes, o ministro é desautorizado por Costa e até enxovalhado pelos partidos do arco da contestação.

Em todo o caso, ninguém pode questionar a diligência de Centeno a cumprir as ordens de António Costa. Mesmo quando essas ordens são uma desgraça para o país. Pedem-lhe para escolher uma equipa de gestores para a Caixa e ele escolhe. Pedem-lhe que desobrigue os novos administradores dos seus deveres perante a lei e ele desobriga. E quando tudo dá para o torto, é ele quem assume as responsabilidades (e recebe as facadas) que estariam destinadas ao chefe do governo.

Com a paixão despesista a bater forte no coração do governo PS, também é Mário Centeno quem tenta segurar as pontas, dentro e fora de portas, e é ele quem limpa os cacos da política económica do governo. E tantas vezes perante a ingratidão dos seus companheiros de executivo, que desvalorizam o facto de no Terreiro do Paço se trabalhar diariamente para, citando o titular das Finanças, “evitar um segundo resgate.”

Mas para sermos rigorosos, Centeno também é responsável por uma parte generosa das desgraças que tocam ao governo das esquerdas. Toda a gente percebeu que a credibilidade das suas palavras só tem paralelo nas suas projeções macroeconómicas: falham todas. Centeno tem uma relação difícil com os números, mas não é muito melhor com as palavras. Tem pouco jeito para a política e não raras vezes o primeiro-ministro tem de vir a público segurá-lo. Mas o pior, como se viu no caso CGD e já se tinha visto no caso Banif, é a verdade: Centeno trata-a a pontapé. E nisso não é muito diferente do seu líder de governo. Indignamo-nos muito com os factos alternativos trumpianos. Mas as “narrativas” foram uma invenção socialista, no tempo de Sócrates, de que este governo é fiel seguidor. A narrativa de Centeno na conferência de imprensa desta semana teve, contudo, o condão de nos revelar alguma da verdade na mentira. Centeno falou em “erros de perceção” para justificar o injustificável na desobrigação legal da equipa de António Domingues.

Ora, erros de perceção é aquilo com que temos vivido nos últimos 18 meses.

O governo, todo ele, é um erro de perceção. E dos grandes.

Parece que ganhou eleições, mas perdeu.

Parece que devolve rendimentos, mas aumenta impostos.

Parece que é de esquerda, mas António Costa gaba-se de ter como ministro das Finanças o campeão da austeridade – o homem do “défice mais baixo da nossa vida democrática”.

Parece que controla as contas públicas, mas estoira com a dívida e não mexe (pelo contrário, agrava-a) na componente estrutural do défice.

Parece que faz avançar a economia, mas tem resultados piores do que os conseguidos pelo anterior governo e muito piores do que os que estavam inscritos nos planos da coligação das esquerdas.

Parece que é estável, credível e duradouro mas, chamem-lhe lá o que quiserem, estável e credível é que ele não é (e ainda estamos para ver se é duradouro).

Parece um governo de alguma coisa, mas é simplesmente uma “coisa” que se governa a si mesma.

A CGD tem finalmente uma administração competente em funções. Finalmente tem um plano de recapitalização, mas ainda não foi colocado um cêntimo na CGD. Finamente parece em condições de começar a fazer aquilo que um banco público deve fazer.

O pior é que Centeno se transformou num enorme peso para o banco público – já para não falar no governo. Com tantos esqueletos no armário e sms para serem conhecidos, a CGD não vai sair das notícias tão cedo. Isso é mau para o banco público e para a estabilização do sistema financeiro nacional.

A questão não é, e talvez nunca tenha sido, o tempo que Centeno dura no governo. Precisamente porque é um ministro útil, no fim do dia há sempre Centeno para arcar com as culpas do governo inteiro. A questão é quantas mais vezes terá de vir Costa em seu socorro para o manter politicamente vivo.

A continuidade de Mário Centeno parece interessar a toda gente.

Ao Presidente da República, que pode continuar a hastear a bandeira da estabilidade no país.

Ao primeiro-ministro, que continua a ter nas Finanças um ministro-a-dias.

À coligação das esquerdas, que não vê em Centeno alguém com força para pôr ordem na chantagem.

E ao próprio Centeno que, tendo visto o seu plano macroeconómico feito em estilhaços, é feliz a contrariar diariamente as suas convicções pela simples razão de estar agarrado ao poder. Ao contrário de outros ministros das Finanças de outros governos PS, que bateram com a porta divergindo do rumo que o país tomava, Centeno não parece incomodado com os défices que Portugal vai colecionando: défice de competitividade, défice de crescimento, défice de reforma e défice de vergonha no tratamento dos assuntos públicos.

Última nota: Centeno admitiu que foi falar com o Presidente da República por sugestão do primeiro-ministro. Mais provas fossem precisas e aqui está outro sinal de como a coligação das esquerdas vive num estado de infância política. Como não consegue resolver os seus problemas sozinho, Costa pede auxílio a Marcelo Rebelo de Sousa. Irónico: o mais parlamentar dos governos está a transformar o sistema no mais presidencialista dos regimes.

Escreve à quarta-feira

 

 

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