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Humberto Delgado. «Estou pronto para morrer pela liberdade»

Humberto Delgado. «Estou pronto para morrer pela liberdade»

Teresa Carvalho 14/02/2017 13:13

Ousou anunciar a possibilidade de viver sem medo num país onde o medo há muito se instalara e o tempo era de grande insatisfação. Feito do barro rijo dos heróis, foi o homem certo no momento certo. 

A memória colectiva recorda-o como o «General Sem Medo», a designação de ressonâncias míticas que o popularizou. À política do «orgulhosamente só» contrapôs Humberto Delgado (15 de Maio de 1906 – 13 de Fev. de 1965) a via da pluralidade partidária; à prudência e à hesitação respondeu com a audácia da frontalidade afirmativa. 

Retratou-se como um «Tufão sobre Portugal». E a imagem, em sintonia perfeita com alguns epítetos que lhe foram atribuídos («Terramoto», «Furacão», «General Dinamite») soa justa. «Obviamente, demito-o!» é a célebre resposta-abalo – a projectá-lo para a opinião pública em ondas de choque e com força mais que indesejada pelo Estado Novo à pergunta que lhe foi dirigida por um jornalista sobre qual o destino que daria a Oliveira Salazar caso ganhasse as eleições presidenciais a que em 1958 imprevisivelmente se candidatava, acedendo ao convite da Oposição Democrática. Oficial de aviação, era então o mais jovem General português no activo, desde sempre ligado à situação política que ajudara a construir desde o golpe militar de 1926, e desempenhara já funções diplomáticas junto da Embaixada de Portugal em Washington como Adido Militar e Aeronáutico.

Vítima de uma das maiores fraudes eleitorais da história, Humberto Delgado não conseguiu varrer o regime autoritário, mas a sua indizível capacidade mobilizadora fez estremecer o país de norte a sul, sacudir a solidez do Estado Novo, que apanhou um susto de morte, e abanar a auréola de salvador de Oliveira Salazar, até então intocável símbolo de um ressurgimento nacional. A sua passagem meteórica pela paisagem política portuguesa foi um «abre-te Sésamo», a lançar o país no caminho da esfera mágica da Revolução que estava sonhando.

O que sucedeu após a fraude do acto eleitoral de 8 de Junho de 1958 é do domínio da História. Primeiro foi o refúgio na Embaixada do Brasil em Lisboa, onde, demitido das Forças Armadas e proibido de usar uniforme ou condecorações, passou a liderar um movimento de oposição ao governo de Salazar; depois, veio a longa caminhada do exílio que passou pelo Brasil, por Praga e por Argel, sempre vestido das galas funestas do seu destino de herói trágico. A vida de Humberto Delgado, começada em Torres Novas, terminou em Villanueva del Fresno, perto de Olivença, às mãos de uma emboscada assassina da PIDE. 

O militar detentor de uma folha de serviços brilhante, o político de temperamento combativo, sobrelevam o autor que Humberto Delgado também foi. Colaborador de diversas revistas e jornais (Revista Militar, Revista de Artilharia, Do Ar, Aeronáutica, Defesa Nacional, da qual foi editor e chefe dos serviços de propaganda, O Século), da sua actividade no âmbito militar resultaram vários livros, entre eles, Da pulhice do Homo Sapiens (1933), Aviação, Exército, Marinha, Legião (1937) ou O Auxiliar do Graduado da Legião (1940).

Humberto Delgado assinou também Asas, peça em 3 actos subida à cena em 1942 pela companhia de Alves da Cunha do Teatro da Trindade, e 3 peças radiofónicas: 28 de Maio (1939), A Marcha para as Índias (1940) e Sóror Mariana Alcoforado (1940). Partidário da autenticidade da autoria das Cartas Portuguesas (1669), pela existência real da famosa freira de Beja, e um dos mais acérrimos defensores da sóror amante, Humberto Delgado, já no exílio no Brasil, publicou também O Infeliz Amor de Sóror Mariana (1964), um volume significativo para o estudo dessa obra importante da literatura europeia do século XVII, como elemento formador do imaginário amoroso português de voz feminina. Nele se manifesta o intelectual comprometido, o escritor cioso do património cultural português, o homem em sintonia com o pensamento moderno, avesso a ângulos estreitos. 

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