26/6/17
 
 
Mário Cordeiro 14/02/2017
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

O namoro

Os namoros podem ou não ter fim. Por vezes acabam por desistência de um ou dos dois interessados. Com maior ou menor sofrimento de uma ou de ambas as partes, mas sempre com a necessidade de fazer um luto

“Mandei-lhe uma carta

em papel perfumado

E com letra bonita eu disse ela tinha

um sorriso luminoso, tão triste e gaiato

Como um sol de novembro brincando de artista

Como as acácias floridas na fímbria do mar

(...)

Olhei-a nos olhos

Sorriu para mim

Pedi-lhe um beijo

E ela disse que sim!”

Excerto de “Namoro”, de Viriato da Cruz

 

Hoje é “Dia dos Namorados” ou de São Valentim. São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas igrejas orientais, conhecido por ser o padroeiro do Dia dos Namorados, mas cuja vida é, provavelmente, ignorada pelos que pretensamente o comemoram. O santo viveu em Roma, na era do imperador Cláudio ii, e ficou famoso porque, durante a proibição dos casamentos pelo imperador, com o intuito de que os rapazes pudessem estar disponíveis para o exército, continuou a realizá-los, mesmo contra as ordens do chefe máximo. Descoberto, foi julgado e condenado à morte, sendo decapitado a 14 de fevereiro de 270 d.C. Durante o tempo em que esteve preso recebia apoio de jovens enamorados e, inclusivamente, a filha do carcereiro, cega de nascença, acabou por visitá-lo e, miraculosamente, terá adquirido a visão. São Valentim apaixonou-se por ela, reacendendo a sua ligação ao amor de namorados, escrevendo-lhe cartas com a assinatura “Do seu Valentim”, expressão ainda utilizada nas missivas de amor que se enviam neste dia. Pena é que uma história tão interessante tenha sido abastardada pelo marketing e pela ganância comercial, mas enfim…

Vale a pena, de qualquer modo, dizer uma ou duas coisas sobre o namoro, e a primeira que queria referir, embora seja tema para uma próxima reflexão, é a preocupante percentagem, de tão elevada, de jovens que já sofreram violência no namoro, de psicológica a verbal, física e sexual, e – ainda mais assustador – o grau de aceitação desses jovens (perto de metade!) de que é normal haver violência nas relações de namoro. Um em cada quatro jovens considera normal partilhar fotografias íntimas ou insultar alguém através das redes sociais, de acordo com um estudo da UMAR. É um tema pouco abordado, mas que pode transviar, desde o início, um processo de namoro que se deseja tranquilo, bom, reconfortante e recompensador.

As raparigas, ao ter a primeira menstruação, ficam capacitadas para serem mães. Os rapazes, por sua vez, ao iniciarem as ejaculações, são potenciais pais. Todavia, se durante alguns milénios as relações reprodutivas terão sido distanciadas dos afetos, rapidamente se evoluiu no sentido da monogamia (mesmo que sequencial) e na afirmação do amor como algo que faz parte da relação do tipo conjugal.

Antigamente, estando na mesa responsabilidades grandes – como a de escolher o pai ou a mãe dos filhos, o companheiro de uma vida e o herdeiro de bens ou terras –, a escolha prévia ao “acasalamento” era determinada pelas famílias, elaborada e envolvia astúcia. Agora, as pessoas sentem-se mais livres para usar o seu poder de sedução e charme e expressar afetos e sentimentos.

É assim que surge o namoro, a partir da atração entre duas pessoas, provocada provavelmente por muitos fatores, designadamente as feromonas, hormonas sentidas a larga distância pelo nariz. A beleza, graça, inteligência, ternura, simpatia, humor, feitio e elegância (no corpo e na maneira de ser) são alguns entre tantos e tantos ingredientes que também provocam a atração e o desejo de conquistar o outro ou a outra.

O passo seguinte é ser correspondido. A gestão desta fase é difícil e, em caso de um desenlace negativo, pode gerar traumas, baixa da autoestima e do autoconceito, e desconfiança e insegurança quanto à capacidade de “conseguir”: o “não valho nada” é um dos fantasmas que sempre acompanha um desgosto de amor.

É neste jogo de parada alta, de grandes inquietações e indefinições, de registos muito subtis e indefinidos, de elevado valor simbólico e críptico, que um apaixonado tem de (sobre)viver.

Depois de começado o namoro há uma fase de aprofundamento relacional e dos conhecimentos. A descoberta do corpo da pessoa amada e das potencialidades do nosso próprio corpo com o dessa pessoa, o cotejar de pontos positivos e negativos, interesses e desinteresses, defeitos e virtudes contribui para a constante avaliação dos ganhos e perdas e para a resposta à “velha questão”: “Valerá a pena? Seremos complementares nas proximidades e nas diferenças?” Se, em alguns casos, mesmo com acidentes de percurso, arrufos, amuos e zangas (mas com o momento inesquecível e indescritível de fazer as pazes), as coisas evoluem na tranquilidade e no sentido da estabilidade, noutros, o namoro acaba por ser uma fase de constantes altos e baixos, uma sinusoide que leva a sofrimento, conflitos e desânimos, os quais desvirtuam a verdadeira intenção do namoro: o preparar uma solução estável com vista a um futuro comum.

Se o namoro é uma coisa para ser fruída a dois, com todo o encantamento que tem essa relação privada e quase mística, não é menos verdade que vivemos em sociedade. Quando outros valores entram em jogo – “mas de que família é ela, afinal?”, “vamos a ver a quem vão parar os nossos bens”, “não me parece que seja a melhor pessoa para ser mãe dos nossos netos!”, “ele tem cara de quem trabalha pouco e vai querer explorar a nossa filha!” e tantas outras coisas semelhantes –, o caldo corre mais riscos de se entornar, surgindo provas de forças, desaguisados, incompreensões, mal-estares, chegando muitas vezes ao ponto de pré-rotura ou mesmo de rotura, o que só agrava, até porque, sobretudo no princípio do namoro, é enorme a suscetibilidade e sensibilidade dos apaixonados; qualquer comentário menos positivo (mesmo que justo e factualmente verdadeiro) pode causar um pé-de-vento de incompreensão.

Os namoros podem ou não ter fim. Por vezes acabam por desistência de um ou dos dois interessados. Com maior ou menor sofrimento de uma ou de ambas as partes, mas sempre com a necessidade de fazer um luto, porque o fim de uma relação é uma perda e exige um período de reflexão e de balanço. Não fazer esse luto é perigoso porque ele chegará, inevitavelmente, mais tarde, podendo cair como uma assombração sobre uma relação posterior.

Noutras vezes, o namoro evolui para um relacionamento estável e permanente, com vivência em comum e filhos. Mas mesmo nesses casos – ou até sobretudo nesses casos –, é bom que o namoro continue. Sempre. Namorar é bom e é um fator protetor. Mesmo com filhos pequenos, mesmo com filhos menos pequenos. A relação conjugal entre duas pessoas deve sempre manter-se e é independente dos outros relacionamentos e afetos que possam existir, e não há idades fixas nem limitativas para namorar… porque o namoro, como a paixão, no que tem de sonhador, de reconfortante, de bom, é um bálsamo para qualquer idade… e não apenas no dia 14 de fevereiro.

Pediatra.

Escreve à terça-feira

 

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