22/3/17
 
 
Carlos Diogo Santos 13/02/2017
Carlos Diogo Santos
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carlos.santos@newsplex.pt

O meu país é melhor do que o teu

Falar de países como Portugal e Brasil é muito mais do que de uma língua comum. Temos vários traços de personalidade que nos distinguem e vivemos as alegrias e as tristezas de forma totalmente diferente, mas a verdade é que portugueses e brasileiros perdem a consciência sobre os seus problemas quando falam com um estrangeiro

 

Se há coisa que os portugueses fazem (e com mestria) é criticarem o país. É assim em Lisboa, é assim no Porto e acredito que em todas as cidades e vilas. Somos conscientes dos problemas internos, das nossas debilidades enquanto massa humana e dos erros que, enquanto nação, cometemos nas últimas décadas. A nossa consciência só se perde quando um estrangeiro entra na conversa e lança uma observação sobre nós.

Se a crítica for boa, o português põe um sorriso na cara e começa a falar de tudo o que há de bom no país e não foi referido: lembra a evolução dos últimos anos, os feitos recentes. E se for preciso, ainda recorda o tempo em que dividiu - sim ele vai colocar-se na frase como tendo sido um dos que assinou o Tratado de Tordesilhas - o mundo ao meio com os espanhóis. Tenta que o de fora ainda pense melhor do país do que já pensava antes.

Se a crítica for negativa, o português vai buscar a sua melhor argumentação para fazer o estrangeiro voltar atrás. Aliás, vai mostrar-lhe mesmo que não só a crítica é despropositada, como que Portugal é o melhor país para se viver - aquele Portugal que no dia antes estava na lista dos piores países do mundo.

Nem tudo é mau nesta perda de consciência, há carinho pelas origens e há um sentimento de defesa do coletivo. O único problema é que isso revela o medo de existir, de competir, de ganhar e de perder. 

Um dos maiores reflexos é perguntar a qualquer estrangeiro se está pela primeira vez em Portugal, só para ter o prazer da pergunta seguinte: “E está a gostar?”. Na maioria das vezes está. Nem precisávamos de questionar, sentíamos que sim.

As generalizações valem o que valem, mas tenho encontrado estes traços em muitas das conversas dos últimos tempos em que estavam portugueses e estrangeiros. 

Não deixa, porém, de ser curioso pensar que não somos os únicos a ter esse comportamento defensivo. Há quem diga por estas bandas que os brasileiros herdaram de Portugal algum do seu ‘jeitinho’, diria que, pelo menos, herdaram muito do medo de existir. É verdade que o disfarçam com a alegria do carnaval, com as praias do Rio e com a dimensão quase continental do país, mas a semente está lá. 

Nas conversas entre eles, tal como nós fazemos, os brasileiros são exímios na arte de esgrimir argumentos contra o seu país. Falam da corrupção, da ‘roubalheira’ da esquerda à direita, da insegurança, ‘zoam’ com quem vem de estados com menos expressão, que dizem nem ser o Brasil, e várias vezes dizem que o seu país é ‘merda’. É tal e qual o mesmo filme mas, com outro sotaque. 

E só mudam de discurso, só perdem essa consciência (às vezes claramente exagerada), quando os outros se metem pelo meio e lembram experiências negativas ou contam histórias que vão contra o Brasil da ‘Ordem e do Progresso’. 

Descobri que a estratégia vencedora para qualquer um que queira criticar um destes países é começar por falar mal do seu, abrir o jogo, falar de igual para igual. Aí todos baixam as armas e falam de igual para igual. Mas nem vou contar aos brasileiros que fiz esta descoberta para não ouvir que não descobri nada, que não passo de um navegador.

 

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