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Helena Ferro de Gouveia 13/02/2017
Helena Ferro De Gouveia
Cronista

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Campos de batalha não convencionais: reflexões sobre a ciberguerra

No início de novembro de 2016, um país foi afetado por um dos maiores ciberataques da história. Provavelmente, não terá ouvido falar. Porém, durante uma semana, o acessoà internet na Libéria foi impossível e um país ficou cortado do resto do mundo

Não é um simples exercício de retórica dizer-se que a primeira linha de combate se deslocou do terreno de operações convencional para o ciberespaço, um desígnio estratégico com muitos vetores. Até que ponto estamos bem armados para a ciberguerra?

“Qualquer um pode aprender a destruir a internet”, garante Bruce Schneier, papa da cibersegurança venerado pelos geeks de Silicon Valley. “Há cerca de dois anos que alguns atores maiores da web lançam ataques precisos e calibrados cujo objetivo é testar as defesas e avaliar a melhor forma de as derrubar.”

Blackout da internet, e-jihad, ataques de hackers, de terroristas e de potências rivais apresentam ameaças inéditas. As eleições norte-americanas e a interferência nas mesmas de hackers russos e bloggers do Kremlin, apoiados pela WikiLeaks, que sob a etiqueta #DemocracyRIP# levaram a cabo uma campanha para desacreditar Hillary Clinton e promover o candidato Donald Trump, tornaram evidente o valor singular do ciberespaço.

As sociedades modernas nas quais computadores controlam equipamentos industriais, sistemas de segurança, transportes terrestres, tráfego aéreo, barragens, centrais nucleares, redes de eletricidade ou telecomunicações são assustadoramente vulneráveis. Por outro lado, pode ser mais fácil atacar um país através dos seus sistemas informáticos e eletrónicos do que fazê-lo recorrendo a um ataque militar convencional.

As ciberarmas podem ser mais eficazes do que mísseis, como demonstrou o sucesso do verme Stuxnet, desenvolvido conjuntamente pelos Estados Unidos e Israel e que sabotou centrifugadoras de enriquecimento de urânio iranianas. Eric Chien, diretor da Symantec Security, declarou num fórum da “Foreign Affairs”: “Se, há algum tempo, alguém me contasse a história do Stuxnet, eu teria desatado a rir. Era um enredo de filme. Infelizmente, ele aí está.” É uma “arma de guerra” que sai do mundo virtual e ataca no “mundo real”. Quase fez esquecer o ciberataque lançado pela Rússia contra a Estónia em 2007.

Evgueni Kaspersky, especialista russo de segurança, frisa o caráter inédito do “cibermíssil” Stuxnet. “O seu fim não é roubar dinheiro, enviar spam, desviar dados pessoais. Foi concebido para sabotar e danificar sistemas industriais. É um ponto de viragem que nos fez entrar num novo mundo. Na década de 90 havia cibervândalos e, na de 2000, cibercriminosos. Entramos na década do ciberterrorismo, das ciberarmas e das ciberguerras.”

Ainda não ocorreu um “ciber-Pearl Harbour” ou um “ciber-11 de Setembro”; contudo, o risco existe, e para os analistas de segurança de defesa será uma questão de tempo. Para já, os hackers coligem vulnerabilidades e reúnem informação estratégica que lhes permita um dia usar a inovação tática como vantagem estratégica num ataque massivo. É um pouco como a análise de imagens de satélite feita pelos militares antes de uma ofensiva.

No início de novembro de 2016, um país foi afetado por um dos maiores ciberataques da história. Provavelmente, não terá ouvido falar. Porém, durante uma semana, o acesso à internet na Libéria foi impossível e um país ficou cortado do resto do mundo.

Sem um aparente objetivo, a ofensiva gigante foi classificada como “prova de conceito” ou como “ensaio ciber” por analogia com os ensaios nucleares. Um ciberexército de hackers quis provar que é capaz de paralisar um país para acrescentar uma linha no curriculum vitae e vender melhor os seus serviços.

Em países mais dependentes da internet, um ataque como o ocorrido na Libéria poderia ter repercussões graves.

Não é necessário ser-se ciberapocalíptico para perceber que uma ofensiva cibernética maior poderia afetar profundamente a economia mundial – imagine-se o crash de uma plataforma interbancária como a SWIFT, na qual 11 mil bancos de 200 países trocam 25 milhões de ordens de pagamentos por dia; pôr em causa a segurança nuclear – recordem-se os recentes ataques russos com o vírus Black Energy às centrais ucranianas e alemãs –; ou causar os caos nos transportes – em agosto de 2016, uma avaria informática levou à anulação de 2300 voos da Delta Airlines e traduziu-se num prejuízo de cem milhões de dólares .

Refletindo sobre a ciberguerra, o general Loureiro dos Santos nota que o ciberespaço “favoreceu o militarmente fraco contra o militarmente forte, fazendo com que o conflito assimétrico assumisse o papel que nunca teve”. Ou seja, as armas informáticas são “armas de pobre”. Com poucos “soldados” é possível ter-se efeitos devastadores, o que faz com que, em matéria de ciberdefesa, seja bom de-senvolver uma “paranoia saudável”, porque na ciberguerra não há amigos.

Escreve à segunda-feira

 

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