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Santarém. Câmara tenta vender metade de antigo bairro militar

Santarém. Câmara tenta vender metade de antigo bairro militar

DR Mariana Madrinha 30/01/2017 12:07

A Câmara Municipal de Santarém leva hoje a hasta pública dois dos quatro edifícios que compõem do antigo bairro militar, onde muitos funcionários e antigos militares da antiga Escola Prática de Cavalaria de Santarém (EPC) iniciaram as suas vidas. Os prédios, adquiridos pelo executivo à Estamo após a desativação do quartel, foram saqueados ao longo dos anos

Era um complexo de habitação social quase igual a tantos outros, composto por quatro blocos de edifícios sem grande história. Agora está devoluto, mas há pouco mais de dez anos bastava passar por lá para perceber a diferença entre este e outros locais similares: a maioria dos habitantes vestia farda e as casas com pouca história compunham, afinal, um bairro cheio de vida. Hoje, a câmara vai tentar vender em hasta pública dois dos quatro lotes do complexo, os blocos 3 e 4.

Desde que a EPC saiu de Santarém, em 2006, que os edifícios foram votados ao abandono. Sem o Exército, outrora o empregador por excelência da capital ribatejana – especialmente na altura do serviço militar obrigatório –, o local tornou-se uma espécie de terra de ninguém.

Foram adquiridos pela autarquia à Estamo (em conjunto com as antigas instalações da Escola Prática de Cavalaria) – quando o executivo era ainda liderado por Moita Flores, em 2011.

Construído em 1948 , o bairro foi usado para habitação por militares – especialmente sargentos –, mas também civis que trabalhavam na unidade.

Alienação O valor base de licitação é de 536 320 euros para cada um dos dois lotes e o valor mínimo de cada lance é de 500 euros. Cada um dos blocos é composto por oito apartamentos, explicou um antigo morador ao i.

Já o terreno do bairro tem como valor base de licitação 410 800 euros e o mesmo valor mínimo para cada lance, 500 euros.

Em resposta ao i, a autarquia liderada por Ricardo Gonçalves explicou que todas as propostas abaixo do valor-base de licitação “serão automaticamente excluídas”.

A venda terá lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho e, por agora, serão apenas alienados dois blocos de um total de quatro. Questionada pelo i sobre a intenção de alienar apenas metade do bairro, a câmara respondeu que é uma “opção” do executivo.

Prédios saqueados Carlos Quintino, jornalista e escalabitano, esteve em 2014 dentro de um dos prédios, onde tirou dezenas de fotografias . “O saque era uma coisa impressionante e quem o estava a fazer deu-se ao luxo de o fazer à luz do dia. E fê-lo de uma forma organizada, com toda a calma do mundo. Quando lá estive vi placas de mármore empilhadas à espera de serem levadas, baldes cheios de interruptores”, descreve.

Desde lava-louças a canos, tudo foi roubado. Uma semana depois de as imagens terem sido publicadas na internet, a autarquia vedou as entradas.

Antes disso, em 2009, a imprensa local dava conta de que a câmara chegou a colocar cães do canil para protegerem o local, uma opção muito criticada pelos munícipes. Nenhuma das medidas de proteção resultou e os prédios acabaram por ser totalmente roubados.

“É uma grande tristeza ver aquele local decrépito, numa zona de entrada e saída da cidade”, diz Carlos Quintino, responsável pelo site “Eu Gosto de Santarém” e que também gere uma página no Facebook unicamente dedicada à Escola Prática de Cavalaria de Santarém.

“Cumpri o serviço militar obrigatório na EPC e reconheço o empenho dos militares na manutenção daquele local. Dentro da escola não se via uma única folha na parada”, relembra.

Sobre o futuro do antigo bairro militar, responde sem pretensões de “especialista em urbanismo”. “Como habitante de Santarém, só gostava que aquilo não continuasse a ser saqueado, isso entristece qualquer escalabitano.”

“Ver aquilo agora é revoltante” Carlos não é o único a pensar deste modo. “Evito passar por lá, é uma dor no coração ver o estado de degradação a que aquilo chegou”, contou ao i um sargento-chefe do Exército na reserva, que prefere não se identificar –um sentimento que o militar diz ser transversal aos antigos trabalhadores e moradores da EPC.

“Morei num dos T1 entre 1994 e 1996, enquanto durou a construção da minha casa”, conta. Uma das condições para que os militares ou civis pudessem morar no espaço era estarem casados. “Inscrevíamo-nos na logística e depois os apartamentos eram distribuídos conforme iam vagando.”

A renda paga à instituição era simbólica e variava conforme a tipologia dos apartamentos, que podiam ir dos T1 aos T3. “A água, gás e telefone é que ficavam por conta dos inquilinos”, relembra o mesmo militar. “Foi uma grande ajuda para quem estava a começar a vida. Não eram casas de luxo, mas as pessoas tinham brio e mantinham o local em condições.”

Por isso, este antigo morador sente que houve algum desleixo, e o local, tanto o bairro como o complexo militar, nunca deveriam ter chegado a este ponto. “Quem conheceu e quem viveu tanto a EPC como o bairro e ver aquilo agora, é revoltante”, diz o militar que serviu durante 11 anos seguidos em Santarém, antes de ser colocado em Santa Margarida.

O antigo sargento, que continua a morar nos arredores da cidade, assegura que para além de não passar nas antigas casas, nunca mais entrou na EPC de Santarém, onde atualmente funcionam vários serviços. “Quero lembrar-me da escola como a conheci e vivi.”

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