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Eusébio. Quando o pior cego é o que só vê a bola...

Eusébio. Quando o pior cego é o que só vê a bola...

Afonso De Melo 25/01/2017 12:54

Faria hoje 75 anos. Durante o Campeonato do Mundo de 1966, Joseph-Marie Filippi escreveu que o seu nome ressoava como o de uma personagem de Musset. Trouxe-o para a literatura

Dia 25 de Janeiro. Eusébio faria hoje 75 anos. Devia estar a comemorá-los com os amigos, com aqueles de quem gostava e que gostavam dele. A morte traiu-o pelo caminho.

Tive a oportunidade de, ao longo do tempo que conheci Eusébio, escrever muito sobre ele. Sobre o que me contou, sobre o que vi, sobre o que me contaram sobre ele, sobre o que li. Deu para muitas e muitas crónicas de jornal, para muitas entrevistas, para dois livros: “Viagem em Redor do Planeta Eusébio” e “Eusébio Enciclopédia”.

Continuo a escrever sobre Eusébio. É uma forma de o manter vivo.

O mais fascinante personagem que vi sobre um campo de futebol. Figura antediluviana... Absoluta!

Durante o Campeonato do Mundo de 1966, Joseph-Marie Filippi, no insuspeito “Le Monde”, escreveu isto: “Eusébio, melhor marcador do Mundial, esse atleta excepcionalmente dotado cujo nome ressoa como o de uma personagem de Musset. O mundo inteiro procurava o título. Numerosos países mobilizaram as suas forças para o conquistar. Cada equipa foi apoiada pelo entusiasmo de milhões de adeptos. E um jogador escuro, de um pequeno país, impõe a sua lei frente a essas multidões febris. Creio ser necessário dizer obrigado a Eusébio. Ele demonstrou-nos que os empreendimentos humanos não devem tudo à máquina, nem ao gregarismo de uma sociedade anónima, e quanto podem ainda contar, sobre o velho instrumento da calúnia, com o esforço do homem e o valor individual de enfrentar obstáculos. Sim, as exibições de Eusébio talvez tenham um significado simbólico. Nesta época da ‘Marcha da Paz’ e da ‘Marcha Contra o Medo’, não é apenas com os pés que se defende a Humanidade”.

Há quem diga que não há no futebol lugar para a literatura. Pois, se isto não é literatura, onde está a literatura?

Eusébio. Há nomes assim: esse ponto final parágrafo aí em cima poderia ser um ponto absolutamente final. Porque a Eusébio nada se acrescenta. Exagero subjectivo!, exclamarão alguns. Estão no seu direito. E aqui estou, subjectivamente, a escrever de novo sobre Eusébio. A dimensão de um nome.

Escreveu-se

Convenhamos: Eusébio escreveu-se a si próprio. Para mim, um dos nomes fundamentais do futebol nunca tocou numa bola: Nelson Rodrigues. A ele se devem as mais belas páginas escritas em português sobre o jogo que os ingleses inventaram. E, ao contrário do que dizem esses iluminados de tudo e de mais alguma coisa, futebol e literatura têm muito em comum. Têm muitíssimo em comum.

Nelson Rodrigues: «Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural». Era aqui que queria chegar: Eusébio é demasiado complexo para se poder ser objectivo.

Ficaremos, portanto, no reino mágico da subjectividade, agora que 75 anos são passados sobre o momento em que D. Elisa Anissabana, lá na Mafalala da antiga Lourenço Marques, deu à luz um menino, embora quisesse uma menina.

Revejam o filme do primeiro golo de Eusébio contra o Brasil, em 1966, no Campeonato do Mundo de Inglaterra. Ou melhor, revejam-no depois do golo: ele corre, de braço no ar. A cabeça está erguida, imperial, reparem bem: há no seu olhar, que abarca todo o estádio de Goodison Park, em Liverpool, a consciência de que a história está a passar por ele, pela sua passada elástica, veloz, o redor move-se em câmara lenta, só ele tem vida para além da vida corriqueira, insignificante, só ele ganha luz para além dessa vidinha de que falava Alexandre O’Neill e que acabrunhava o país triste.

Corre, Eusébio, corre. Está apenas a comemorar um golo, mas até disso dir-se-ia depender a sua própria existência. Aquela corrida parece durar horas e horas. Aquela corrida merecia durar horas e horas. Prestem bem atenção, agora: ele eleva-se no ar como se tivesse as asas nos pés de um Mercúrio negro. O seu braço erguido estende-se para lá do estádio, quase tocando o céu num soco vigoroso, vibrante. Não tirem os olhos dele: deixem-no ficar assim para sempre na parede lisa da vossa memória.

 

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