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José Paulo do Carmo 06/01/2017
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Os “bons” também existem por aí

A universidade é cara e a vida não está fácil para ninguém. Por isso, fazes-te “à estrada”, à procura de um emprego que te dê um bilhete rumo à independência.

Apetece-te ter as tuas coisas, construíres o teu caminho, o teu mundo, sem teres lá em casa alguém que te diga, “Maria, não devias chegar tão tarde a casa”, “ Maria, deixaste outra vez o quarto desarrumado, já não tens idade para isto, ainda se fosse o teu irmão , agora tu?”, “Maria, não gosto que saias com essa roupa, pareces muito vulgar”. Maria isto, Maria aquilo, já não consegues nem respirar, quanto mais pensar em condições.

A tua prima Susana, considerada a ovelha negra da família, trabalha em discotecas desde os 16. Primeiro como bailarina, depois atrás do bar, e já nem vê os pais desde o Natal de há dois anos. Não é isso que tu queres, só precisas de um espaço teu, de provares a ti própria que consegues e que podes fazer as coisas à tua maneira e, sobretudo, ao teu gosto. Concorres então para a vaga num bar ali para os lados do Cais do Sodré. Não tens medo de trabalhar nem vergonha de ganhar o teu próprio dinheiro, e facilmente, dada a tua educação e simpatia no trato, te chamam para um mês à experiência . 

Rápido conquistas a simpatia do chefe, uma vez que, inocentemente, tentas tudo para ficar bem vista no trabalho, o que te vale os epítetos de “cabra” e “graxista” para aquelas que nada fazem e ali se encontram encostadas sem objetivos nem motivações. Vir de fora e mostrar que é possível fazer bem feito mesmo sendo novata é sempre chato para os outros. Passadas duas semanas, os sorrisinhos e simpatias do teu superior transformam-se num ar rebarbado e nuns toques “subtis” no ombro e na cintura, até que és apertada à séria numa das suas constantes chamadas ao escritório.

Fazes que não percebes e vais preocupada para casa a pensar no que fazer da vida. Não queres contar para já ao teu namorado novo porque os pais dele e os amigos não vão gostar de saber que trabalhas atrás de um bar. No fundo, eles são daqueles que querem que sejas economista ou advogada, mas de preferência com o dinheiro que ganha o padeiro . O que interessa é um rótulo pomposo e notas na carteira; se conseguires tratar toda a gente por você e fizeres um som nasalado, melhor. Mas tu não és assim. Respiras fundo e adormeces, mas rapidamente acordas envolta num pesadelo com o teu chefe à mistura. Ele pede-te para ficares até mais tarde porque têm de fazer inventário e só confia em ti mas, sem te aperceberes, já tem as luzes apagadas e a mão no meio das tuas pernas. Começas a chorar por dentro, depois por fora, e pedes para parar. Ele ri-se e diz que tu é que provocaste porque levaste uns calções curtinhos. Paras inerte, sem reação, em estado de choque.

Mandas um berro de dor interior e foges dali para fora com a humilhação a escorrer-te pelo rosto. Mas saíste, e isso é que é importante. Às vezes preferias não ser tão gira, era tudo tão mais fácil… No dia seguinte ligam-te a informar que estás dispensada, já não serves, deixaste de ser a querida e outra virá, outra presa para as garras do urso. Por vezes, nem imaginamos o que passam algumas pessoas à nossa volta. O assédio, a vergonha, o sofrimento interior. E, quase sempre, do que essas pessoas precisam é tudo menos recriminação e sermões, mas sim um apoio que lhes permita desmascarar esses pulhas e não desistir da vida, porque os bons também existem por aí...

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