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Casamentos. Um brinde aos noivos, ao Natal e ao ano que aí vem

Casamentos. Um brinde aos noivos, ao Natal e ao ano que aí vem

Shutterstock Joana Marques Alves 03/01/2017 19:32

Uma mesa cheia de azevinhos e um brinde aos noivos durante as 12 badaladas. Poucos casam nesta época festiva, mas quem opta por esta altura só tem boas recordações

Melhor do que uma festa, só mesmo duas numa só: brinda-se a dobrar, celebram-se duas ocasiões especiais, vive-se mais intensamente um dia com duas comemorações. Por isso, há quem junte o útil ao agradável e decida casar no Natal ou na passagem de ano, uma moda que ainda poucos seguem, mas que acaba por dar um toque diferente às cerimónias.

Segundo dados do Ministério da Justiça a que o i teve acesso, este ano foi celebrado, em Lisboa, apenas um casamento no Dia de Natal, dia 25 de dezembro. Na véspera, houve 13 casamentos: quatro em Coimbra, um na Guarda, dois na Madeira, um em Leiria, dois em Lisboa, um no Porto, um em Vila Real e outro em Viseu.

A passagem de ano parece ter mais adeptos: de acordo com a mesma fonte, no passado dia 31 de dezembro oito casais celebraram a sua união no Porto, três em Lisboa, dois em Santarém, dois em Viana do Castelo, dois em Viseu, dois em Coimbra, um em Braga, um na Madeira, um na Ilha de São Miguel (Açores), um no Faial (Açores), um em Leiria e outro em Setúbal. No total, 25 casais decidiram ‘dar o nó’ na viragem do ano e ouvir as doze badaladas já de aliança no dedo e rodeados pelas famílias e amigos. Já no primeiro dia do ano, apenas um casal decidiu celebrar a sua união e, até ver, esta é a data menos concorrida da quadra. A cerimónia teve lugar na Madeira.

As ‘dores de cabeça’ de quem organiza

Se os pedidos não são muitos, quem trabalha na organização de casamentos tem trabalho redobrado para satisfazer as vontades dos noivos.

Planear um casamento na quadra festiva acarreta complicações logísticas, dores de cabeça que muitas vezes até acabam por dissuadir os interessados de dar o nó nestas datas.

“Durante dois ou três anos tivemos pedidos para a Passagem de Ano, mas acabaram por não se concretizar. É uma altura complicada em termos de espaços disponíveis. Para além disso, a maioria dos valores estão bastante inflacionados”, explicou ao i Teresa Perdigão, da empresa de organização de casamentos Something Borrowed.

Em sete anos de vida, não têm sentido o aumento do interesse nesta quadra e por isso não se pode falar ainda de uma moda. A mesma opinião tem Maria Luís Vaz Teixeira, da empresa Mary Me. Organizaram um casamento no dia 31 de dezembro, mas a responsável concorda que os pedidos são raros e que a maioria prefere ‘apostar no seguro’ e marcar a cerimónia para uma data com sol e calor. “O nosso inverno não é particularmente bonito: não tem neve, normalmente chove e está bastante frio. Há muito menos pedidos para esta altura do que no resto do ano”.

Maria Luiz Vaz Teixeira também reconhece que os preços são um dos principias problemas: a vontade de unir as duas datas pode sair bastante dispendiosa para os noivos. “As pessoas acham que o casamento fica mais barato por ser em dezembro, mas isso não é verdade, principalmente no Natal e na Passagem de Ano. No resto do inverno, os preços são iguais em tudo. No entanto, alguns responsáveis pelos serviços podem acabar por fazer uma atenção, porque é uma altura em que têm menos eventos”, explica.

Se a meteorologia não é a mais convidativa e a conta final pode ser motivo para dizer ‘não’, alguns casais insistem. Quem trabalha no ramo, sente que há um motivo comum: conseguir juntar convidados que de outra forma não poderiam estar presentes na festa.

“A família está toda reunida nesta altura e junta-se o útil ao agradável. Há muitos casos em que um dos noivos emigrou ou é de nacionalidade estrangeira. Por isso, estas datas acabam por fazer sentido para conseguir juntar as pessoas mais importantes e assinalar os dois momentos”, disse ao i a organizadora de casamentos Maria Oliveira, de Coimbra.

Quando a data fica mesmo fechada, chegam outros desafios. “Normalmente, os espaços já estão reservados para festas de Passagem de Ano são hotéis e restaurantes. As quintas, por exemplo, costumam estar disponíveis. O desafio é encontrar um espaço que responda às necessidades, porque num casamento no dia 31 de dezembro, por exemplo, não se dá destaque apenas ao corte do bolo, mas também à meia-noite e a celebração do novo ano”, acrescenta Maria Luís Vaz Teixeira.

E como esses são serviços muito requisitados nesta altura do ano, catering e animação podem sair mais caros do que na época alta dos casamentos.

Ainda assim, há quem consiga dar aos amigos e familiares uma noite de Natal diferente ou uma festa de Passagem do Ano mais exuberante. No Natal, alguns noivos deixam os temas clichés dos casamentos e apostam na decoração temática, nas cores vermelho e dourado, nos azevinhos nas mesas e na troca de presentes.

Na última noite do ano, o ponto alto pode deixar de ser o bolo dos noivos e costuma ser oferecido um bom champanhe, as tradicionais 12 passas e um espetáculo de fogo-de-artifício no final. “Com crise ou sem crise. Nesta área não se vê muito disso”, brinca Maria Luís Vaz Teixeira.

O melhor presente de Natal

Quem casou nesta altura não parece arrepender-se e a história de Ana Celeste Agostinho, de 57 anos, mostra bem como o fenómeno não é de agora.

Celeste conheceu Óscar quando ainda andava na escola. Circunstâncias da vida levaram-na a emigrar para a Alemanha, onde esteve 10 anos. “Éramos vizinhos no Barreiro e tínhamos andado na mesma secundária. Quando vim a primeira vez de férias a Portugal, aos 19 anos, a minha futura sogra disse-me que ele perguntava muitas vezes por mim, por isso decidi visitá-lo. A partir daí, trocámos correspondência e começámos a gostar um do outro”, conta ao i.

O tempo passou e decidiram casar. Quando foi de marcar a data, depressa perceberam que não tinham muitas hipóteses. “Normalmente os emigrantes ou vêm no Natal ou em agosto. Tirei o curso de enfermagem na Alemanha e quis trabalhar um ano lá antes de ter férias, por isso só poderia regressar em outubro. Decidimos então casar em dezembro de 1983. O dia 24 era um sábado e acabou por calhar bem. Só queríamos aproveitar a data, não tinha particularmente a ver com o Natal.”

Para Celeste e Óscar, não houve problemas em marcar a cerimónia na véspera de Natal: “até marcámos tudo em cima da hora”. Juntaram os familiares e amigos mais próximos e fizeram a festa no Montijo. “Celebramos sempre o dia do nosso casamento. Nos primeiros anos, tentávamos almoçar no restaurante onde casámos, mas depois deixou de ser possível e escolhemos outro, que entretanto também fechou. Atualmente, optamos por almoçar em casa: fazemos um almoço diferente com os filhos. É muito difícil encontrar um restaurante que naquele dia tenha um ambiente calmo. E todos os anos, o meu marido oferece-me um ramo de flores”, contou.

Dia dos noivos, festa de todos

Maria Luís Vaz Teixeira, da empresa Mary Me, organizou este ano o casamento de Sandrine e Simão. Ela tem 26 anos, ele 28, e conheceram-se na Universidade em Coimbra.

Depois de seis anos de namoro, decidiram que estava na altura de casar. O dia escolhido foi 31 de dezembro. “É uma das melhores alturas do ano. Para além disso, tanto eu como o meu namorado [agora marido] temos aquele dilema na altura de escolher estar com a família ou os amigos na Passagem de Ano, por isso esta foi a única em que estivemos com todos em simultâneo”, contou Sandrine ao i a dias de dar o nó.

As condições atmosféricas também tiveram um papel na decisão da data, prova de que há sempre exceção à regra – neste caso, quem não ache propriamente que a canícula de agosto – o mês em que se celebram mais casamentos no país – seja o melhor enquadramento.

O calor não era algo que agradasse muito aos noivos, por isso preferiram um casamento no inverno, onde pudessem jogar com o glamour da data escolhida: “As pessoas ficam mais bonitas na Passagem de Ano, com casacos e vestidos brilhantes”.

E assim foi: Simão e Sandrine deram o nó na Igreja de Alfena e a receção foi no Hotel Rural Quinta da Vista Alegre, em Freamunde.

Depois da cerimónia ‘convencional’, os noivos quiseram que a festa deixasse de ser apenas deles e passasse a ser de todos aqueles que iam entrar em 2017. “Queríamos que os nossos convidados não estivessem ali só por nossa causa, mas que festejassem a passagem de ano e tivessem tempo para ligar aos amigos e familiares que não estavam connosco naquele momento. Não queríamos propriamente uma meia-noite igual às outras, com o corte do bolo”, disse Sandrine.

O casal já sabia que iria ter de lidar com alguns entraves, mas nada os fez mudar de ideias.

“É difícil escolher o local. Nós sabíamos de antemão que muitos sítios que não iriam aceitar o nosso casamento por já estarem comprometidos com festas de fim de ano”, reconhece Sandrine. O facto de terem 270 convidados só subia a fasquia. Também sabiam que podia sair mais caro e nada os dissuadiu. “Era aquela a data que queríamos e não íamos alterá-la, mesmo se tivéssemos de dar mais dinheiro por cada convidado”. Com alguma persistência e muita paciência, tudo se fez.

 

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