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Alves Redol. Nasceu há 105 anos uma das figuras cimeiras do neo-realismo português

Alves Redol. Nasceu há 105 anos uma das figuras cimeiras do neo-realismo português

Teresa Carvalho 29/12/2016 14:05

Aliando uma marcada sensibilidade lírica a uma grande capacidade de rigor e de observação da realidade social, Alves Redol compôs em vários volantes o políptico do mundo do trabalho, fazendo emergir na cena literária portuguesa o povo rural como virtual sujeito e enunciador da História.


Romancista e dramaturgo, Alves Redol (29 de Dez. 1911 - 29 Nov. 1969) é a figura emblemática do movimento Neo-Realista em Portugal, cujo início se tem feito coincidir com a publicação do seu primeiro romance: Gaibéus (1939), um livro que recolhe o trajecto sacrificial de emigrantes na própria pátria. A curta mensagem que o precede, na sua dupla postulação, documental e literária, determinou para sempre o clima de debate estético interno que dominou o programa neo-realista: «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem.»
Alves Redol é, ele próprio, uma figura modelar num movimento literário cuja ambição maior consistia em fazer uma arte do povo destinada ao povo: dele veio e para ele escreveu, postura que lhe valeu, simultaneamente, o êxito junto de um grande público e o ataque impiedoso da crítica, que apontava como deficiências de escrita a linguagem simples da sua prosa e o carácter algo esquemático e maniqueísta das tramas romanescas.
Nascido em Vila Franca de Xira, no seio de uma família de rurais e mestres de ofício, cedo começa a trabalhar no escritório do pai, modesto comerciante que responde com reprimendas à inabilidade do jovem Redol, avesso às colunas do deve e do haver. As dificuldades financeiras da família levam-no, aos 16 anos, a embarcar para Angola, onde chega de mãos vazias e com uma vontade grande de vencer. Decorridos três anos de contrariedades – trabalhos precários e incertos, o desemprego prolongado, a malária –, regressa à Metrópole, anémico e maltratado pela vida. A esperança, essa, permanecia ilesa. 
Em Lisboa, enveredará pelos meandros da oposição ao Estado Novo, ingressando no Partido Comunista. Por duas vezes esteve preso: a primeira, em 1944, ofereceu-lhe matéria para A Barca dos Sete Lemes (1958), romance picaresco em que abandona o primarismo maniqueísta das teses dos seus primeiros livros; a segunda, em 1963, mais contribui para lhe corroer a saúde frágil. 
À teoria do curso comercial que em 1927 concluiu em Lisboa, habilitação máxima que o pai lhe pôde oferecer, juntará, nos anos ‘60 – era em Portugal a fase aguda da repressão anti-cultural fascista –, a prática da «Universidade popular ambulante» (Urbano Tavares Rodrigues), que com outros companheiros de estrada foi levado a constituir, respondendo, numa actividade semi-clandestina, às múltiplas solicitações de sociedades operárias e agrupamentos, doando a sua voz aos que (ainda) a não podiam ter. 
 Desejou sempre profissionalizar-se como escritor e conseguiu-o. Não por muito tempo, que, no seu país, o exclusivo trato das letras era sinónimo de ruína. As actividades profissionais que desenvolveu para prover ao seu sustento – no ramo editorial e publicitário – decorrem paralelas a uma intensa actividade de escrita. Na sua vasta obra figuram importantes romances: Avieiros (1942), Fanga (1943), marcos da fase heróica do Neo-Realismo, de que exemplarmente espelham as virtudes e as limitações, depois superadas, Olhos de Água (1954), Uma Fenda na Muralha (1959), os três volumes da série Port-Wine (1949-1953), a deslocar o espaço da ficção da lezíria ribatejana e das margens do Tejo para o Douro: Horizonte Cerrado, Os Homens e as Sombras, Vindima de Sangue. Barranco de Cegos (1962), porventura o seu romance mais conseguido, é habitualmente considerado como a sua obra-prima.
Alves Redol não se deteve na ficção narrativa. O teatro concentrou também a sua atenção, como comprovam os três actos da tragédia Forja (1948) ou o «divertimento popular» O Destino Morreu de Repente (1967).
Morreu novo, depois de dias de padecimentos e sem saber qual a cor da liberdade pela qual sempre ansiou. 

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