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Pearl Harbor. Enquanto Trump não chega, Abe e Obama promovem reconciliação
Abe foi recebido por Obama, naquela que poderá ter sido a última receção do presidente a um líder estrangeiro

Pearl Harbor. Enquanto Trump não chega, Abe e Obama promovem reconciliação

Abe foi recebido por Obama, naquela que poderá ter sido a última receção do presidente a um líder estrangeiro AFP António Saraiva Lima 28/12/2016 10:42

Primeiro-ministro japonês esteve numa cerimónia histórica, na base militar norte-americana bombardeada de surpresa pela aviação imperial japonesa, em 1941, completando o ciclo de reconciliação que começou com a visita do presidente de Barack Obama a Hiroxima

A celebração pública, por parte de líderes mundiais, de datas emblemáticas ou a sua presença em locais carregados de memória histórica, fazem parte de um leque de ferramentas muito útil àqueles que fazem política internacional e, já se sabe, quanto maior for a carga simbólica envolvida, maiores as probabilidades do momento perdurar através da História e daquela ação vir a surgir na lista dos episódios mais marcantes do mandato dos políticos envolvidos. Que o diga Barack Obama que, entre outras visitas históricas, esteve em Cuba, discursou perante a União Africana e homenageou as vítimas da bomba atómica norte-americana que arrasou Hiroxima, em 1945. 

Ora, o presidente dos Estados Unidos foi precisamente o anfitrião de uma outra visita histórica, digna de vir a figurar nos manuais sobre as relações entre Japão e EUA. Trata-se da presença, na terça-feira, do primeiro-ministro Shinzo Abe em Pearl Harbor e, mais concretamente, numa cerimónia de homenagem aos 2403 norte-americanos que morreram, no dia 7 de dezembro de 1941 - a “data que viverá na infâmia”, nas palavras do presidente Franklin D. Roosevelt - após o ataque surpresa da aviação imperial japonesa àquela base havaiana. 

Mais simbolismo não poderia haver. Foi aquela agressão inesperada - pese o facto de os japoneses garantirem que “questões burocráticas” impediram que os EUA tenham percebido mais cedo que o ataque ia mesmo acontecer - que levou os norte-americanos a deixar para trás a sua posição isolacionista, entrando, finalmente, na Segunda Guerra Mundial, do lado dos aliados. Guerra que acabou com os Estados Unidos a largarem, quatro anos mais tarde, duas bombas atómicas sobre as cidades de Nagasáqui e Hiroxima, na ânsia de derrotarem de vez o Império Japonês. E foi também, após o fim do confronto bélico, espoletado pela investida em Peal Harbor, que EUA e Japão iniciaram uma pacífica, duradoura e frutuosa aliança, a todos os níveis, no Pacífico, suportada, ainda assim, pelo investimento norte-americano na defesa japonesa, face à renúncia à guerra, consagrada na Constituição do Japão.

A visita de Abe ao memorial construído por cima do navio norte-americano “USS Arizona”, que repousa nas águas de Pearl Harbor é, pois, um marco histórico, tal como tinha sido a presença de Obama em Hiroxima, em maio deste ano. Nenhum dos líderes pediu desculpa, é certo, pelas agressões militares ordenadas, há mais de 70 anos, pelos seus antecessores, mas ambos partilharam a mensagem de apelo à reconciliação definitiva entre as dois nações e, em jeito de alerta, relembraram os perigos da utilização indevida de poder nuclear.

Cumprimentar Obama e piscar o olho a Trump

A presença de Abe no seu estado natal será, provavelmente, a última receção de Obama a um líder estrangeiro e, nesse sentido, ao simbolismo da visita ainda acresce mais um pouco de importância histórica. No próximo dia 20 de janeiro o ainda chefe de Estado vai ceder o lugar ao presidente eleito e, com esse gesto, abrir-se-á um novo ciclo de relações entre EUA e Japão.

Se as visitas dos seus líderes a locais carregados de História podem ser garantia de que a aliança vive dias felizes, a chegada ao poder de Donald Trump - um confesso defensor do aumento do arsenal nuclear dos EUA - coloca vários pontos de interrogação no relacionamento. É que o republicano não se conteve, durante a campanha presidencial, em criticar os gastos excessivos dos EUA em matéria de segurança, tanto no Japão, como na Coreia do Sul. Neste sentido, a decisão norte-americana por uma eventual redução da presença militar na região abrirá, seguramente, as portas ao aumento das forças chinesas no Pacífico, como, de resto, se tem verificado. A este último ponto há que relacionar a abordagem de aparente confrontação com a China, seguida por Trump, nomeadamente através da sugestão de que a política “uma só China” poderá ser moeda de troca num novo acordo comercial.

Enquanto ator regional pacifista - apesar dos esforços de Abe em alterar a Constituição japonesa e oferecer ferramentas de defesa ao país -, ao Japão não convirá, naturalmente, o aumento da tensão no Pacífico.

Abe não esperou, claro, pela deslocação a Pearl Harbor, para perceber que necessita da amizade (e do armamento) dos EUA e do seu novo presidente. Poucos dias após a eleição do magnata, fez escala na Trump Tower, numa viagem para o Perú, para conhecer o próximo líder norte-americano, tendo inaugurado mesmo a carreira “diplomática” do republicano. Um outro momento simbólico, diga-se.

De simbolismo em simbolismo, Shinzo Abe está no bom caminho para ser lembrado pela História. Resta saber qual o papel de Trump na narrativa que se vai contar. 

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