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O sucesso constrói-se também fora das salas de aula

O sucesso constrói-se também fora das salas de aula

Mariana Madrinha 17/12/2016 16:00

Se é das planícies alentejanas que surge a melhor escola pública básica do país – a D. Manuel I, em Beja -, a secundária que ocupa esta posição é bem no centro da capital, dividindo a paisagem com um bairro charmoso dos anos 50/60 e o megalómano edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos. É na secundária D. Filipa de Lencastre – conhecida pelo Filipa por alunos e professores - que se presta, segundo os critérios do ranking do B.I., o melhor ensino público do país. No quadro geral, a escola surge em 34º. lugar.

Como provam os rankings, no final do 12.º ano os alunos saem pelo portão do sucesso. Por isso, a porta de chegada é estreita para tanta procura, que começa logo no pré-escolar. Só este ano, 113 alunos ficaram de fora. E entre o primeiro e o 12.º ano houve cerca de 400 alunos que não conseguiram entrar nesta escola. Todos os anos, há histórias de providências cautelares e tensão pré matrícula ao barulho.

Tudo porque pais e alunos sabem que, depois de entrar no Filipa, o sistema funciona sobre rodas. Há um núcleo central efetivo de professores muito forte, uma associação de pais que coopera ativamente nas atividades, uma mão cheia de projetos fora da sala de aula e outra de atividades extracurriculares, como os ateliês de robótica. Mas já lá vamos.

Neste agrupamento há um total de 1890 alunos – 551 frequentam o ensino superior – e 143 professores. Laura Medeiros, diretora há um ano e professora há muitos, acredita que a chave do sucesso é um aglomerado de várias ligas. “O trabalho em conjunto dos professores é uma parte do êxito e incentivamos essa articulação e essa reflexão em grupo sobre os caminhos a seguir”.

Outra das apostas – ganhas – para a diretora prende-se com a coadjuvância inter ciclos. “No ano passado tivemos reuniões entre os professores titulares de turma do 4.º ano e os do 5.º ano, que conversam sobre os alunos para lhes traçar o perfil de aprendizagem do aluno. Por outro lado também temos, por exemplo, professores de português do secundário que vão fazer coadjuvâncias no primeiro ciclo”.

No dia em que Laura Medeiros, diretora do Filipa, recebeu o B.I., os alunos do pré-escolar enchiam o auditório de músicas de Natal. São estes alunos que, na sua esmagadora maioria, comporão as turmas de secundário daqui a uns anos. “Isto é muito bom porque conhecemos bem o perfil dos alunos, já que fazem todo o seu percurso dentro do agrupamento. Sabemos onde são mais fortes e mais frágeis e assim podemos prestar um acompanhamento diferente”, diz Laura Medeiros. “Para além disso, os alunos seguem o mesmo projeto educativo de forma consistente”.

A aprendizagem dentro das salas de aulas é descrita como sendo de “extrema importância”, mas tudo o que acontece fora das salas de aula é incentivado no Filipa. “Somos muito rigorosos no conhecimento científico. Os alunos não conseguem pensar se não tiverem conhecimento e não deixamos ninguém para trás, tentamos solucionar as dificuldades de início. Do 5.º ao 9.º ano, todos os alunos têm direito a apoios a Português e a Matemática, que são as disciplinas estruturantes. E, no secundário, todas as disciplinas de exame também têm reforços semanais. Mas também damos primazia ao desenvolvimento das capacidades experimentais e aos laboratórios científicos, que estimulam os alunos a questionar”.

Segundo o modelo pedagógico da escola, os exames “são uma consequência de um percurso, para nós é mais importante criarmos o gosto por aprender porque isto é o que fica para o resto da vida”.

Para além destas linhas de orientação, os alunos prestam ainda tutorias – esta quarta-feira, por exemplo, os alunos de português do 12º. ano discutiram um poema com os alunos do 4.º –, e a escola estimula o voluntariado, o desporto e o desenvolvimento de projetos. “Neste campo penso que este agrupamento respeita totalmente o estilo de aprendizagem. Acreditamos também que cada professor tem o seu estilo de ensinar, e, desde que se sinta confortável com o mesmo, isso resulta numa melhoria da aprendizagem, de certeza absoluta. Os professores trabalham em conjunto, mas isso não implica que atuem de forma uniforme, damos espaço aos docentes”, afirma.

Na fórmula do sucesso cabe ainda o “sentido de pertença”. “Tentamos que todos os alunos se sintam confortáveis na escola e os professores também, todos têm que se sentir casa e reconhecidos”.

Tomás Sanches, 17 anos, é um dos alunos que confirma o tal sentimento de pertença. “Gosto muito de andar aqui”. Tomás é da área das Ciências e Tecnologias e tem média de 18 – algo normal para os padrões da escola – e pensa seguir engenharia: qual, ainda não decidiu. Ainda com a timidez da adolescência a toldar-lhe a voz, conta que andou na escola Vasco da Gama até ao 9.º ano enquanto nos descreve os programas extra-aulas em que já participou desde que está no Filipa, como o voluntariado nas recolhas do Banco Alimentar ou o Job Shadowing, uma iniciativa que leva alunos às empresas. Esta é uma forma, diz Laura Medeiros, de abrir o mundo aos alunos. “Acreditamos que a cidadania se aprende aqui e que ninguém pensa se não souber. Trabalhamos para construir bases de conhecimento, depois disso estimulamos o pensamento e por fim a argumentação”, sorri a diretora, com o orgulho de liderar uma escola que, em jeito de homenagem à rainha que lhe dá nome, parece estar, efetivamente, a formar uma ínclita geração.

Where they grow up speaking several languages

Passamos a ponte, entramos na A2, para logo sairmos em Palmela, em direção à St. Peter’s International School. O colégio – onde a maioria dos alunos entra no jardim de infância e sai apenas no 12.º ano – foi este ano a segunda melhor escola do país. “Este acompanhamento é importante porque conhecemos muito bem os alunos”, realça a diretora pedagógica, Isabel Simão.

À frente do St. Peters continua o colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, que foi por cinco vezes nos últimos seis anos considerado o melhor estabelecimento de ensino em Portugal. Este ano, o colégio católico, fundado em 1872, mantém a posição de ouro a que já habitou pais e estudantes. Aqui estuda uma elite quase familiar – já que na lista de alunos admitidos se prioriza o ingresso de irmãos, os filhos dos colaboradores e dos ex-alunos. Tal como em muitas escolas de topo do país, a lista de espera dava um pergaminho. Este ano, os 104 alunos do ensino secundário da instituição da Avenida da Boavista e tiveram uma taxa de percurso de sucesso de 91%: ou seja, esta percentagem de alunos nunca chumbou em nenhum ano do ciclo e em nenhuma das disciplinas a exame.

No St. Peters – que todos os anos tem escalado as posições cimeiras dos rankings - não há seriação, algo de que Isabel Simão muito se orgulha. “Os alunos nesta instituição não são selecionados, não fazemos sequer exames de admissão, entram consoante o número de vagas. Esse é um dos orgulhos que tenho, é trabalhar com todos os alunos sem seleção e conseguir chegar a estes resultados”. No ano passado, o colégio ficou no quinto lugar da tabela e no ano anterior em sexto. “Este lugar no ranking e esta permanência, já que não é só chegar aos primeiros cinco ou aos primeiros dez, é ficar lá, é a conclusão de que o trabalho que está a ser feito é consistente. Temos uma excelente equipa, é o segredo”.

 Com 1100 alunos – 280 a frequentar o secundário – a taxa de retenção roça o zero. “Não há”, diz a diretora. Para isto, o segredo é “ter uma equipa de professores coesa e pouco rotativa”. “Tenho cá professores há mais de 20 anos, outros há 18. O método de trabalho aqui é bastante exigente, mas após um ano de experiência com contrato os professores passam a efetivos”.

O programa pedagógico do St. Peters faz jus ao “international” do seu nome. Os alunos começam com inglês diário aos três anos e no primeiro ciclo as disciplinas são desdobradas em português e em inglês. Por exemplo, o teste de matemática de uma criança do terceiro ano metade é em português e metade em inglês. “Mas não descuramos de todo a língua portuguesa, daí que começamos a ter latim no terceiro ano do primeiro ciclo e é curricular até ao 9.º ano, podendo continuar no secundário como optativa”, explica Isabel Simão. “No 5.º ano, os alunos começam a ter espanhol curricular e no 7.º é a vez do alemão. Estas são as curriculares, depois têm optativas como, por exemplo, o mandarim”.

Nesta mini Torre de Babel, todos os alunos têm projetos solidários e há uma escola oculta. “O conceito da escola oculta engloba tudo o que acontece para além da sala de aula. Trabalhamos imenso com o regime de tutoria e com aulas de apoio individualizadas ou de grupo, seguimos muito a norma do prevenir em vez de remediar”, garante Isabel Simão.

Tudo acompanhado por infraestruturas à altura – o complexo escolar ocupa 3,4 hectares com muitos espaços verdes onde há também campos de ténis, de rugby, salas de judo e de ballet, estúdios de gravação, um polidesportivo e pistas de hipismo. Afinal, é preciso suporte para as 35 atividades extracurriculares que o colégio oferece: esgrima, ténis, rugby, basquete, voleibol, futebol, natação, hipismo, violino, judo, piano, karaté, coro, guitarra clássica, canto, ballet and so on, como diriam os alunos do St. Peter’s.

No final do percurso académico, o colégio “presta consultoria” aos finalistas. “Orientamos muito os alunos nas escolhas. Fazemos aqui as candidaturas para os que querem ir para o estrangeiro. No secundário os alunos vão conhecer as universidades do Minho, do Porto, de Aveiro, de Coimbra e de Lisboa. De ano para ano, notamos que cada vez mais os alunos precisam deste trabalho de orientação”, afirma a diretora.

O custo base do ensino é de 590 euros mensais. “Essa mensalidade é só mesmo para as aulas, não inclui transportes, refeições, uniforme ou atividades extracurriculares”. Nem os três mil euros de inscrição. Uma tabela que Isabel Simão sabe não ser para todos. “Há pais que abdicam de muita coisa para os filhos andarem aqui. Tenho imenso respeito por essas pessoas que acham que o melhor investimento que se pode dar a um filho é a educação”.

Os topos do básico

Uma das grandes surpresas deste ano foi, efetivamente, a melhor escola básica pública do país. A D. Manuel I, de Beja, surge no ranking do B.I. em 27º. lugar. Neste agrupamento de escolas, há 1868 alunos. Destes, 1288 frequentam o ensino básico e têm uma idade média de 14 anos. Apesar do elevado número de alunos, a retenção é muito baixa: a taxa de conclusão dos alunos no 9.º ano é de 93%.

As mães de 12,8% dos alunos têm habilitações até ao 9º. ano e 12,3% têm o 12º. ano. A percentagem de alunos cuja mãe tem habilitações ao nível do ensino superior não é conhecida, já que o Ministério da Educação não divulga essa informação.

Já a melhor escola básica do ranking geral é o Colégio Novo da Maia que teve uma ascensão meteórica: tanto no ano passado como em 2014, este privado na Maia ficou na 29.ª posição.

Fundado há 15 anos, tem também um leque completo de atividades extracurriculares que vão desde a robótica ao piano e até ao ukelele, um instrumento musical de cordas.

‘Rankings têm que ser vistos de forma contextualizada’

É fácil e desejável falar com qualquer escola no topo dos rankings. É bom perceber porque funciona e como funciona, para que os exemplos possam ser adaptados aos diferentes contextos. E, para as escolas, o sucesso é sempre mais agradável de esmiuçar do que o fracasso.

Na ponta oposta da linha, o caso muda, obviamente, de figura. Ao ponto de nenhuma das escolas dos últimos lugares do ranking contactada pelo B.I. se ter mostrado disponível para uma reportagem. Do outro lado da linha chegaram respostas tão diretas como “não falamos” ou “é todos os anos a mesma coisa”.

Porque, como nos disse um subdiretor de uma das escolas básicas de Lisboa com pior classificação do país, os rankings “colocam carimbos em comunidades que já são estereotipadas”. “Não me quero identificar e peço-lhe para não mencionar a minha escola por isso. Sou aqui professor há 20 anos”, continuou. “Estamos cansados de, todos os anos, sermos assediados por este motivo. Trabalhamos com comunidades muito desfavorecidas e fazemos o melhor que podemos com os recursos que temos. E, apesar de cansado com esta carga negativa que nos traz os rankings, continuo apaixonado pelo meu trabalho”.

Sobre o tema, a diretora do Filipa de Lencastre concorda que os “rankings têm que ser lidos de forma contextualizada”. “Há escolas que fazem um excelente trabalho e que não estão em bons lugares do ranking”, admite. Para todos os que trabalham em meios adversos e, ainda assim, vestem a camisola, o reconhecimento vem na forma destas palavras.

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