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Fidel Castro assistiu desconfiado à reaproximação americana e morreu sem acreditar nela

Fidel Castro assistiu desconfiado à reaproximação americana e morreu sem acreditar nela

AFP Félix Ribeiro 26/11/2016 14:57

O líder revolucionário já vira uma dezenas de presidentes americanos avançar e recuar nas suas intenções cubanas antes de Obama fazer a sua reaproximação histórica. Dificilmente Trump a reverterá.

Há quase dois anos – em dezembro de 2014 – Barack Obama e Raúl Castro anunciaram que os seus países iriam reatar os laços diplomáticos depois de mais de cinco décadas inimizade e, ocasionalmente, de guerra. A notícia tinha tanto de simbólica como de surpreendente. Afinal de contas, foi de Cuba que os americanos mais temeram o início de uma guerra nuclear com a União Soviética, na crise de 1962; e foi dos Estados Unidos que os cubanos mais se aproximaram de um golpe de Estado patrocinado por um poder estrangeiro, quando militares apoiados pela CIA tentaram tomar o poder, em 1961.

Obama e Raúl Castro não prometiam restaurar os laços integralmente e não o fizeram. Desde que anunciaram a reaproximação, Cuba e Estados Unidos reabriram as suas embaixadas nos dois países, Barack Obama tornou-se o primeiro presidente americano a visitar Cuba desde Calvin Coolidge, em 1928; Washington retirou Havana da lista de Estados promotores de terrorismo e aprovou dezenas de leis que normalizaram parte do investimento e comércio entre os dois países, permitiram o regresso da aviação comercial a cidadãos de ascendência cubana e abriram dezenas de projetos científicos e humanitários. O embargo mantém-se, por insistência dos republicanos.

Para trás ficou um ano e meio de negociações secretas entre os dois países, em parte mobilizadas pelo Papa Francisco, que escreveu várias cartas a ambos os presidentes e acolheu encontros no Vaticano. O que começou com um modesto plano da administração Obama para alterar algumas das leis mais restritivas tornou-se numa reaproximação diplomática que poucos anteviam. Afinal de contas, Raúl Castro não era o seu irmão, Fidel, envelhecido, frágil e remetido para um pano de fundo mitológico. Tal como Obama não era nenhum dos Bush ou Bill Clinton, receosos de Fidel e nunca dispostos a desafiar o lobby cubano em Washington.

Fidel não participou nas negociações, mas fez saber ao governo do seu irmão e herdeiro que desconfiava das intenções americanas – escreve-o a New Yorker. O histórico líder revolucionário já vira dez presidentes americanos avançarem e recuarem em promessas e ameaças a Cuba antes de Obama tentar a sua reaproximação. Mesmo depois de Obama visitar Cuba, onde fez um discurso sobre os méritos do sistema livre de comércio, Fidel escreveu um artigo para o órgão oficial do partido, o jornal “Granma”, alertando para a possibilidade de o seu país se estar a vender aos mesmos americanos que o tentaram assassinar dezenas de vezes – centenas, a acreditar nas suas palavras.

“Ninguém deve estar sob a ilusão de que o povo deste país digno e altruísta vai renunciar à sua glória, aos seus direitos e à riqueza espiritual que conquistou”, escreveu Fidel desde o seu retiro. “Não precisamos de nada do império”, concluiu, referindo-se aos Estados Unidos.

A mudança segundo Fidel

Barack Obama diz compreendê-lo. À “New Yorker”, o presidente americano confessou que esperava uma reação mais agressiva de Fidel ao seu programa cubano e ao discurso que fez a um grupo de investidores durante a sua visita. “Até acho que a resposta foi mais branda do que esperava”, lançou. “A resposta de Fidel foi, em parte: ‘Não quero escapar ao passado’. O que entendo completamente de quem tem 90 anos e foi uma figura icónica do século XX.”

É difícil distinguir entre o que em Fidel foi ceticismo diante a reaproximação americana e o que era receio de que o seu sistema político poderia ser enfim vítima dos americanos não pelo isolamento, mas pela abertura. “As ideias do comunismo cubano são para durar”, disse às centenas de delegados que o ouviram pela última vez este ano no VII Congresso do Partido Comunista Cubano. “Ficarão como prova de que, neste planeta, se trabalha com fervor e dignidade, podem produzir-se bens materiais e culturais de que necessitam os seres humanos. Devemos lutar sem trégua para obtê-los.”

Disse-o desdenhando a sua própria morte, que, nesse discurso de abril, já lhe parecia próxima, mas não tão importante quanto preservar as conquistas da sua revolução de 1959. “Talvez esta seja a última vez que falo nesta sala. Em breve cumprirei 90 anos, não em resultado de nenhum esforço, mas por capricho do destino. Sou como todos os demais: também chegará a minha hora.”

O dilema Trump

Hillary Clinton foi a primeira grande candidata americana a prometer acabar com o embargo comercial a Cuba na sua campanha. Mas não foi ela quem venceu as eleições. O presidente eleito, Donald Trump, deixou em aberto o seu programa para Cuba, elogiando em alguns momentos a reaproximação da administração Obama e, noutros, criticando algumas cedências comerciais. “Os cubanos – como muitos países no mundo –, não sabem o que esperar e receiam muito uma administração Donald Trump”, escrevia este sábado o analista da CNN, Peter Kornbluh.

É pouco provável que a próxima administração levante o embargo comercial a Cuba, mas parece também ser difícil reverter a reaproximação iniciada por Obama. O lobby dos dissidentes cubanos conservadores continua a ser uma força de poder em Washington, mas as novas gerações de cubanos-americanos são mais moderadas e favorecem a abertura com o regime, como, aliás, a maioria da população americana  – 58%, de acordo com uma sondagem do "New York Times". 

Para além disso, dezenas de grandes empresas americanas começaram já a preparar projetos em Cuba – até o próprio Donald Trump sugeriu que poderia abrir lá um hotel. A reaproximação, por outras palavras, tem já vida própria.

 

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