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Rede GPS. Só falta achar um cientista português no Polo Norte

Rede GPS. Só falta achar um cientista português no Polo Norte

Shutterstock Marta F. Reis 21/11/2016 08:20

Projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos quer fazer o filme da diáspora científica portuguesa. Em duas semanas localizou 1246 investigadores em todos os continentes. 

Se fosse um velho mapa de parede, não ia ser fácil arranjar espaço para tantos pioneses. Em duas semanas, a rede GPS vai em 1246 inscrições de investigadores portugueses com percurso no estrangeiro, a maioria ainda lá fora. O projeto está online desde 7 de novembro com o objetivo de mapear a diáspora científica portuguesa. Reino Unido, França e Alemanha somam o maior número de presenças, mas há portugueses nos cinco continentes. Só ainda ninguém se acusou no Polo Norte. 

David Marçal, coordenador da plataforma criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, confessa que estavam otimistas com a adesão, até por estarem em contacto com associações de investigadores portugueses no estrangeiro, mas tantos registos em tão pouco tempo foram uma surpresa. “Não sabemos quantos cientistas portugueses estão fora. Seguramente mais de mil, quem sabe dez mil”, admite. À medida que o tempo passa, o número ganhará forma. Perceber que há um cientista português no Polo Sul ou 15 investigadores no Médio Oriente, na sua maioria mulheres, foram, para já, algumas das revelações.

Um filme em tempo real O projeto é apresentado oficialmente amanhã no Pavilhão do Conhecimento. Marçal explica que a plataforma vai permitir ter um “filme em tempo real” da emigração qualificada, a fuga de cérebros de que tanto se fala mas sobre a qual pouco se sabe.

São várias as utilidades que querem dar à rede. Poderá servir de material de investigação - permite perceber quanto tempo os investigadores passam em cada país, as áreas de estudo mais atrativas ou novas tendências que surjam de ano para ano, já que é possível registar estadias que tiveram lugar no passado. Já para os investigadores, pode ser uma nova oportunidade para se manterem ligados ao país, criar parcerias de trabalho, grupos de discussão ou até de convívio. “Tem esse lado de rede social. Temos diferentes realidades na emigração qualificada, por vezes, até a mesma pessoa vai mudando à medida que o tempo passa. A mobilidade internacional na ciência é normal. Sai-se para evoluir, é assim que se transfere conhecimento de uns lugares para os outros. Passados uns anos, alguns gostariam de regressar mas sentem que não há condições, outros sentem-se bem lá fora mas querem estar mais ligados ao país”, diz David Marçal. É aí que acreditam que a rede pode ajudar a manter um pé fora e outro em casa. 

Se isso ajudar a ciência nacional a evoluir, melhor ainda. “A ciência em Portugal tem de melhorar, mas haverá sempre uma diáspora científica. Portugal tem de aprender a tirar partido disto, estabelecendo-se redes de partilha de conhecimento mais simbióticas.”

Construir pontes Carlos Fiolhais, responsável pela área de conhecimento da FFMS e mentor da ideia, concorda que a grande vantagem estará na construção de pontes entre os investigadores portugueses lá fora e o país, seja em colaborações de trabalho ou com contributos para a reflexão sobre os caminhos da ciência por cá. “O nome GPS - Global Portuguese Scientists é feliz também por isso: é um geolocalizador, mas ao mesmo tempo pode dar-nos orientações sobre o caminho a seguir.” 

O físico foi cientista expatriado na Alemanha e admite que há alguma tendência entre os portugueses para, durante os primeiros tempos no estrangeiro, passarem mais despercebidos. “Adaptamo--nos bem às línguas, queremos competir como os outros, descolar-nos da imagem de um país pequeno.” No seu tempo de “cientista GPS”, nos anos 80, havia ligação à comunidade mas não tanto entre pares: dava explicações em português a crianças da comunidade e até chegou a servir de intérprete na polícia, mas a relação entre os investigadores da mesma nacionalidade era embrionária, também porque eram menos.

Hoje, a situação mudou, até porque a ciência portuguesa é mais reconhecida, mas foi por acreditarem que há interesse nesta aproximação que avançaram com a ideia. “Houve em tempos um Fórum Internacional de Investigadores Portugueses e num encontro em Coimbra, em 2004, voltou a colocar-se a questão de saber quantos somos, o que fazemos, o que podemos fazer em conjunto. Faltou a tecnologia. Era uma complicação a FCT dar-nos os endereços dos bolseiros.” 

O tempo em que a ideia esteve a ser incubada acabou por tornar tudo mais simples. A rede GPS (gps.pt) conta com a Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica - Ciência Viva, a Universidade de Aveiro e a Altice Labs como parceiros e a base do mapa-mundo é mesmo o Google Maps. “Alguns investigadores estão em instituições mais pequenas ou recentes que não aparecem no Google Maps, mas pedimos e eles inserem. Acabamos por estar também a ajudar a Google”, sorri Fiolhais, que tem outro motivo de orgulho: ao pesquisar por GPS no motor de busca, a rede recém-lançada é já o segundo resultado.

Navegámos pelo novo atlas e damos--lhe a conhecer dez investigadores lá fora. Todos aplaudem a iniciativa, que acreditam dará maior visibilidade aos portugueses espalhados pelo mundo e pode ajudar no valioso networking. 

Quanto à ciência em Portugal, o veredicto é unânime: tem talento, faltam âncoras. Saudades? Todos têm. Dos amigos, família, mas, claro, também da gastronomia. Pastéis de nata, bacalhau e amêijoas à Bulhão Pato são alguns dos desejos que a internet ainda não resolve.

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