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Depressão sazonal: mito ou realidade?

Depressão sazonal: mito ou realidade?

shutterstock Marta F. Reis 26/10/2016 15:30

Psicólogo Jorge Gravanita ajuda a perceber o fenómeno e explica os sinais de risco.

Quando as estações mudam ficamos mais vulneráveis, mas isso não tem de ser sinónimo de depressão. Abrandar é a palavra-chave, explica o psicólogo Jorge Gravanita, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica.

Faz sentido falar de depressão sazonal? Existe a definição, mas não parece ser um tema consensual.

As mudanças de estação implicam sempre alguma adaptação. Mudamos de rotinas, mudamos de roupas, muda o clima. Há pessoas mais sensíveis a este tipo de coisas e às mudanças de logística do que outras, mas qualquer mudança pode ser vista como negativa ou positiva. Às pessoas que possam ser mais sensíveis, isso provoca uma maior vulnerabilidade e depressividade, mas não diria que as estações levem à depressão no sentido psicopatológico, não há uma relação de causa/efeito direta. O que se passa é que depois, estando a pessoa está mais vulnerável, podem surgir outros fatores em cadeia que levem a uma depressão.

Com a chegada do outono e inverno, com o tempo mais frio e os dias mais curtos, essa vulnerabilidade é maior do que quando passamos para estações mais quentes?

Sempre que surgem mudanças que põem em causa a nossa rotina, pode haver uma perturbação. Há pessoas que têm dificuldades com a simples mudança de hora porque têm o seu dia organizado. Nesta altura do ano, o que acontece é que, como há menos sol e há menos distrações como as férias, as pessoas tendem a refugiar-se mais no trabalho e isso, quando as coisas não correm bem, pode levar a um acumular de tensões e cansaço que pode aumentar o risco de depressão. As pessoas procuram muito a regularidade. A vida, por si só, vai tendo vários imprevistos e diferentes situações que podem pôr em causa o nosso equilíbrio e bem-estar. Antigamente, as mudanças de estação ditavam também ritmos diferentes ao longo do ano. Nesta altura, as noites são mais longas, havia um ritmo mais lento. O problema é que, hoje em dia, as estações mudam, mas nós não funcionamos de acordo com esses ritmos, deixou de haver uma adaptação aos ritmos naturais. Precisamos de abrandar.

Saímos do trabalho de noite, por vezes mal andamos na rua durante o dia.
É dessa desadaptação que fala?

Exatamente. Muitas vezes, as pessoas dizem: “Ando mais deprimida porque é inverno.” Não é porque é inverno, é por um conjunto de coisas que se vão conjugar: a pessoa não estar a conseguir gerir a sua vida como acha que devia, por haver uma crise, cansaço e, como está mais fechada, nota mais isso do que no verão, quando há mais solicitações externas.

Que sinais devem levar a procurar ajuda?

As pessoas têm de perceber, antes de mais, se estão ou não a exagerar no ritmo. Muitas vezes procuram corresponder a expectativas muito altas, seja de performance ou da velocidade cada vez maior a que têm de fazer as coisas. Precisamos de aceitar que há momentos em que temos de ficar mais lentos. Há ainda outro fator nesta altura: por vezes existe uma associação entre o final do ano e a ideia de que estamos a ficar mais velhos, uma associação negativa que não ajuda nada. As pessoas devem procurar ajuda antes de chegarem a uma situação limite, quando notam que qualquer coisa não está bem, não têm vontade de fazer as coisas que lhes dão prazer, quando começam a sentir um maior fechamento, quando há uma rutura nos hábitos saudáveis.

Não ter vontade de sair da cama de manhã: quando é normal e quando deixa de ser?

Vai depender muito, existem sempre níveis distintos dentro do que é saudável. Quando estamos cansados e temos um acordar mais lento, é normal que demoremos a sair da cama. Agora quando estamos o nosso momento mais ativo do dia e sentimos que não temos força para sair, aí é mais problemático.

O que costuma recomendar a quem o procura numa fase precoce com este tipo de queixas?

Precisamos de um exercício constante na nossa vida de perceber que mudanças devemos fazer para nos sentirmos bem connosco. Iniciar atividades novas é uma boa estratégia e a rentrée é sempre uma altura boa para isso. É parar para pensar: ‘o que gostava de fazer e nunca fiz’. E sobretudo aproveitar esta altura para fazer um balanço do que corre bem e corre mal.

Aproveitar o momento em que ficamos mais introspetivos para refletir e mudar alguma coisa em vez de nos deixarmos ir por aí abaixo?

Sim. Não cair na tendência do isolamento por si só e fazer um trabalho mais interior, mas pela positiva. Até porque o isolamento é mais difícil de ultrapassar, as distâncias que se criam instalam-se rapidamente, sentimos que os outros ficam cada mais longe.

E como se abranda na sociedade em que vivemos?

Temos de esforçarmo-nos para sair do frenesim. Precisamos de reservar momentos em que não estamos apenas a responder às exigências externas, mas pensamos nos nossos sentimentos, naquilo que nos liga ou separa dos outros. Depois, com a chegada do verão, iremos com mais naturalidade à procura do exterior, há mais solicitação, por isso esta é uma altura boa para parar, encontrar novas perspetivas, novos horizontes, até preparar o ano que aí vem.

Costuma haver conselhos para prevenir a depressão sazonal como sentarmo-nos perto das janelas para apanhar mais sol, até tomar suplementos de vitamina D. Faz sentido?

Os conselhos podem ser bem-intencionados, mas o problema é que as pessoas muitas vezes tomam as vitaminas, sentam-se ao lado das janelas, mas isso não funciona porque não fazem o trabalho interior que é necessário.

Há maior toma de antidepressivos nesta altura do ano?

Não consigo ter essa perceção. Muitas vezes as pessoas procuram qualquer coisa que as isente de terem de se confrontar com a mudança interior. Podemos atribuir responsabilidade às vitaminas ou achar que é da falta de um medicamento, mas muitas vezes o que está em causa é a falta de disponibilidade para refletir sobre a nossa própria vida. É preciso perceber que muitas vezes as pessoas que descompensam é porque andaram a fazer tudo e mais alguma coisa menos parar um bocadinho para pensar. Por isso é que há tantas depressões e tantas pessoas a recorrer a antidepressivos: levam tudo para lá dos limites e só quando há queixas graves procuram ajuda e apoio ou fazer alguma coisa.

Sente que esse esticar a corda é mais frequente?

Sem dúvida, é algo que se tem acentuado. Cada vez mais há uma generalização maior do estado hiperativo, nevrótico e ansioso no qual se tenta alcançar tudo e, ao mesmo tempo, se sente que tudo o que se faz acaba por ser insuficiente.

Todas as grandes depressões começam por pequenos sintomas?

As pessoas ao longo da vida vão tentando ultrapassar as adversidades com os recursos que têm. A depressão é a pessoa perceber que algo falta, o problema é o que acontece depois: ou tentar baixar as expectativas, ou arranjar recursos para lidar com elas ou não o conseguir fazer. A depressão major surge quando uma pessoa está num estado de desistência, quando há um conjunto de alterações físicas, emocionais, que fazem com que não consiga sair dele. Temos de intervir mais cedo. Aprender a reconhecer os exageros que nos descompensam, se é o ritmo, se é fazer coisas que não queremos fazer, se é resignarmos perante coisas intoleráveis e perceber o que podemos mudar. Temos de deixar de ter uma perspetiva passiva que leva ao sofrimento. Numa situação ideal, seria o melhor dos mundos, mas o problema é que não vivemos nesse cenário, mas num mundo de grande competitividade, dificuldade de afirmação.

É mudar as coisas no trabalho, em casa, em vez as irmos aceitando?

A culpa não pode ser só dos outros, é pensar o que podemos mudar. Há coisas que não conseguimos resolver, mas outras conseguimos e é nisso que nos devemos focar: naquilo que está ao nosso alcance passar a ser diferente.

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