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Nobel para Dylan pode ser outro sintoma do apocalipse cultural previsto por Adorno

Nobel para Dylan pode ser outro sintoma do apocalipse cultural previsto por Adorno

Diogo Vaz Pinto 14/10/2016 14:16

Após o anúncio do Prémio Nobel deste ano, as reacções dividiram-se e no choque entre elas pode ler-se um debate cheio de significado sobre a evolução das dinâmicas culturais no mundo actual

O anúncio feito esta quinta-feira em Estocolmo chegou com atraso em relação a edições anteriores. A explicação da Academia foi de que tudo não passou de uma questão de calendário, mas isso não impediu o sucitar de rumores de que este ano poderia ter havido dificuldades na busca de um consenso entre os 18 membros do júri, talvez porque a decisão seria polémica. Não interessa agora especular sobre se foi ou não difícil aos membros da academia chegar a um consenso, isso só se saberá daqui por meio século, quando as actas da reunião forem divulgadas. Certo é que, logo a seguir ao anúncio, as primeiras reacções começaram a cavar um fosso entre aqueles que se mostraram satisfeitos, e até alguns exuberantes com a ousadia da academia, e aqueles que consideraram a escolha infeliz ou simplesmente ridícula. Seja como for, é inegável que ao atribuir o prémio a uma das figuras centrais da cultura popular das últimas décadas, parece ser o Nobel que procura ganhar um ícone, estar à sua altura, cativar uma audiência mais vasta rompendo as fronteiras do expectável. Numa altura em que é cada vez mais difícil centrar a atenção do mundo, a Academia Sueca procurou associar-se à celebração do que hoje é para todos óbvio: que Bob Dylan foi pioneiro ao ter «criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana».


Ninguém disputará esta afirmação, mas é a própria academia que justifica a sua escolha apontando para uma abertura de caminhos no terreno «da canção». Se o músico teve um impacto decisivo e durador na cultura popular, sendo revolucionário na forma como reclamou a ancestral tradição bárdica, canalizando para as suas letras a inspiração, o investimento lírico, o tipo de imaginário e personagens próprios da grande poesia, e se até soube lembrar como, nas suas origens, a literatura está intimamente ligada às tradições orais, o facto é que não foi essa a evolução que esta tem seguido nos últimos séculos – tendo adquirido características próprias, que levaram à sua clara autonomização –, sem o encanto performativo, sem a música, sem a oralidade, as letras das canções de Dylan dificilmente podem ser comparadas no seu esplendor ao de alguns poetas vivos que continuarão no segredo da literatura.


Talvez o mais lúcido comentário a surgir nas horas que se seguiram ao anúncio do Nobel tenha vindo de Leonard Cohen. Um candidato ao prémio que, incidentalmente, seria bem mais difícil pôr de lado, uma vez que no caso de tantas das suas letras de canções o poema sobrevive caído em silêncio, no grau mais nu de expressão, em que as palavras só contam umas com as outras para provocar os seus desastres. O poeta e música canadiano mostrou-se agradado com a atribuição do Nobel da Literatura a Dylan, mas não deixou de notar que era como «dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta».


Não há nenhum erro em distinguir Dylan considerando que as suas letras se sustentam como momentos singulares do ponto de vista literário, e que nelas se encontra um espelho de grandes conquistas feitas por poetas contra a página em branco. A questão é saber se a escrita de canções de Dylan trouxe algo de novo à literatura, se não é antes um virtuoso eco, algo em segunda mão, se compararmos os seus melhores versos com os dos poetas que o influenciaram. Desde logo Dylan Thomas, a quem foi buscar o seu pseudónimo, mas antes ainda Rimbaud, Whitman, ou, entre os seus contemporâneos, Ashbery, Ginsberg e outros autores da Beat Generation.


É importante também notar, como já o fez o poeta e crítico literário espanhol Martín López-Vega que, em relação aos poetas que no seu arsenal dispõem apenas das palavras, «Dylan não joga na mesma liga que ‘os escritores’. Ele parte com vantagem: a letra cantada entra melhor. E entenda-se que não há nisto nada de elitista; trata-se de mero senso comum. Que um poema não é o mesmo que uma canção é algo que não deveria ser necessário explicar. Há muito que a poesia deixou de ser escrita para ser cantada. Nem Anne Carson, nem John Ashbery, nem Adrienne Rich, nem Yehuda Amijai, nem Joseph Brodsky... escreveram para serem cantados».


Esta ‘desvantagem’ do poema define a sua diferença e carácter: na ausência de aparato performativo, o poema reconduz-se a uma rudimentaridade de meios que acaba por impulsionar a sua invenção expressiva, o afinamento radical do seu modo de se dizer, de transtornar o 'ouvido' do leitor sem poder condicioná-lo senão pelo mais estrita sinfonia que as suas palavras consigam orquestrar na sua interioridade. Daí que tantos poetas defendam que a poesia, ao contrário certamente da música popular, força o leitor a deslocar-se da condição de mero receptor e tornar-se, com o poeta, o criador daquele momento de revelação. A este nível, comparar as letras de Bob Dylan com os poemas, por exemplo, de Herberto Helder será um exercício cruel. A música e o abalo dos sentidos que se ergue da mera composição de palavras de um poema do bardo português reduz a poesia de Dylan a apontamentos sem especial vertigem. 


De resto, e sendo difícil imaginar que o Nobel da Literatura, além de acrescentar ao mito de Dylan, e de deixar em êxtase os seus fãs, pouco poderá fazer para torná-lo uma figura muito mais popular. A perenidade da sua obra está garantida. Por outro lado, como nota a escritora norte-americana Anna North num artigo de opinião no The New York Times, se ele merece todas as homenagens pelo extraordinário músico que é, por ser um dos melhores letristas e compositores de canções que o mundo já conheceu, ao «atribuir-lhe o prémio, o comité do Nobel escolheu não o dar a um escritor, e essa é uma escolha decepcionante».


Partimos do princípio de que, na sua missão, o Nobel aspira não apenas a celebrar excelentes obras do ponto de vista literário mas a atrair a atenção do mundo para uma arte que cuja perda de impacto social não é difícil de provar, uma arte que está em certo sentido a ser eclipsada, a ver o seu prestígio desfalcado por obras que se expandem para outros campos. «Sim, Dylan é um letrista brilhante. Sim, ele escreveu um livro de prosa poética e uma autobiografia. Sim, é possível analisar as suas letras de canções como poesia. Mas a escrita de Dylan é inseparável da sua música. Ele é um gigante porque é um músico genial, e quando o comité do Nobel dá o prémio da literatura a um músico, perde a oportunidade de honrar um escritor», sublinha North.


O aumento exponencial nas vendas e traduções de um escritor que o Nobel promove é uma forma de afirmar que a ficção e a poesia ainda importam, que são esforços humanos cruciais dignos de reconhecimento internacional, adianta a escritora norte-americana. E esta tentativa de corrigir uma deficiência que os prémios literários, e particularmente um com a capacidade de difusão do Nobel, assumem, é ainda mais relevante num momento em que se regista um preocupante declínio na leitura à volta do globo.


North não minimiza a importância transformadora da música popular, não atribui à literatura maior relevo, mas uma vez mais aponta para algo óbvio, especialmente ao discutir-se um artista como Bob Dylan: que a música popular não tem encontrado grandes dificuldades em receber o reconhecimento que merece.


Para se discutir a justiça da entrega do Nobel a Dylan é, portanto, necessário perceber em que sentido é que este vem alterar a configuração das coisas, porque um prémio que não procura fazer justiça torna-se meramente um rito celebratório, algo redundante, que se junta ao sentido que já impera.


À semelhança do que defendeu entre nós Miguel Esteves Cardoso, alguns comentadores defenderam a escolha da Academia Sueca por vir ajudar a pôr fim «às categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia». Diz ele que «o júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana. Está fora de moda falar na eternidade mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.»


Não se pode em caso algum confundir o alargamento de horizontes que significou distinguir uma autora como Alexievich, que o Nobel poderá de facto ter contribuído para imortalizar, com um músico ao qual a Academia Sueca só poderá tentar colar-se. O mais polémico desta decisão é poder dizer-se que a academia quis sobretudo ser celebrada na sua ousadia, propondo uma escolha atípica, mostrando-se irreverente. Mas o problema da análise de MEC é precisamente a falta de perspectiva crítica em relação ao momento cultural que se vive. 


Como Stuart Jeffries argumentava recentemente num artigo no The Guardian, «se Adorno fosse vivo hoje, ele poderia muito bem ter defendido que o apocalipse cultural já ocorreu, mas nós somos demasiado acríticos para termo-nos dado conta disso. Os maiores receios dele já se verificaram. ‘A hegemonia da pop não está senão a um passo de ser completa, as suas superestrelas dominando os media e controlando o tipo de poder económico dos magnatas’, escreveu o crítico da New Yorker Alex Ross. ‘Eles vivem já a tempo inteiro no reino irreal dos mega-ricos, e no entanto escondem-se atrás de uma fachada popular, encomendando pizzas para a cerimónia dos Óscares e torcendo por equipas desportivas a partir dos camorotes VIP... A ópera, dança, poesia e o romance literário ainda são chamados ‘elitistas’, apesar do facto de hoje os poderosos do mundo já pouco se servirem deles. A velha hierarquia de alta e baixa cultura tornou-se uma farsa: pop é o partido no poder.»

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