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Miguel Morgado: ‘Ninguém quer saber de António Costa na Europa’

Miguel Morgado: ‘Ninguém quer saber de António Costa na Europa’

João Girão Sebastião Bugalho 04/10/2016 16:02

Miguel Morgado afirma que a atual solução de governo sofre de ‘cegueira ideológica’ porque toma uma ‘derrota intelectual por uma emancipação’.

Ao fim de dezasseis anos a dar aulas, como é a relação com os alunos?

Tem coisas profundas e gratificantes. É a parte mais nobre da vida académica, o respeito mútuo. Sempre procurei levá-los a sério e que aprendessem; mais do que passar à cadeira. O que é importante para mim é dar um contributo aos meus alunos para que eles sejam livres.

De que tipo de liberdade é que está a falar?

Não seremos livres se não formos capazes de pensar pela própria cabeça. Sem obedecer a modas intelectuais, ao argumento da autoridade, à lealdade partidária. Essa forma de liberdade está sob ameaça e eu quis ajudar os meus alunos a conquistá-la. Tal como eu o tento fazer todos os dias.

Contaram-me que foi aplaudido por uma turma na primeira aula que deu depois de ser eleito.

Foi bonito. Cheguei, ia começar a aula, há uma aluna que diz que me queriam dar os parabéns e depois tiveram a iniciativa de baterem palmas. Eu disse-lhes o significado especial que teve por serem meus alunos. Não eram uns aplausos iguais aos outros. Fiquei comovido.

Qual é a grande diferença entre os filósofos políticos de hoje e os que leciona, do século XVII?

Já não existe praticamente filosofia política; existem comentários ao que já foi pensado. Perdeu-se a capacidade de transmitir sabedoria. Alguém dizia com graça: «os livros publicados há dez anos são velhos; os livros publicados há mil anos são novos».

Mas o professor publica.

Sempre gostei de escrever, mas tem que haver um respeito perante os mestres. Não há atitude mais humana que o desejo de conhecer, mas se achamos que somos a última coca-cola do deserto não vamos aprender nada.

O Maquiavel foi um desses mestres?

Sim, eu ensino Maquiavel. Em filosofia, temos os mestres da luz, os mestres das trevas e depois há um terceiro tipo. O Maquiavel lança luz sobre as coisas e o que nós descobrimos é o seu negrume. Ele diz-nos que a política é uma atividade perigosa.

E ainda é?

Por um lado, a atividade política é nobre porque é, no sentido grego, boa e bela. Quando ajuda a promover o bem de uma comunidade está a realizar um bem mais geral que o bem que consegue promover na sua família, nos seus amigos ou nos seus vizinhos. Ao mesmo tempo, como todo o equipamento humano, pode realizar males.

A política é um espelho do homem?

A atividade política revela o leque total das potencialidades humanas. Para o bem extraordinário e para o crime mais horrível.

E qual é a maior ameaça ao ‘lado bom’?

A cegueira ideológica. É uma maneira de fugir à realidade e aos problemas.

Que era aquilo de que Passos Coelho era acusado...

Nego isso categoricamente.

E a tese de que o memorando da troika foi utilizado como álibi para cortes no Estado social?

Se somarmos, as despesas sociais do Orçamento de 2015 eram maiores que as do Orçamento de 2010...

Acha que a atual solução de governo sofre da tal cegueira ideológica?

Claro que sim. Estão a tomar uma derrota intelectual como uma emancipação.

E não houve uma emancipação ideológica com Pedro Passos Coelho?

Aí poderá haver alguma confusão. No governo dele, gerou-se um espaço de liberdade para discutir coisas que antes não se discutiam.

A estratégia de cumprir com a Europa para ganhar credibilidade funcionou?

Sim, foi isso que aconteceu.

E ainda se passa hoje?

Não, ninguém quer saber de António Costa. Em 2013, era necessário negociar o quadro de fundos comunitários que está agora em vigor e apresentaram-nos uma proposta com cortes consideráveis. Passos Coelho falou com Donald Tusk, o polaco representou os países de Leste enquanto o português representou os do Sul, e as negociações transformaram-se. Conseguimos fundos que ninguém estava à espera por causa deste tipo de política de amizade com os outros Estados-membros. É uma coisa que já não existe.

A divisão na União Europeia é mais acentuada entre o Norte e o Sul ou entre a direita e a esquerda?

É entre Leste e Oeste. Há um problema entre países da Europa Ocidental e países com determinados governos bastante hostis às matérias europeias. A Hungria, a Polónia, a República Checa. É ver a questão dos refugiados.

A integração desses países foi apressada?

Não. A queda do muro de Berlim e da União Soviético obrigava-nos a esse acolhimento. Temos que aprender a viver com ele e já deu contributos de enriquecimento à Europa.

O PSD defendeu que o Partido Socialista não negociou o memorando da troika com informações totalmente verídicas e que isso obrigou a coligação a mais austeridade. Porque não o disseram logo em 2011 para justificar o que estava a ser feito?

Há uma série de dilemas a enfrentar num período de emergência. O programa foi mal negociado. Era curto porque apontava para três anos e o envelope financeiro que nos davam era muito reduzido; nós dissemo-lo. O montante não incluía as necessidades para a dívida das empresas públicas.

Há a ideia de que são tão responsáveis pelo memorando quanto o PS.

Nós subscrevemos o memorando quando a troika pediu aos partidos um compromisso. Se fossemos governo, executávamos aquilo. Estava em causa o país. O problema é que quando o memorando avançou, meses depois, o défice e a dívida já não eram aqueles. A situação estava muito mais grave e eles disseram-nos: o dinheiro é este.

Isso foi errado da parte dos credores?

A informação que a troika tinha era a informação que o governo dava, não a que o PSD na oposição dava... Por isso é que Passos Coelho vem falar em “esforço colossal”. Aí havia duas escolhas. Chegávamos ao poder e atirávamos o programa de ajustamento ao charco, afundando Portugal numa depressão, ou então cumpríamos e aproveitávamos todas as oportunidades para flexibilizar.

Isso foi concretizado?

Logo em Julho renegociámos os termos da dívida, baixámos os juros e estendemos o prazo. Em 2013 fizemos isso outra vez porque os termos daquele memorando como estavam negociados pelo PS eram impossíveis de cumprir.

Ninguém veio dizer isso em 2011...

Havia essa hipótese de retaliar contra quem tinha governado antes, mas naquele momento Portugal estava no fio da navalha. Discutia-se se íamos conseguir ficar na moeda única. Considerou-se que era melhor, perante aquelas dificuldades, tentar mobilizar o país para a sua capacidade de cumprir o programa. Não optámos por uma ‘confissão de derrota’.

Essa “mobilização” não foi mais uma contestação?

Nós ganhámos as eleições...

E agora estão como estão nas sondagens.

Não sei. Quando é que são as eleições? 2018, 2019? A dois ou três anos de eleições já vi muita coisa acontecer.

As sondagens estão sobrevalorizadas?

A última sondagem que eu vi foi a 4 de outubro. Nós ganhámos por mais de sete pontos ao PS, o que não tem sido comum noutra eleições europeias.

Mas com uma coligação...

Certo, era a coligação que tinha atravessado o Governo.

E ela é reeditável com Assunção Cristas?

Acho que sim. Depende das circunstâncias em vésperas de eleições, mas as relações mantêm-se.

Quando saem peças do FMI a tecer críticas a políticas de programas de ajustamento, os credores colocam o PSD numa posição algo ingrata...

Há muito tempo que o FMI sofre de um problema interno que penalizou muito os países sob programa de assistência.

Incluindo Portugal?

Sim. Nós usávamos uma expressão: hipocrisia institucional. As lideranças do FMI não ponderam os danos que causam com essa hipocrisia.

Como alguém que também veio do meio académico, denunciou a contradição ‘entre o Professor Mário Centeno e o ministro Mário Centeno’.

É tão flagrante que fala por si. Os vinte anos de investigação que Centeno fez nas áreas económicas não têm nada a ver com o que ele está a fazer. O que as pessoas pretendem quando abraçam a carreira política, depende delas... Mas mais preocupante que isso é como um ministro tão importante como o das Finanças é irrelevante no seio do governo.

Acha que é irrelevante?

Absolutamente.

Passos Coelho encarava Cavaco Silva como o modelo a seguir na presidência. Marcelo não tem sido o oposto desse modelo?

O mandato começou há muito pouco tempo. Nós ainda não sabemos qual a sua conduta como Presidente da República. O que sabemos é que do ponto de vista da comunicação e da relação espontânea com as pessoas é muito diferente, mas no exercício dos poderes até agora não está a apresentar grandes diferenças face a Cavaco Silva.

Não está a legitimar uma solução de governo que o PSD considera condenada?

Compare-se com Cavaco Silva. Foi eleito em 2005 com a proposta de aplicar uma “cooperação estratégia” entre Belém e São Bento. Havia um governo socialista com maioria absoluta e ele avisou toda a gente que ia cooperar com o governo.

Até à crise com as regiões autónomas...

Ainda durou três anos. É bastante tempo. Marcelo co-existe com este governo há seis meses e já vetou leis. Mas há uma maioria parlamentar...

Estável?

Tem sido. O Bloco de Esquerda obedece infalivelmente aos desejos do governo. O Bloco e o PCP estão a tolerar os maiores cortes no investimento público de que há memória. Em nome de quê? Os compromissos europeus?!

Acha que o BE tem ambição de governar?

Tem ambição de ir para governo.

E a sua posição em relação à União Europeia? Dizem-me que tem vários pontos soberanistas.

Eu sou um anti-federalista. Cometemos um grande erro ao avançar para um aprofundamento da União sem considerar – não sem conhecer – as suas condições. Em 1991-92, com o Tratado de Maastricht, ninguém pode alegar que não se conhecia a ausência de condições. Cá nem foi discutido.

Porquê?

Porque é sempre tudo corrido a tiradas simplistas e ideológicas. Quem tem obrigação de começar essas discussões não tem interesse: políticos, comunicação social... Acha que alguém reconhece em Portugal que hoje a União Europeia vive uma crise maior que a crise do euro? Durante muitos anos, as elites europeias alimentaram a ideia de que era possível viver não politicamente no mundo e eu acredito que essa não é uma opção se não quisermos desistir do que somos enquanto europeus.

Deseja-se menos participação política?

Não é só isso. O ser humano é um ser político por natureza, aprendemos isso com os gregos, e nos últimos 40 anos quis esquecer-se disso, substituir o governo dos homens pela “administração das coisas”.

E por cá, as previsões de desastre estão a sair bem? Setembro vai acabar e o “diabo” não chegou.

O que Passos Coelho disse no Pontal foi que vinham tempos difíceis depois da férias. E há uma previsão que ele já acertou e o governo falhou redondamente. O quadro económico apresentado no Orçamento deste ano é uma fantasia.

Então não há previsões catastrofistas por parte de Passos Coelho?

Não. O que ele diz é que devemos estar sempre em contacto com a realidade. Se descolamos disso, como este governo descola da realidade, temos Sócrates outra vez.

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