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Eduardo Oliveira e Silva 28/09/2016
Eduardo Oliveira e Silva

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E, de repente, Mariana caiu do altar

Quem vive pela espada morre pela espada. Mariana e o Bloco esqueceram-se disso

Endeusada, adorada, venerada e idolatrada pelos seus pares e por muita imprensa, Mariana Mortágua deu um trambolhão e espatifou-se aos pés do altar de onde costuma falar aos seus seguidores, assumindo uma superioridade moral e intelectual snobe, urbana e radical.

O pretexto, desta vez, era um “super” IMI que já Passos Coelho tinha aplicado alegremente no tempo da troika. Mas não foi propriamente essa medida que afetou Mariana, e o Bloco por tabela. O que a atingiu em pleno foi a inesperada reação de uma imprensa normalmente dócil e submissa que o Bloco Esquerda (BE) sempre usou a seu bel-prazer desde que Francisco Louçã, João Semedo e outros militantes de esquerda ligados à intelectualidade o criaram.

Foi nessa senda que Mariana e Catarina Martins foram seguindo e fizeram crescer o BE desde que dele tomaram conta, conduzindo uma política de ataque verbal e de denúncia pública de casos e pessoas, umas vezes com muita razão e outras sem nenhuma.

E tudo se passou sempre com a utilização sábia e uma cumplicidade óbvia de muitos jornalistas que simpatizaram ideológica e culturalmente com as teses fraturantes, os ataques contra certos interesses instalados que o BE denunciava ou retomava depois de denunciados na comunicação social, evitando assim que caíssem no esquecimento.

Só que uma coisa é o Bloco e Mariana na oposição e longe do poder, e outra totalmente diferente é a situação atual em que, objetivamente, a instituição e a pessoa são centros de influência e de decisão efetivos que influenciam e pressionam quem decide da vida de cada um, ou seja, os poderes executivo e legislativo.

Ora, essa circunstância mudou tudo e Mariana (tal como a atual liderança do Bloco) não o percebeu totalmente. Por isso cometeu o erro de vir, ufana e ligeira, proclamar pela fresquinha no parlamento que vinha aí um imposto sobre o património que ia tirar aos muito, muito ricos para dar umas migalhas aos mais pobres. Ao aderir também à conversa da treta dos políticos que ela dizia combater, Mariana demonstrou que, afinal, já era um deles, e caiu-lhe tudo em cima. Ao princípio foram os partidos da direita e uma parte do próprio PS (coisa que ainda se mantém), mas o efeito de bola de neve deu-se. Seguiram-se os comentadores, os analistas e os jornalistas, ou seja, os diversos componentes dos media, que denunciaram a artimanha política e, à passagem, um imposto que não serve para nada, podendo até ter efeitos perversos, dada a facilidade com que os tais 8 mil abrangidos o podem contornar. Pior ainda: habituados a serem ludibriados, os portugueses de classe média que têm algum bem imóvel pressentiram que, um dia, a medida de Mariana lhes pode tocar e ficaram de pé atrás.

A queda de Mariana teve efeitos nesta confederação partidária chamada Bloco, que se viu obrigada a fazer avançar Louçã para dar explicações e tentar travar a onda. Mas o mal estava feito e o BE tornou-se, simbolicamente, em apenas oito dias, um partido de governo, com os inconvenientes que isso tem e entre os quais está o crivo implacável da comunicação social e da opinião pública, que destroem hoje o que ontem idolatravam.

Não é nada que não tenha acontecido a outros políticos noutros tempos ou noutras circunstâncias mais violentas. Vejam--se os casos de Paulo Portas, Manuel Monteiro e, mais recentemente, Sócrates.

Há muitos anos, quando foi apeado do poder de primeiro-ministro Francisco Balsemão, um homem que conhece a comunicação social melhor do que ninguém, ele recordou o velho ditado de que quem com ferros mata, com ferros morre.

É uma verdade que ainda hoje se mantém. Quem vive da imprensa e pela imprensa sem ter verdadeiramente uma base sólida de apoio, mas apenas um suporte baseado em estados de alma de uma burguesia urbana e preconceituosa que se reclama de esquerda, sujeita-se a ser vitimado por movimentos pendulares como o que atingiu Mariana e o Bloco.

O que agora sucedeu ao BE dificilmente acontecerá à instituição que é o PCP, que conta com uma base de apoio efetiva e permanente, ainda que desgastada, e que tem uma experiência política incomparável, além de conhecer bem a mentalidade real dos portugueses. Para Jerónimo de Sousa, o tropeção de Mariana foi uma benesse. Mas para António Costa foi mais do que isso. Na realidade, tratou-se quase de uma bênção divina. Acabou-se a superioridade moral. Doravante, o Bloco é um partido de poder e, pior ainda, de governo. Além do PCP, quem mais pode beneficiar com esse novo estatuto do BE é, objetivamente, António Costa e o seu PS, pois, como é sabido, a generalidade dos peixes grandes alimentam-se dos mais pequenos. É assim na vida do mar e, muitas vezes, no terreno da política.

Jornalista

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