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Sebastião Bugalho 16/09/2016
Sebastião R. Bugalho

opiniao@newsplex.pt

A Europa contra Passos Coelho

Um eurodeputado do PSD atacou os interesses alemães da Comissão Europeia. Aleluia.

Quando Mário David, um dos melhores amigos políticos de Durão Barroso, surge envolvido no projeto de candidatura de Kristalina Georgieva à ONU, isso fez várias vozes associarem Barroso à búlgara, até por serem do mesmo partido europeu.

Foi, por isso, uma sumptuosa coincidência quando Paulo Rangel, também do Partido Popular Europeu, veio acusar a Comissão Europeia e a Alemanha – ambas lideradas por membros do mesmo Partido Popular Europeu – de atacarem Durão Barroso para ferir a candidatura de António Guterres às Nações Unidas.

Nada nos diz que Barroso não prefere ver alguém do centro-direita europeu na ONU do que um socialista como Guterres, apesar de ser português como ele. O PSD ter apoiado a candidatura do eng.o Guterres não significa nada para Durão Barroso e ainda menos para o Partido Popular Europeu; isso vê-se na forma como o PPE impulsiona Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia, a avançar contra Guterres.

Neste momento, a União Europeia tornou-se o maior inimigo da liderança de Pedro Passos Coelho no Partido Social Democrata. Podemos criticar a sua postura institucionalista perante Bruxelas, devido à perda de capital político que esta representa, especialmente em oposição; no entanto, sou obrigado a respeitar a coerência com que a mantém. Passos, não sendo um federalista, propôs reformas criativas à União Europeia.

É interessante ver como alguma mudança de atitude do PSD em relação à Europa é oriunda dos dois sociais-democratas mais desejosos de ficar com a cadeira de Passos Coelho. Luís Montenegro falou, por exemplo, num “espetáculo que não abona nada a favor das instituições europeias” quando Bruxelas retirou privilégios a Durão Barroso.

Cinco anos de austeridade, em que Portugal serviu como cartaz de defesa de Berlim e ataque à Grécia, em que ministros portugueses eram aprovados previamente pelo governo alemão, em que políticas defeituosas eram impostas sem escrúpulo, e não se ouviu uma palavra contra Bruxelas. Uma palavra. Cinco anos depois, o patriotismo de Montenegro ressuscita milagrosamente para defender José Manuel Durão Barroso que, como se sabe, é outro apogeu do patriotismo em política.

O eurodeputado Paulo Rangel também não vacilou. Depois de sair a notícia de que teria recusado um convite da direção do PSD para ser candidato à Câmara Municipal de Lisboa, Rangel entende que o partido está fragilizado, que Marcelo olha para as autárquicas como data para uma mudança de ciclo e que a altura de tentar novamente a liderança se aproxima.

Se eu fosse militante do PSD, temeria pelo dia em que alguém perguntasse a Paulo Rangel se sente mais Portugal ou a União Europeia.

O europeísmo de Rangel é tal que se converteu numa anglofobia que o leva a comparar António Costa a David Cameron. Fê-lo esquecendo que Cameron é de uma direita de tradição eurocética e Costa de uma esquerda de tradição europeísta; Cameron assumiu a austeridade em programa e Costa contrariou a austeridade em programa; Cameron cortou a dívida para metade e Costa não cortou dívida nenhuma; Cameron inverteu um resultado eleitoral com uma coligação moderada e Costa inverteu um resultado eleitoral com um acordo parlamentar radical; Cameron ganhou a segunda eleição com maioria absoluta e Costa está longe de dar isso ao Partido Socialista.

No entanto, para espanto geral, esta semana, Paulo Rangel acusou a Comissão Europeia – em especial, “colegas de Georgieva” e “o chefe do departamento de Juncker” – de “manchar” a conduta de Durão Barroso para “enfraquecer” a candidatura de Guterres à ONU “porque a Alemanha está empenhada nisso”. Foi isso mesmo, caro leitor, um eurodeputado do PSD a criticar a União Europeia e o poder germânico. Cantemos aleluias. Graças a Deus que já não são só o Bloco de Esquerda, o António Costa, o prof. Pacheco Pereira ou o diabo do David Cameron a mostrar que o Partido Popular Europeu, a Comissão Europeia e a Alemanha representam exatamente o mesmo interesse.

Ora bem, só a mais pura das ambições poderia levar um europeísta fanático como Rangel a atacar o establishment europeu deste modo.

O patriotismo de Rangel caiu do céu para “defender Durão Barroso”. E o euroceticismo de Rangel nasceu para denunciar uma conspiração “contra António Guterres”. Mas nada disso foi verdadeiro. Foram populismos.

Rangel disse o que disse porque sabe que defender Guterres e fazer voz grossa aos alemães cai bem junto dos portugueses e faz dele uma exceção dentro do PSD. Quer, portanto, ser presidente do partido.

Um líder não será. Esses têm convicções.


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