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Vítor Rodrigues: "Seria muito mau para a esquerda se o governo caísse”

Vítor Rodrigues: "Seria muito mau para a esquerda se o governo caísse”

João Porfírio Luís Claro 13/09/2016 08:17

Dirigente socialista convicto de que o partido que fizer cair o governo sofrerá consequências “catastróficas”

Vítor Rodrigues, que pertence ao secretariado nacional do PS, é um defensor do acordo à esquerda desde o início, mas alerta que para a solução ser credível é preciso que o governo dure os quatro anos da legislatura. O presidente da Câmara de Gaia diz não ter dúvidas de que as eleições autárquicas serão um teste ao governo e tem pena que a geringonça não se repita nas autárquicas por falta de vontade do PCP e do BE. 

Foi defensor desde a primeira hora de uma aliança do PS com os partidos à sua esquerda. Surpreende-o a disponibilidade que o PCP e o BE têm mostrado?

Foi uma grande surpresa. Fui desde o início um grande defensor de que existisse pelo menos uma tentativa de entendimento, mas não tinha uma expectativa muito elevada. Esse mérito deve-se a António Costa e deve-se à disponibilidade dos partidos à esquerda do PS. Tomaram uma posição histórica e deram um sinal às pessoas de que podem confiar nesses partidos e acabar com esta ideia do arco da governação que, às vezes, não era mais do que um bloco central de interesses.

Isso leva a que a tendência no futuro seja o PS aliar-se à esquerda ou pode voltar a aliar-se à direita, como acontecia até este governo?

Vejo com mais dificuldade. Este contexto político trouxe de novo o debate entre direita e esquerda e ajudou a acabar com a ideia do fim das ideologias. Este modelo de governação veio mostrar que as ideologias são importantes e que é diferente ser de esquerda ou de direita.

Nesse sentido, acredita que será uma solução para durar até ao final da legislatura?

Este modelo não tem alternativa que não seja continuar até ao fim da legislatura. De outra forma, vai parecer sempre um teste e um modelo de oportunidade. Julgo que os três partidos estão imbuídos deste espírito. O PS é quem governa, mas este apoio parlamentar vai para além do mero apoio e tem um caderno reivindicativo com medidas concretas que têm ajudado a melhorar a governação.

O PS não poderá ter a tentação de eleições antecipadas para reforçar a sua posição?

Neste momento, essa questão não se coloca. Nem se vai colocar. O PS está muito confortável e está a trilhar um caminho de recuperação do país. Não vejo que esteja disponível para soluções utilitárias. A não ser que algum dos outros dois partidos dê algum pretexto para que se volte a um tempo de ingovernabilidade. Isso seria catastrófico para o partido que o fizesse, mas também seria muito mau para a esquerda. A minha convicção é que a capacidade que António Costa tem mostrado de ter um debate muito sério com estes partidos tem sido extraordinária.

É possível compatibilizar as imposições de Bruxelas com as exigências dos partidos que apoiam este governo?

Espero é que até ao fim da legislatura aconteça alguma coisa na Europa, nomeadamente a derrota da sra. Merkel no seu país, que permita que a Europa mude de rumo. Esta tensão não é o produto de nenhuma radicalização ideológica em Portugal, é o produto da radicalização ideológica da Europa.

O crescimento económico era uma das bandeiras do PS. O que falhou?

Eu não estava à espera que os resultados fossem imediatos.  É bom lembrarmo-nos que, nos últimos 20 anos, o grande instrumento do crescimento pelo lado do investimento público foi o quadro comunitário. Eu não me lembro de ter tido, nos últimos 20 anos, tanto tempo de ausência de quadro comunitário para o investimento público. E o investimento privado está como está, mas está como está não apenas no país, mas um pouco por essa Europa fora.

A responsabilidade não é deste governo?

Não. O governo tomou posse com uma expectativa elevada de ter o quadro comunitário pronto e de que passaríamos a um momento de aplicação imediata, e isso veio a verificar-se que não era verdade – o que deixa, a meu ver, alguma responsabilidade sobre este menor crescimento económico nas mãos de quem deixou o quadro comunitário tão maltratado. 

Alguns dirigentes do PSD e do CDS têm falado no risco de um novo resgate.

Quando oiço isso lembro-me da história do Pedro e do lobo, mas pior do que isso porque, nesta história, o Pedro quer que o lobo venha. O PSD, não tendo nenhuma alternativa política, tem baseado todo o seu discurso num desejo enorme de que as coisas corram mal para poder mostrar que tem razão. Isso revela até algum menor patriotismo. A troika veio para Portugal pelas mãos do PSD porque inviabilizou uma solução que era claramente melhor do que a troika.

O PCP e o BE também inviabilizaram o PEC 4?

Nesse caso, era expetável. Mas acho que nunca como agora o PSD desejou que as coisas corressem mal.

Foi apoiante de António José Seguro. Acha que ele teria um resultado melhor do que António Costa, que perdeu as eleições?

António José Seguro tem princípios e valores muito fortes. Hoje tenho de reconhecer que António Costa está fazer um trabalho extraordinário a nível do governo. Mas não lhe consigo dizer se ele teria um melhor resultado do que António Costa. Estou convencido de que, na altura, ninguém acreditava que Passos Coelho ganhasse as eleições. Eu julgo que foi uma votação não nos méritos de Passos Coelho, mas nos fantasmas que o PSD…

O PSD mantém o mesmo discurso. Pode voltar a ganhar?

Hoje falta-lhe a credibilidade que tinha há um ano. Há um ano era primeiro-ministro e estava a tentar assustar as pessoas com o papão da Europa e do défice. Hoje já se percebeu que é possível compatibilizar políticas sociais e o retorno dos rendimentos com algum crescimento. Agora importa que a Europa faça também o seu papel. 

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido bom para o governo?

Tem porque reforçou a componente humana e de proximidade que este governo já tinha e trouxe uma mensagem de esperança.

Tem ajudado o governo?

Tem sido bom para o país. Não tem sido um Presidente “yes man”, nem de perto nem de longe. Já vetou coisas do governo. Publicamente, tem deixado algumas mensagens ao governo. Mas isso faz parte de uma convivência sã entre órgãos de soberania.

As eleições autárquicas do próximo ano vão ser um teste ao governo?

Não tenho dúvidas sobre isso. Por muito que se diga que são eleições distintas, e é verdade, não há dúvidas nenhumas de que são eleições que contaminam. Basta lembrar o caso de António Guterres.

Vão ser possíveis coligações com o PCP e o BE nas autárquicas?

Vejo com alguma dificuldade. Quer o PCP quer o Bloco já manifestaram diversas vezes pouca disponibilidade para o efeito. Essa questão só será colocada depois das eleições. Antes disso, não vejo disponibilidade dos outros dois partidos para coligações formalizadas. Com pena minha, porque em alguns casos isso faria sentido. 
A Câmara de Gaia é a segunda mais endividada do país. Como tem lidado com essa situação?
Olhei sempre para essa situação com a tranquilidade que se exige. A situação era penosa, mas sempre tive confiança numa alteração do modelo de gestão, porque o que estava em causa era basicamente o modelo de gestão e um ajustamento de prioridades.

O que justifica uma dívida dessa dimensão? 

Eu acho que o país passou por um tempo em que a vaidade dos políticos passava pelo exibicionismo e pela demonstração do obreirismo. Isso notou-se de forma muito evidente em Gaia. Houve muita megalomania e muito despesismo. Quanto ao resto, está a decorrer uma investigação. O que digo é que o investimento não justifica a dívida toda. Houve muito gasto supérfluo em consultorias, em assessorias... 

O Ministério Público acusou esta semana três antigos administradores da extinta Gaianima por crimes de abuso de poder e peculato de uso. Como é que comenta?

As empresas municipais nasceram com um objetivo que tinha alguma nobreza, mas hoje são dispensáveis. 

Foram um convite à corrupção?

Foram um convite à utilização de dinheiros de forma muito mais descontrolada e desorganizada. 

Vai recandidatar-se à Câmara de Gaia?

É essa a minha vontade. 

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