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André Fernandes Jorge. "Uma aberração nos dias de hoje"

André Fernandes Jorge. "Uma aberração nos dias de hoje"

Diogo Vaz Pinto 31/08/2016 12:14

Até ao fim dos seus dias, o editor da Cotovia não deixou nunca de trabalhar. Saiu à francesa, mas deixou um canto que promete perdurar


Condenado, ou “fodido” como ele preferia, André Fernandes Jorge viveu os últimos oito anos salvando os dias da certeza de que o cancro linfático haveria de matá-lo. Para que a sensação do tempo aprazado não o demovesse dos gestos e dos hábitos, gostos e actos de que fez uma vida, aferrou-se-lhes com teimosia, e também assim prosseguiu o seu trabalho enquanto editor como se o dia de amanhã não pudesse faltar-lhe.
Desde que começou a editar em 1988, a Livros Cotovia construiu um catálogo num compromisso de exigência que, com os anos e a evolução do sector do livro, a viu singularizar-se no meio editorial português, particularmente na sequência do fenómeno da concentração editorial e integração do circuito livreiro que, no início do século, trouxe grandes constrangimentos à sobrevivência dos projectos independentes. Solitária e publicando cada vez menos, a Cotovia não abandonou o rigor dos seus critérios nem cedeu aos imperativos do mercado, conformando-se com o papel de editora de culto. Chegou a ser equacionada a sua venda, o que não aconteceu porque não houve simplesmente quem garantisse que o seu legado não seria desvirtuado.
Companheira e parceira durante mais de duas décadas na Cotovia, Fernanda Mira Barros lembra que André Jorge não se coibiu de afastar quaisquer ilusões de hipotético sucesso comercial a alguns dos autores que se propôs editar. Dizia-lhes que em Portugal não iam vender nada. Aceitando ter os seus livros neste catálogo os autores deviam abandonar as veleidades de se verem como protagonistas de qualquer campanha que os vendesse como a última coca-cola do deserto. De resto, Mira Barros adianta que André Jorge não se via como um grande editor, alguém com pretensões de mudar o mundo, mas antes se empenhava em ser um bom editor, aquele que procura permitir o mais justo encontro de um livro com os seus leitores.
É isto mesmo o que acentua um projecto gráfico inicialmente definido por João Botelho, uma sobriedade à qual a Cotovia se manteve fiel. Com quatro “colecções centrais” dedicadas a géneros minoritários – Ensaio, Ficção, Poesia e Teatro –, estes objectos cujas medidas são uma homenagem a esse modo de rezar que é ter um livro aberto nas mãos, de tranquilas proporções, sem vontade de se acotovelarem com os livros que por estes dias se agigantam num esforço para ganhar destaque nos escaparates. Sem cores a tentar um efeito de flash, são exemplos de discreta elegância, ocupando um lugar harmonioso nas estantes de quem viajou e trouxe livros dos catálogos que pelo mundo vão buscando a imortalidade.
André Jorge morreu no dia 19 de Agosto. Estava consciente que tinha chegado o fim, e teve o cuidado de não deixar pendentes as burocracias já só do corpo. Contratou a funerária, não deu margem para qualquer cerimónia com os restos físicos, e mandou que estes saíssem do IPO directamente para a cremação. Ao i, Mira Barros contou como até ao internamento, não deixou de ter em casa flores frescas, a garrafeira e o frigorífico cheios, como se fosse receber amigos nessa noite. E nos últimos seis meses, com duas a três visitas por semana ao IPO para as transfusões de sangue, André Jorge só não passou pelo número 24 da rua Nova da Trindade quando lhe faltaram as forças. “Trabalhar era o que o mantinha vivo”, diz Mira Barros.
A mesma teimosia que o impediu de se deixar abater pela doença, foi o traço que se converteu na principal virtude de um catálogo que confrontou as deficiências da edição portuguesa, seguindo um plano ambicioso com a consciência de que só perdendo dinheiro se pode trazer o mundo que falta a uma língua. Quer isto dizer que os cerca de 1200 títulos publicados ao longo de quase três décadas pela Cotovia são o legado de um homem que optou por entregar a vida e a sua fortuna pessoal a algo que aproveita a todos – a verdadeira definição de luxo público.
Se a Cotovia se confunde com a figura do seu editor, o certo é que a editora que nasceu como um projecto de dois irmãos – André Jorge e João Miguel Fernandes Jorge –, conta entre os seus principais méritos o ter originado colaborações tão significativas seja em parcerias com outras editoras seja com personalidades como Frederico Lourenço nos clássicos greco-romanos antigos, Abel Barros Baptista na literatura brasileira e Jorge Silva Melo no teatro.
Editar livros como o fez André Jorge, mais do que um acto de resistência, é hoje uma forma de optimismo. Foi Tatiana Salem Levy quem, ao reagir à morte do seu antigo editor numa mensagem no Facebook, reconheceu que o seu caso constitui “uma aberração nos dias de hoje”; um editor que “publicava mesmo sabendo que o único retorno que teria seria de ordem intelectual e afetiva, pelo simples prazer de publicar autores que lhe interessavam”. Levy conta que ele foi o seu primeiro editor, que a contactou depois de ter lido apenas um conto seu, querendo saber se tinha mais. Apostou nela, publicando-lhe o primeiro romance, “A Chave de Casa”, logo depois de o ler, de tal modo que saiu primeiro em Portugal do que no Brasil. Foi uma de entre vários autores que André Jorge trouxe do Brasil.
“Nunca mais veremos um editor como ele – disposto a torrar dinheiro para publicar autores que não vendem nada em Portugal: Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Machado de Assis, Samuel Rawet, Clarice Lispector, Manoela Sawitzki, Nuno Ramos, Sérgio Sant’Anna, André Sant’Anna, Raduan Nassar, Adélia Prado, Rubens Figueiredo, João Antônio e eu mesma... Foi sem dúvida o maior editor de literatura brasileira em Portugal”, escreve Levy. 
A morte de um bom editor é sempre uma tragédia que mal se percebe. Porque o que desaparece com ele era aquilo que dava ao dia de amanhã. A Cotovia teve muitas vezes um efeito encantador junto dos poetas, e é curioso como de alguns versos de Wordsworth, Shelley ou Ted Hugues a ela dedicados emerge um vulto que acolherá facilmente o de André Jorge, no modo como serviu “a privacidade de uma luz gloriosa”, artífice de uma “arte invisível e cujo canto, no entanto, se fez ouvir com um estrídulo deleite”. “Um pássaro que se elevou ao cimo da torre, num disparo que lhe passou pela encristada cabeça/ Com a ordem,/ Não morras/ Mas escala/ Trepa/ Canta/ Obediente como o é à morte uma coisa morta”.
 

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