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“Os nossos genes não evoluíram na era dos supermercados”

“Os nossos genes não evoluíram na era dos supermercados”

Marta F. Reis 30/08/2016 18:06

Precisa mais de café do que o colega do lado? Os coentros sabem-lhe a sabão? Estudos da genética não têm servido só para perceber como surge a predisposição para doenças como o cancro e têm vindo a explorar hábitos e preferências alimentares. O i reviu as últimas conclusões e falou com o autor do estudo, Nicola Pirastu, investigador na Universidade de Edimburgo, que na semana passada deu mais um passo para perceber o vício da cafeína

Até que ponto estas interferências genéticas são decisivas?

Quando pensamos em hábitos como consumo de tabaco ou preferências alimentares não é nunca algo que dependa apenas de um fator. No caso do café, 50% da variação da ingestão depende dos nossos genes, mas os outros 50% vão depender do ambiente. E não será efeito de apenas um gene mas muitos. Se além da variação que predispõe para beber café tivermos outras que predispõem para beber mais café, vamos beber mais. Se uma pessoa não tem essa variação mas trabalha à noite, se calhar vai beber mais café para se manter desperto. 

A ciência tem subestimado este campo de estudo?

Há mais investimento no estudo das variações e mutações genéticas ligadas a doenças do que no estudo de hábitos, ainda que em hábitos ligados a doenças como tabagismo ou alcoolismo existam muitos trabalhos. No caso das preferências alimentares os investigadores têm-se focado muito nos recetores de paladar e do olfato e creio que o caminho será mais por análises mais amplas do genoma que permita perceber por que motivo algumas pessoas têm mais prazer nuns alimentos do que noutros e o que acontece ao nível do cérebro. Nem toda a gente está convencida dessa linha de investigação. 

Porque condiciona a ideia de que somos ser livres?

Ninguém põe isso em causa, por isso falamos de determinar 50% das variações e nunca 100%. O que temos de perceber é que o nosso corpo diz-nos para fazer coisas, por exemplo para comer alimentos altamente calóricos e isso do ponto de vista evolutivo faz sentido: se a comida acabar, alguém que ingere muitas calorias sobrevive mais tempo do que alguém magro. O problema é que hoje morrer de fome não é uma ameaça que se coloque na maior parte do mundo. A ideia é que precisamos de saber que estamos formatados para determinadas coisas e que se precisamos de comer mais para nos sentirmos biologicamente satisfeitos, temos de substituir esse prazer por outras coisas saudáveis, como algumas pessoas fazem com a corrida. Temos genes como se vivêssemos ainda na selva, os nossos genes não evoluiram na era dos supermercados. A ideia não é mudar os genes mas mudar a abordagem.

Por exemplo?

Veja-se o estudo que percebeu que algumas pessoas não toleram coentros porque lhes sabe e cheira a sabão. Cozinhando os coentros, as moléculas que geram aquelas reações já não têm o mesmo efeito. Se calhar temos de encontrar estratégias novas para outros vegetais se percebermos o que as pessoas gostam ou reagem mal e porquê. 

Que conclusão o surpreendeu mais até ao momento?

Publicámos um estudo em que analisamos variações genéticas por detrás de preferências alimentares comuns. Surpreendeu-me que uma das associações mais fortes que encontrámos fosse uma variação ligada a gostar mais de pão barrado com manteiga e azeite.

Não há o risco de as pessoas usarem estas conclusões como desculpa?

As pessoas vão querer comer o mais possível, o que é preciso perceber é que o corpo não está preparado para isso porque não havia tanta comida quando os genes evoluíram e hoje temos vidas mais sedentárias. Uma coisa é certa: não é culpa da pessoa querer tanto, mas tem de perceber o impacto que isso tem. Se percebemos isto podemos ajudar as pessoas a serem felizes mesmo que não comam tanto como o corpo lhes pede. s pede. <

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