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Ivo M. Ferreira. “Talvez a solidão fosse um inimigo mais forte do que as balas”
Miguel Nunes é António, Margarida Vila-Nova é Maria José, a mulher do escritor

Ivo M. Ferreira. “Talvez a solidão fosse um inimigo mais forte do que as balas”

Miguel Nunes é António, Margarida Vila-Nova é Maria José, a mulher do escritor DR Cláudia Sobral 30/08/2016 16:30

"Cartas da Guerra", o filme adaptado do livro que publicou a correspondência dos tempos de guerra de António Lobo Antunes, chega esta semana às salas.

Um filme é um filme e cada filme é o que um realizador quiser. O último de Ivo M. Ferreira, “Cartas da Guerra”, a que o levou o que diz ser uma atração por “álbuns fechados”, pelos silêncios, pelos vazios, pelas zonas escuras, é a adaptação de “D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto”, que reúne as cartas enviadas por António Lobo Antunes à sua mulher, Maria José, durante os seus dois anos de Guerra Colonial, em Angola. Livro publicado em 2005 pelas filhas, Maria José e Joana Lobo Antunes, a que o próprio nunca regressou. E o filme... “Ainda não viu. Se quiser ver, claro que fico muito contente. Mas sobretudo o que quero é que ele tenha a relação que quiser ter com o filme.”ue 

“D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto” foi publicado em 2005. Porquê este filme sobre este livro agora?

Na altura era 2009, quando veio a ideia. Não sei como é que a coisa surgiu. Por exemplo, para o novo filme em que estou a trabalhar, tenho os livros em casa, comprei-os há dez anos, por isso às vezes uma pessoa não sabe muito bem quando é que surge a coisa. Às vezes é um concretizar, uma soma de várias questões, uma delas é que eu queria trabalhar sobre a Guerra Colonial, tinha esse desejo. Mas podia ser nunca, podia ser daqui a 20 anos. E quando dou em contacto com o livro, a sua dimensão histórica, a sua dimensão biográfica e a sua dimensão amorosa, todas essas três vertentes, pareceu-me que caminhavam de forma muito consistente lado a lado num caminho que era uma picada, cheia de armadilhas, minas e emboscadas. Por um lado pareceu-me evidente que era um material fantástico, por outro admito que havia uma série de contrariedades. À partida, por ser uma questão biográfica de um personagem muito carismático, o facto de ser uma questão quase apagada da nossa História, silenciada - a primeira vez que falei sobre o assunto houve dois camaradas de guerra que me disseram, “desculpe lá, nós os dois que lá estivemos não falamos naquilo, por que raio é que você, que nem sequer era nascido nessa altura, quer falar nisso?” - e depois havia o problema de serem personagens que se estão a tratar na intimidade, embora pegasse numa obra já publicada. Mas de alguma forma as fragilidades também eram forças. Não era um romance dramaticamente organizado, e isso seria um problema, mas por outro lado para mim era isso que era motivador.

E libertador também.

E libertador, sim. Embora as pessoas fiquem “caramba, pegar num livro de cartas e fazer um filme”, aquilo [o livro] tem um lado muito óbvio, muito claro: primeiro ato, Gago Coutinho, contacto com África; segundo ato, maior isolamento, posicionamento político sobre a guerra, culpabilização do fascismo, o absurdo, a impotência; terceiro ato: triplo isolamento onde o inimigo já não é o fascismo, o inimigo são eles próprios, eles próprios é que já não só duvidam que vão sobreviver como, mesmo sobrevivendo, duvidam como vão algum dia voltar para casa.

E “Cartas da Guerra” é sobretudo sobre essa dimensão interior.

Sim, o que me interessa é isso. O efeito que tem a guerra nas pessoas. Acho que talvez o isolamento, a solidão fossem um inimigo muito mais forte e poderoso do que as balas.

É um filme mais pessoal do que político?

Acho que é necessariamente um filme político. É curioso porque uns dizem que é muito político, outros dizem que não é nada político, mas acho que é necessariamente político, porque tudo o que fazemos é político e também porque acompanha uma fase histórica que é o agonizar do fascismo. Mas o que me interessa, sim, são os efeitos nos personagens. 

Apesar disso que contou dos ex-combatentes, que não quiseram falar sobre o que se passou, fez entrevistas para este filme?

Longas entrevistas, sim, com muitas pessoas. 

Porque as cartas não chegam para contar a história toda.

Sim, o filme foi beber evidentemente dos primeiros livros [de António Lobo Antunes], sobretudo “Os Cus de Judas” e “Memória de Elefante” [ambos publicados em 1979], porque muitas vezes tens uma parte do episódio que, na carta, percebes claramente que não é contado. De repente tens assim um nome... e a seguir uma crónica da “Visão” de há dez anos. São essas peças juntas. E depois, muitas vezes, claro que criamos nós a história que queremos. 

Dizia que, para umas pessoas, o filme é muito político, para outras pouco político, é curioso porque ainda ontem discuti isso. Houve dúvidas sobre se o filme devia ter mais contexto, menos contexto, para lá deste lado pessoal?

[Pausa] Acho que uma pessoa faz um filme. Não há aqui um lado de manipulação, há construção, um filme constrói-se. E ele próprio indica caminhos. Mais isto, menos aquilo... [pausa] não sei. É um personagem. Se há um gajo a mascar pastilha elástica, outro gajo a mascar pastilha elástica... desculpa lá, isto não é o filme da pastilha elástica, e aí claro que acrescentas e controlas, pões mais e menos. Agora, neste caso, o que havia, mais do que tudo, era essa procura do corpo de um filme com esta ideia da voz [de Margarida Vila-Nova, que interpreta Maria José, a mulher de Lobo Antunes] e do corpo. A realidade do país, o que são os outros à volta. Mas nunca vi as coisas assim. Não quer dizer que não seja refletido, mas é um processo que acontece naturalmente.

Perguntava porque, sobre essa questão do ser mais ou menos político, há quem considere que “Cartas da Guerra” mostra pouco o que é a guerra. 

Um filme é um filme. Este é o meu filme. Nem há filme nenhum de jeito... só o cinema didático que havia na União Soviética, de que gosto imenso por acaso. 

O que esta história nos mostra também é que a guerra não é só guerra.

A guerra, a guerra, a guerra... isso é uma conversa até incorreta. Normalmente quando se fala em guerra fala-se numa guerra convencional, uma guerra de trincheiras, como foram a I e a II Guerra. Esta não tem nada a ver, é uma guerra toca-e-foge, uma guerra para haver o mínimo de confronto. Eles estão na trincheira só até à uma e a seguir vão à vida deles, porque se não atacaram até agora também já não vão atacar. Porque, se atacam, depois os gajos chamavam reforços e tinham que ir a correr para a Zâmbia e, se fossem atacados depois disso, o avião apanhava-os na corrida antes de passarem a fronteira. As emboscadas, por exemplo, eram ‘trrrrrru, fugiu’. Mas claro que era uma guerra horrível porque nada pior que o tempo e as minas. A questão não é quando é que o céu te cai em cima da cabeça mas quando é que o chão te rebenta. 

Essa vontade, que disse ser antiga, de fazer um filme sobre a Guerra Colonial, vinha de onde?

Deste lado mais... não sei.

Há alguma razão pessoal?

Não tenho nenhuma relação pessoal nem familiar com a Guerra Colonial, nem nenhuma relação com África anterior ao meu nascimento. Mas a história contemporânea portuguesa, sobretudo a tangente a esta minha idade e à volta destes episódios, e deste que acho que é o mais trágico, sim, interessa-me falar dessas coisas. Vem da vontade de perceber, porque são histórias meio eclipsadas, meio apagadas. Uma coisa é perceberes que o 25 de Abril atira para o caixote do lixo um fascismo e que com ele vai a Guerra Colonial e que isso provoca um desconforto, um silêncio que se percebe, outra coisa é perceberes que os rapazes que foram postos nessa situação, de repente voltam e veem-se numa situação em que não querem falar. Eles próprios também estão transformados e não sabem como é que vão viver e isso cria um bloqueio e um silêncio grande. Depois tenho uma atração por álbuns fechados, tenho uma particular atração por silêncios, vazios, escuros. Mas o que é estranho é que esta memória, este vazio, seja também institucional. Se calhar medo de se falar nas atrocidades cometidas, como os agentes laranja, o napalm, se calhar também tem a ver com isso. Mas como é que acontece teres a implantação da República, o Estado Novo com uma fotografia do Salazar, e depois... parece uma passagem de moda na Av. da Liberdade com eles muito estilosos de t-shirts brancas e uns cravos na mão e, de repente, corta para uma página azul com estrelas amarelas e acabou-se a história. 

O António Lobo Antunes não estava na antestreia...

Isso foi uma pergunta?

A pergunta vinha a seguir. Por alguma razão? Pergunto porque o próprio livro foi publicado pelas duas filhas, não por ele. 

Da última vez que estive com ele, ele ainda não tinha lido o livro. Aliás, no dia em que foi editado, ele disse: “Nunca li.” Ouvi uns rumores de que terá folheado a versão espanhola do livro. 

A versão espanhola?

É um preto e branco. Um filtro.

Isso quer dizer que ainda não viu o filme.

Não. Eu se fosse ele veria o filme na máxima intimidade. Anónimo, numa sessão às três da tarde. Não sei como é que vai ser. Se bem que o que era genial era que o filme tivesse tanta gente que a sessão das três da tarde estava esgotada [risos]. Mas não, ainda não viu. A guerra é um assunto que lhe é muito querido, [o que está em questão] é o grande amor da vida dele, é uma grande intimidade, percebo perfeitamente que ele não queira ver. Se quiser ver, fico muito contente e até gostaria de falar com ele sobre o assunto. Mas sobretudo, e isto é completamente verdadeiro, quero é que ele tenha a relação que quiser ter com o filme. 

Então não falaram muito sobre isto durante o processo?

Falámos o que falámos. Estivemos em contacto ao longo deste processo, mas não sei se é nas conversas... Muitas vezes se calhar é nos silêncios... Quando dirijo atores muitas vezes também não lhes digo muita coisa. 

Falando em atores, era importante que fosse a Margarida a fazer este papel?

Fui obrigado. Só filmei com a Margarida mesmo porque se não tinha um problema gravíssimo lá em casa [risos]. Claro que tinha que ser com ela, o próprio filme atravessou também a nossa história. E acho que tem uma voz super sexy e sensual. O filme tinha de sentir desejo, para não dizer ponta. Porque acho que é uma coisa muito forte nas cartas, no livro, no personagem. Apesar de tudo, mesmo em termos puramente estruturais, este personagem tem vontade de escrever mas nem sequer é vontade de escrever. Tem obrigação, tem desejo. Tem desejo muito, muito concreto, físico. Isto era em relação à Margarida, não sei onde é que estamos já [risos].

Atravessou a vossa história porque esteve anos à espera de financiamento.

Esteve parado. Com a troika e o raio que a parta, mais a falta de dinheiro do ICA e do país e... raios os partam. E depois também foi muito difícil porque estava contratualizado mas não estava concretizado, a parte do dinheiro português. E é muito difícil dizer aos angolanos “tenho aqui um filme de época, de guerra, em África, realizado pelo Ivo Ferreira, não queres investir?” Não tenho cheta. Acabámos de filmar sem cheta. 

Quanto custou o filme?

O orçamento de rodagem foi de 720 mil euros. Com o apoio inestimável das Forças Armadas Portuguesas e das Forças Armadas Angolanas e estávamos conscientes de que estávamos a arriscar, não só sem ganhar cheta como a penhorar-nos todos e penhorar a pós-produção. Era a única forma de avançar. E quando acabámos, completamente lisos, montámos quatro minutos, fomos selecionados para Veneza, para o Gap Financing Market, que é uma coisa em que mil projetos concorrem para oito (são 15 no total, mas sete são italianos). E na primeira hora tudo estava fantástico, passado dois dias estava tudo resolvido. Voltámos, acabámos e em novembro tínhamos o filme selecionado para Berlim. 

A rodagem foi toda em Angola?

Não foi tudo filmado lá. Para mim era completamente capital filmar lá. Fazer o filme todo em Alcochete... juro que não fazia. Foi complementado em Alcochete mas já tínhamos filmado em Angola. Vínhamos com as paisagens, a memória afetiva, o facto de termos estado naquela situação muito específica, estarmos ali nós próprios isolados, há um património que se traz que contaminou de imediato o resto da equipa cá. Tínhamos um problema grave que era não haver figurantes brancos. Íamos trazer brancos da África do Sul para fazer figuração de soldados? Levá-los daqui para África? Nem em Hollywood.

Estiveram lá quanto tempo? 

Não o suficiente mas uma eternidade. Foi absolutamente tenebroso. 

Ouvi falar num projeto chamado “Sul”. É esse o próximo projeto de que falava no início?

O argumentista [de “Cartas de Guerra”], o Edgar Medina, é produtor e argumentista desse “Sul”, que é um projeto chique de televisão, e estou a preparar uma outra longa metragem que vou ter que acabar até ao final do ano chamada “Hotel Império”, em Macau, com atores chineses e de Taiwan, não faço ideia como, mas se encontrares meio milhão de euros, preciso deles até ao final do próximo mês. E estou a preparar um projeto para 2018 sobre as FP-25, um filme naturalmente bombástico. “Eh pá...”, toda a gente me diz isso quando digo que vou fazer um filme sobre as FP-25.

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