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Rui Bragança. “Quer ganhe ou perca, vai ser uma festa”

Rui Bragança. “Quer ganhe ou perca, vai ser uma festa”

DR José Paiva Capucho 17/08/2016 13:03

O único representante português do taekwondo é bicampeão europeu. Entra hoje em ação contra os 16 melhores do mundo e, depois de muito esforço para chegar aqui, a pressão só será um inimigo.

Rui Bragança nunca poderia ser jogador de futebol. Não que não tenha jeito, isso não conseguimos saber, mas porque a maneira desenvolta e humilde como fala da sua carreira do taekwondo recheada de títulos - basta dizer que é bicampeão europeu aos 24 anos - e das suas aspirações para os Jogos Olímpicos (JO) do Rio de Janeiro não o deixariam estar nas conferências de imprensa. Por saber que esta é uma modalidade ainda pequena, teve de contar com a ajuda financeira dos pais para garantir uma qualificação que fugiu há quatro anos. Porque se não fosse assim, já não haveria taekwondo para o vimaranense. Agora estará entre os 16 melhores do mundo - algo que um português não sabia o que era desde Pequim 2008 - e, mesmo que não haja medalha, de certeza que vai haver festa. Porquê? Leva a família, namorada e amigos. À boa maneira portuguesa, sim senhor.

A Associated Press deu quatro medalhas a Portugal para estes JO. Uma delas seria para si.

Em Londres já me tinham dito que eu iria ter uma medalha de prata, e depois nem me classifiquei. As estimativas valem o que valem. Eu não chego lá e outro atleta vai-me dizer, “ah, olha, na estimativa dizia que tu ias ganhar, por isso ofereço-te o combate”. Não muda nada. 

 Não mexe com a cabeça?

Não, não mexe em nada.

Como tem feito a sua preparação?

Continuo a treinar em Braga com os meus colegas de treino, continua tudo igual.

Fale-me desses treinos.

O taekwondo é um desporto que exige muitas características diferentes. Temos de ter uma parte tática, física e técnica. Há diferentes tipos de treino. Começa com um aquecimento e depois temos uns jogos mais físicos, treino tático e, finalmente, resistência. É difícil de explicar assim.

Mais difícil de explicar talvez seja o facto de ser de Guimarães, mas treinar em Braga.

Sim, nascido e criado em Guimarães. Treino em Braga porque estudo na Universidade do Minho, em Medicina. Ir e vir seria impensável para quem treina duas vezes por dia.

E sente a rivalidade que há entre as duas cidades?

Sim, levo na brincadeira. Nunca fui insultado nem nada do género, mas essa rivalidade sente-se sempre. 

Os vitorianos são muito ligados ao clube. O Rui também tem essa ligação?

No início, quando tinha 11, 12 anos, ia aos jogos. Depois tive de escolher entre pagar as quotas ou pagar o taekwondo, que muitas das vezes coincidia com os jogos, e deixei de ir. Desliguei-me um pouco do mundo do futebol porque não tinha tempo para acompanhar. Claro que gosto do meu clube e é um orgulho representá-lo.

Não pensa dar o salto para um maior?

Neste momento, o foco é o Rio de Janeiro; depois, não sei. O taekwondo é muito pequeno, não sei se haverá essa possibilidade. Vamos ver que recursos é que ficam à minha disposição. Não dá para voltar àquilo que era, de sermos nós a pagar tudo e não termos apoio de ninguém. 

E voltando atrás, como foi parar a esta modalidade?

Os meus pais e a minha irmã foram para um ginásio perto de casa e eu fui para lá também. Era a única coisa que podia fazer. Havia musculação, mas era muito novo, tinha 13 anos. E o kickboxing tinha uma turma, só que muito avançada. O taekwondo era a única coisa que havia para um miúdo de 13 anos.

Porque começou a gostar?

Para os miúdos é sempre divertido andar a bater nas raquetes, e quando começaram os jogos de combate, mais táticos, aí fiquei rendido, sem dúvida.

É a parte que lhe interessa mais?

Sim, é o jogo mental, perceber o que o outro vai fazer, tentar montar uma tática para os diferentes tipos de atletas.

Desportos como o taekwondo são sempre muito físicos. Há quem não aguente. Alguma vez pensou em desistir e ir fazer outra coisa qualquer?

Não, nunca pensei. Mas exige muito da parte física, resistência e força. Tudo isso é duro, mas faz parte do jogo. Mas essa parte dá gozo, chegar ao fim do treino cansado mas sabermos que fizemos as coisas bem. Depois, nos combates, vemos, “ok, este é mais rápido, este é mais alto”, e usamos diferentes táticas para anular isso.

Mudemos o rumo da conversa. Disse--me que está a estudar Medicina.

Sim, estou no sexto ano.

O ano passado, em entrevista ao “SOL”, disse que seria difícil conciliar as duas coisas. Ainda mantém essa opinião?

Quando for para ser médico, é só para ser médico. Não me sinto confortável tendo toda essa responsabilidade, com uma vida nas mãos. Teria de estar mais à vontade. Sei o suficiente para passar e para ter boas notas, mas não sinto que isso seja o suficiente para estar no mundo da medicina. 

Então o que pensa fazer?

Ainda não tenho noção daquilo que vai ser o meu futuro. Só vou decidir depois.

Vamos focar-nos no Rio. De certeza que tem olhado para as más notícias sobre o vírus zika, as infraestruturas, etc. Como tem acompanhado essa situação?

Só tenho de chegar lá e preocupar-me com os meus combates. Em relação às instalações, aquilo vai estar tudo pronto quando chegar. Das viagens que nós já tivemos, de certeza que já ficámos em sítios piores do que os que vamos encontrar lá. Só tenho de me preocupar com o dia 17, e o resto que tiver de ser, será.

Em que sítios piores esteve que deixaram uma má memória?

Não de má memória, mas ficávamos sempre em hotéis, e de certeza que no Brasil não vou ficar com 21 pessoas num quarto, com três pessoas a ressonar tão alto que passámos uma noite em claro. Isso não vai acontecer. Não vamos ter de procurar um sítio para ficar que tenha transportes públicos por perto, para não gastarmos dinheiro para irmos para o pavilhão. Não vamos ter de cozinhar a nossa comida, que era o que fazíamos sempre. Não vamos passar quatro dias a comer massas instantâneas porque era a única coisa que nós podíamos pagar na Suíça, por exemplo. Vai ser melhor do que nos outros sítios.

No Brasil tudo será muito melhor, então.

Sim, a única coisa em que eu posso ter influência é nos combates. Não me adianta estar preocupado com o zika ou com as casas de banho que só têm água fria ou quente. Quando chegar tentarei fazer o melhor com as condições que tiver, que são iguais para toda a gente.

Já tinha estado no Brasil?

Sim, estive em fevereiro deste ano e as coisas correram todas bem. 

Com que ideia ficou de lá?

Na altura, ainda não estava completo, nem pude ter a imagem de como seriam os Jogos. E isso vai ser bom, vai ser uma surpresa quando chegar. No único dia de descanso que tive, fui à praia e correu tudo bem.

Desde 2008 que não tínhamos um representante português na modalidade. O Rui é bicampeão europeu. Sente o peso da responsabilidade?

Isto não é o peso da responsabilidade porque eu sempre dei tudo o que tinha em todos os combates. Não é agora que isso vai mudar. Não é por eu ser campeão europeu. O combate continua zero a zero. E quem estiver do outro lado vai tentar ganhar-me. Tenho de estar solto e relaxado. Sou bicampeão europeu, fiz mais combates que os outros, espero tentar aplicar o que aprendi. Vamos ver para o que dá no dia 17.

Disse que não esteve em Londres 2012. Foi muito duro?

O duro não foi ir aos Jogos. Tinha 19 anos, tinha sido campeão do mundo, e pensei que até era possível. Quando perdi o acesso a Londres 2012 não pensei que tinha perdido o acesso aos Jogos, mas sim o direito à bolsa, que estava a ajudar a devolver aos meus pais um pouco daquilo que tinham investido em mim. Depois foi continuar a trabalhar todos os dias, ir ao máximo de competições e angariar o maior número de pontos. Sabíamos que seria difícil classificar-me pelo ranking olímpico mas, se não fosse por aqui, tinha o torneio de apuramento europeu. E foi assim, um dia de cada vez.

E quando soube que tinha conseguido, como é que celebrou?

Eu estava no Granx Prix de Manchester e começamos a fazer as contas, mas nada mudou. Tínhamos colegas a combater no dia seguinte e ainda ia haver mais competições até ao final. Foi pensar que esse objetivo já estava cumprido. A mentalidade foi igual.

Se não fossem os seus pais, talvez não estivesse no Rio de Janeiro.

Não é talvez: se não fossem eles, eu não estava aqui, ponto final. Nem havia outra forma. Porque o taekwondo é um desporto muito pequeno e não há apoios, não há nada. 

O financiamento não mudou em 11 anos da prática da modalidade?

Neste momento tenho a bolsa do Comité Olímpico de Portugal, desde que fui campeão da Europa em 2014. É a única coisa que temos. Agora tenho um patrocinador, mas em termos monetários não há mais nada. Temos suplementos que dão muito jeito para recuperar. Mas quando tentamos falar com outras empresas para tentar arranjar dinheiro para ir a competições, nunca há. Temos de continuar a ser nós a investir tudo nisso. Se eu não tivesse sido campeão europeu, provavelmente tinha-se acabado o taekwondo. O dinheiro que estava a usar era o dos prémios de campeão do mundo, e esse dinheiro estava a acabar. Os meus pais não tinham mais, com a minha irmã a estudar. Nem eu ia pedir mais aos meus pais. A minha irmã ia deixar de estudar para eu continuar o meu sonho do taekwondo? Isso não era possível.

Como acha que isso pode mudar?

Se os clubes começarem a investir, se a federação começar a investir mais, se os atletas que têm algum talento começarem a ser pegados pelas instituições, não serão tantos a desistir. E vamos conseguir chegar mais longe.

Falemos de algo mais feliz. Qual foi o título mais difícil e que guarda com mais carinho?

Todos os títulos têm uma história por detrás, portanto é difícil escolher um. Seja porque tive uma lesão, porque a preparação foi de loucos ou porque as competições a que fomos antes tinham condições horríveis. Todos eles tem uma história. É difícil escolher assim um.

E uma dessas histórias, pode contar?

Quando fui campeão da Europa, duas semanas antes, andava de muletas. Fiz uma rutura no quadríceps de dez centímetros e nem conseguia andar.

Como recuperou?

Fisioterapia todos os dias, duas vezes por dia. Tentar treinar o tronco porque tinha de fazer algo para perder peso. E pronto, cheguei lá, estava mais solto e as coisas correram bem.

Acha que perdeu parte da sua adolescência para se tornar uma das referências na modalidade?

Claro que pensamos um pouco nisso. Toda a parte universitária perde-se um pouco, porque tínhamos de treinar. Não dava para ficar até às seis da manhã em festas, ou melhor, nem dava para ir, porque no dia seguinte havia treino a essa hora. Mas também ganhei outras coisas.

E explique-me lá isso de não ganhar nem um grama de peso.

A minha categoria é -58 quilos. Eu posso ter qualquer valor abaixo. Tenho de ter no máximo 58 kg. No dia, tenho de lá chegar e tenho de pesar 58 quilos ou menos. Para as pessoas, não dá para dizer aquilo que nós fazemos porque é uma coisa aplicada ao desporto. Se tentarem extrapolar, não seria nada saudável. Eu peso-me todos os dias de manhã e à noite, felizmente já tenho alguma noção daquilo que posso ir comendo e do que vou treinando.

Não há deslizes?

Às vezes há, mas depois temos de compensar porque sabemos que a cada deslize que fazemos vamos ter de sofrer mais um bocadinho para compensar.

Esqueçamos os deslizes. Encontrámos um site, o Taekwondo Data. É interessante porque tem tudo sobre os atletas.

Sim, sim, tem tudo.

O Rui tem 67,9% de vitórias.

Sim.

É para melhorar no Rio?

[risos] Eu espero que sim! Mas não posso garantir nada. É para isso que estou a trabalhar.

Quem são os seus grandes adversários?

Lá só estão os 16 melhores do mundo, portanto são os 15, para além de mim. 

Mas tu também és um adversário temível.

Sim. Não estou a dizer que são mais fáceis ou difíceis do que eu. Só estou a dizer que todos os que lá estão têm um currículo que dava para ouro. O facto de ser bicampeão europeu não muda nada.

 Se ganhar uma medalha, pode cometer um deslize...

Ah sim, depois da medalha, claro que sim! Quer ganhe ou perca, não vou estar muito preocupado com aquilo que como ou deixo de comer [risos].

Como vai celebrar?

Celebrar? Vão lá estar os meus amigos todos, só quero é estar com eles, nem que fosse num café, estar lá sentado com eles. 

Mas eles vão consigo?

Não vão comigo, comigo. Comigo só vai o meu treinador.

Mas compraram viagem?

Sim, sim, a minha namorada, os meus pais, irmã e mais seis amigos compraram. Vão lá estar todos, vou ter lá uma comitiva gira.

Então vai ser uma festa, quer ganhe quer perca.

Vai, vai.

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