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DiVersos. Fazem 20 anos os cadernos brancos com versos de todo o mundo

DiVersos. Fazem 20 anos os cadernos brancos com versos de todo o mundo

Diogo Vaz Pinto 09/08/2016 12:39

Exclusivamente dedicada à poesia, a DiVersos é uma publicação solitária no nosso panorama e bastante ignorada. Entrevistámos o seu editor, José Carlos Costa Marques


Cumprem-se duas décadas desde que surgiu o primeiro dos cadernos brancos que compõem a série DiVersos – Poesia e Tradução. Iniciada em 1996, então na linha dos fanzines, uma publicação despojada, de poucas páginas, que teve o momento de incepção numa proposta feita pelo poeta e tradutor Manuel Resende a três colegas – Carlos Leite, Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Costa Marques – quando viviam fora do país e trabalhavam numa instituição europeia. Nas páginas que não pararam de ganhar volume tem-se produzido uma reunião de centenas de poetas, boa parte deles chegados das mais variadas línguas e tradições, vertidos para a nossa língua no trançar de uma corda que se mantém firme pela colaboração generosa de tantos leitores que quiseram partilhar o fruto da sua garimpagem.

Na hora em que a mesa parece realmente sonhar com a superfície do mundo inteiro, neste que é o mais persistente esforço de divulgação de poesia entre nós, as fronteiras e o próprio tempo são abolidos discretamente, criando uma versão o mais despretensiosa possível do eco que as épocas legam umas às outras. Mortos e vivos numa vizinhança casual, como retratos na vertigem serena do corredor de uma casa onde estranhos se familiarizaram. Autores clássicos e contemporâneos, os versos de estreantes ao lado dos de autores consagrados, e isto sem que nas páginas da revista DiVersos se pressinta qualquer acento hierárquico. Num tempo em que os coletivos tendem a encenar fórmulas feudais de promoção de certos nomes mais do que escolas ou estéticas, a DiVersos parece recusar as daninhas tentativas de afirmação, e prossegue com a abertura dos seus critérios a simples missão de divulgar poesia num tempo que não quer nada com ela. Fomos falar com o editor da revista, José Carlos Costa Marques, numa entrevista realizada por e-mail.


Do que mais se orgulha depois de duas décadas a editar aquela que será hoje a mais antiga revista portuguesa dedicada inteiramente à poesia?
Não creio que tenha um sentimento de orgulho em relação à DiVersos. Estou ciente dos seus méritos e deméritos, é verdade. Sentimento de satisfação sim. E sobretudo, a cada número saído, de alegria profunda e silenciosa. É algo que dá mil trabalhos e cuidados (sobretudo porque coexiste com outras tarefas minhas, como ela todas voluntárias graças ao luxo de ser reformado desde há cerca de dez anos, metade do percurso da DiVersos), mas que esses instantes de alegria compensam largamente.


Ao longo de todo este período quais foram os encontros mais significativos, e que histórias foram inspirando esta dedicação?
O mais significativo foi o encontro com os três outros poetas fundadores da DiVersos, colegas de trabalho como tradutores numa instituição no estrangeiro desde o verão de 1991, um deles, Manuel Resende, que foi quem lhe deu o nome e a editou até ao n.º 3, amigo de adolescência e só ali reencontrado depois de décadas de ausências, dois outros que se tornaram amigos, Carlos Leite e Jorge Vilhena Mesquita. Apenas lamento que não tivessem podido continuar associados de perto à publicação dela, cada um em diferentes fases, por razões compreensíveis e poderosas. Um outro colega, amigo também desde a adolescência, José Lima, bem conhecido hoje como tradutor literário notável e mais se os tradutores literários tivessem entre nós o reconhecimento que merecem, apoiou-nos desde logo como tradutor — e divulgador!. Só há poucos anos soube, o que verdadeiramente não me surpreendeu, que escrevia também muito boa poesia, e como tal o incluí num dos números recentes.


Na nota editorial em que assinala os vinte anos da publicação no seu 24º número, o último e o maior em número de páginas (200), refere esta tendência para o crescimento devido ao alargamento dos seus colaboradores, mas refere que este não acompanhou qualquer sucesso comercial ou literário. Como explica a quase clandestinidade deste vosso trabalho, tão raramente destacado pelos jornais?
Quando referi ausência de êxito comercial era mera hipótese retórica visto que, e em qualquer país do mundo, não parece que possa haver qualquer publicação regular de poesia com significativo êxito comercial. Já êxito literário, isso é bem mais frequente. Êxito ou pelo menos algum reconhecimento por parte dos pares. Mas uma publicação discreta, por “temperamento” e por circunstâncias casuais – ter surgido e ter prosseguido longe de Lisboa, primeiro no estrangeiro, depois num subúrbio do Porto ele próprio um ‘subúrbio’, a ausência de conhecimentos no meio literário e da imprensa, a ausência de uma certa dimensão mundana que também existe na literatura  — e é digamos inevitável e até constitutiva e tem um papel com uma vertente que por vezes pode ser positiva —, é natural e até justo que a DiVersos seja desprovida desse êxito ou reconhecimento e até da simples menção de existência. Que, quando não é ignorada, até em suplementos de jornais de grande prestígio, as menções sejam muitas vezes exíguas e com vários erros factuais em poucas linhas, não passa de uma caraterística não rara do género “jornalismo literário”. Em compensação, a DiVersos conseguiu fidelizar algumas dezenas de pessoas que, como leitores (sobretudo assinantes, visto que desde há quatro anos deixou de estar presente no circuito comercial), ou como autores ou tradutores, a estimam e a apoiam com generosidade.


A vossa longevidade tem merecido um reconhecimento por parte do exíguo público que continua a partilhar este esforço?
Sim, desse “público” exíguo sim. De resto, a longevidade em poesia não é documento. Algumas das publicações de maior influência na história da poesia tiveram uma existência fulgurante mas reduzida a muito poucos números. Não nos colocamos nesse plano. Mas sim no da tarefa humilde de criar um veículo de expressão que, sem renunciar a algo difícil de definir mas de que muito se fala e que tem a sua importância, a chamada qualidade, acolhe tanto os nomes conhecidos (mas muitos que são conhecidos do público não os conhecemos nós ou não temos acesso a eles) como os inteiramente desconhecidos. A DiVersos será talvez no futuro o lugar único onde se poderão encontrar algumas vozes da poesia portuguesa atual que, sem terem adquirido projeção, dariam no entanto uma imagem mais polimorfa do quadro geral.


Quais são os poetas que destacaria pela qualidade e importância da sua mensagem de entre aqueles que apareceram nas páginas da DiVersos?
Fazer esse destaque seria entrar numa função crítica que não é a nossa. É certo que, ao admitir ou rejeitar colaborações (rejeitar, muito pouco na DiVersos, coisa de que dificilmente somos perdoados por alguns), o editor desempenha sempre um papel, digamos, pré-crítico. Mas a opção da DiVersos foi desde o início, e assim se mantém, a de dedicar-se exclusivamente a publicar poesia e tradução de poesia. Além disso inserimos apenas muito breves notas biobibliográficas dos autores e tradutores publicados e notas editoriais muito breves também e de índole meramente informativa. Apenas o n.º 9, que teve aliás outras particularidades, incluiu quatro desenhos de Joana Villaverde, de resto não há ilustrações, nem crítica, nem ensaios, nem ficção, nem outras prosa nem outras artes. Posso apenas assinalar que, entre muitos nomes desconhecidos do meio literário, publicámos também alguns de relevo, dos poucos de que tínhamos conhecimento pessoal e direto que nos permitia abordá-los com um convite expresso ou que chegaram até nós graças à amizade de alguém próximo. A título de exemplo, lembro António Ramos Rosa (também em tradução), Pedro Tamen, José Blanc de Portugal, Fiama Hasse Pais Brandão, Albano Martins, Fernando Guerreiro, Eduarda Chiote, Gastão Cruz, Luís Quintais, Adília Lopes, Afonso Cautela, António Cândido Franco, António Manuel Couto Viana, António Salvado, Luís Amaro… Em todos os números consta a lista completa dos autores publicados e nela todos têm democraticamente idêntico relevo. 


E das suas próprias colaborações na revista, o que destaca?
Tenho colaborado com o meu nome civil apenas em traduções, quer de línguas das quais tenho experiência de décadas, o que não quer dizer que as soluções que adotei sejam boas (francês, inglês, castelhano), quer de línguas em que sou aprendiz apenas (grego moderno, sueco, norueguês) ou até autodidata (italiano, galego) mas para as quais pude contar quase sempre com a ajuda de revisores ou releitores que as conhecem profundamente. Se acrescentar o alemão, de que tenho apenas "conhecimentos", isso permitiu-me também praticar com alguns dos tradutores uma forma de edição em que o editor entra em diálogo com o tradutor quanto mais não seja levantando perplexidades e pedidos de esclarecimento. De uma forma geral, esse tipo de trabalho tem sido compreendido e apreciado pelos tradutores a quem foi proposto. É claro que seria impossível praticá-lo em muitas das línguas que têm sido incluídas na DiVersos (chinês, búlgaro, umbundu…), a não ser resumido à manifestação de alguma estranheza num caso ou noutro quanto à versão portuguesa de que por vezes têm resultado alterações feitas aqui e ali pelo tradutor. A minha poesia própria apareceu algumas vezes, não muitas, na DiVersos, sob um nome literário, que utilizei também em dois livros publicados em 2009 e 2011, embora vá regressar ao meu nome civil (já utilizado no livro “Investigação da Alegria”, de 1989) num livro que está no prelo (com o título “Uma Voz Entre Vozes”).


Quais acredita que sejam hoje os principais problemas e desafios que enfrenta um editor que procure fazer um trabalho sério de divulgação de poesia? E em relação a si, o que continua a motivá-lo e a merecer o seu empenho?
Ao editar fui também durante alguns anos o meu próprio distribuidor. Nisso, e também em contactos com distribuidores, apercebi-me que a edição de poesia, salvo raríssimas exceções, só quase pode existir em Portugal (e será talvez o caso em muitos outros países, mais do que por vezes se supõe) como forma sui generis de mecenato. Nunca como hoje terá havido tantos bares, cafés, autarquias, a promover leituras ou declamação de poesia. Da parte das autarquias há mesmo várias que organizam Festas da Poesia. Mas a isso não corresponde um interesse equivalente em ler poesia publicada em livros ou revistas específicas — ou pelo menos em comprá-los. Como dizia algures e há muito tempo José Blanc de Portugal: “Lá se vão esgotando os livros dados, lá se vão.” Creio mesmo que a poesia lida silenciosamente é hoje um género próprio que não se confunde com a poesia (até a dos mesmos poemas!) lida ou declamada em público. Quando dita e gravada pelos próprios poetas, ressalta por vezes a enorme diferença entre a musicalidade da leitura silenciosa que apenas se adivinha e, quando acontece, a leitura quase estropiada pelo próprio criador que aparentemente não faz juz à qualidade que certamente existiria no que seria a leitura silenciosa. Quanto ao meu empenho, o que me motiva é o que digo em resposta às suas duas primeiras perguntas. A estima que vai nascendo com pessoas que nunca vi e que provavelmente nunca verei. A satisfação de um trabalho sério e minucioso e a alegria silenciosa que me suscita ver o seu resultado impresso em papel.
 

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