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Manuel Jorge Marmelo. "O terrorismo é hoje, mais do que tudo, um problema de psiquiatria"

Manuel Jorge Marmelo. "O terrorismo é hoje, mais do que tudo, um problema de psiquiatria"

Diogo Vaz Pinto 21/07/2016 11:15

Manuel Jorge Marmelo (Porto, 1971) publica há 20 anos, a uma média de um livro por ano, e tem uma perspectiva bastante sólida do papel que cabe ao romancista: um artífice que abre um trilho implausível nos caminhos do mundo, "falsificando" a realidade para extrair umreflexo de outro ângulo, não menos verdadeiro. No seu mais recente livro, "Macaco Infinito" a acção decorre num bordel, palco ilimitado para a condição do homem e metáfora para a Europa.


Desta vez tudo se passa num prédio, uma viva assombração dos nossos dias, funcionando ali um prostíbulo às ordens de um tirano preso a uma cadeira de rodas. Manuel Jorge Marmelo arquitectou novamente um microcosmos onde o leitor começa por ser lançado num espaço fechado, um tanto genérico, e servido de um bando de clichés, os nativos das representações ordinárias que despontam à primeira sugestão. Mas, aos poucos, como se erguidos dos próprios fósseis, os personagens vão descolando do registo linear e ganhando traços próprios. Como se a vida fosse despertada pela atenção do leitor, atravessando as divisões, estilhaçando a superfície. À medida que as personagens, inicialmente algo esquemáticas, recordam episódios do seu passado vão assistindo assim ao seu próprio parto. Uma narrativa que consegue colocar a engrenagem entre a realidade que nos chega todos os dias de forma difusa pelas notícias, as distâncias que divisamos como vagas ficções, menos pelo seu lado fabuloso do que pelo lado sórdido, e os modelos de opressão que dominam o tempo que vivemos. Este é um livro que fica a meio caminho entre a alegoria e uma distopia em ponto pequeno.


O cenário deste romance é um bordel, e já disse que este espelha um pouco a Europa, mas gostava de saber qual foi o ponto de partida para este livro?
Curiosamente não teve a ver com esse bordel como metáfora para a Europa. Lembro-me perfeitamente de quando escrevi as primeiras frases do livro. Foi aqui em Lisboa. Acordei de manhã na torre de um hotel, quando estava hospedado para gravar o episódio do Contentor 13 [programa da RTP2 de entrevista a autores]. Acordei com o barulho da cidade ao longe e a sensação de despertar para a realidade mas não poder ver o que está a ouvir. É a partir daí que a história se desenvolve. A ideia de transformar esse prédio alto num bordel surgiu posteriormente. 


Parece haver nos nossos dias uma dificuldade da ficção estar a par da realidade. Ao escrever este livro debateu-se com o esforço para de algum modo fazer caber nele a realidade actual?
Sim, o livro parte dessa premissa: a necessidade de reflectir sobre a realidade europeia hoje. E o livro está contaminado por isso. A imagem do bordel tenta dar corpo de um modo literário à ideia que fazemos hoje da Europa. Temos uma Europa guardada, cercada por muros e redes. Mas por as coisas estão a acontecer a cada dia que passa, é difícil estabilizar para já um pensamento sobre esta realidade. A literatura, do meu ponto de vista, é um esforço adequado para lidar com isto. Não decorreu o tempo necessário para a História se debruçar sobre aquilo que estamos a viver, e mesmo para a sociologia talvez seja ainda cedo para compreender isto com alguma clareza. Mas o que a literatura permite é abordar esta realidade sem certezas. Pode transformá-la numa outra coisa, dar-lhe uma dimensão ficcional e a partir daí mais do que negociar certezas pode problematizar estas questões. Problematização que nem tem de ser feito de um modo directo. O que fiz foi reflectir isto a partir de um microcosmos como é o bordel do livro, ou como fiz no “Somos Todos Um Bocado Ciganos” [livro publicado pelo autor em 2012], a partir do microcosmos do circo, que já entendeu me permitiu trabalhar questões que enquanto cidadão me inquietam. 


Paulo Piconegro, o dono do bordel, que nos surge paralisado, numa caldeira de rodas, admite algum paralelo imediato com Wolfgang Schäuble?
É engraçado porque na apresentação do livro na semana passada, no Porto, à medida que a apresentadora ia falando do livro foi tornando óbvio que este personagem é muito parecido com o ministro das Finanças alemão. Quando terminou de falar, eu pedi às pessoas para não confundirem os dois. Mas evidentemente a comparação é inevitável. Não foi esse o ponto de partida embora a dada altura me tenha ocorrido esse paralelo entre o dono do bordel e o dono da Europa. 


E vê um paralelismo na forma de aproveitamento das economias mais débeis, uma espécie de lenocínio a favor dos países mais ricos da Europa?
Essa noção foi-se desenvolvendo à medida que escrevia o livro. Mas o que eu acho mais preocupante é o não se poder dizer sequer que são as nações mais poderosas do centro da Europa que impõem ao resto uma série de regras, uma vez que estas nações com economias mais frágeis têm apesar de tudo líderes eleitos e que seriam relativamente fáceis de afastar através de eleições. O problema é o facto de hoje quem toma decisões na Europa serem pessoas sem rosto. Que não conhecemos, que não elegemos e que não podemos afastar. São precisamente os Paulos Piconegros deste mundo que estão encerrados em enormes edifícios a decidir aquilo que depois influencia a vida de todos nós. Desde directrizes económico-financeiras a que todos os países estão sujeitos até à quantidade que lhes parece razoável de imigrantes que podem entrar por dia na Europa. São pessoas inamovíveis e que têm um poder que ninguém fiscaliza.


Pareceu-me que existia também uma denúncia de algo pernicioso na forma como Piconegro se relaciona com a arte, nomeadamente com a pintura “Les demoiselles d’Avignon” que ele coloca à entrada do bordel como se procurasse filtrar a realidade que ele próprio concebe, criando um estranho jogo de espelhos. Que tipo de jogo de forças está ali na forma como ele se apropria do quadro do Picasso?
Estamos todos cansados de ver no Facebook aquelas frases que repetem que a arte salva as pessoas, que a literatura salva isto e aquilo. Mas o que a História nos tem dito é que muitos daqueles que cometeram os piores crimes contra a humanidade eram muitas vezes pessoas que exibiam uma certa cultura. A relação entre a cultura e a bondade está longe de ser imediatamente demonstrável. E isto também nos remete para essa tal elite de poderosos que comandam as nossas vidas e que, muitas vezes, são coleccionadores de arte e que ganhem fortunas com a especulação à volta desta. Tanto comercializam arte como petróleo ou o que for. Para eles o valor da arte não difere do de qualquer outro produto. Foi na tentativa de reflectir sobre esse valor da arte e sobre a falta de valores na relação com a arte que explorei o tema no livro. Para mim é bastante claro que a relação com a arte não implica a adopção de valores éticos e morais, e esta foi uma forma de denunciar este mundo em que tudo é convertível a um valor de mercado.


A ideia que dá o título ao livro, a do macaco infinito, com Wakaso, o negro que surge como escravo às ordens de Piconegro, procurou assim reflectir sobre formas actuais de exploração mascaradas através da relação económica?
O teorema do macaco infinito [segundo o qual um macaco digitando aleatoriamente num teclado por um intervalo de tempo infinito acabará por produzir alguma grande obra literária, eventualmente até a obra completa de Shakespeare] tem essencialmente três dimensões neste livro. A primeira é a do racismo e dos vários tipos de intolerância, que se calhar até explorei mais a fundo em livros anteriores. Depois existe uma dimensão metaliterária bastante óbvia, no sentido em que este teorema pode, em última análise, ser aplicado a todos os escritores. O que os escritores fazem, no fundo, é sentarem-se em frente a uma máquina ou a uma folha de papel e tentar escrever uma obra, de preferência forte. Portanto, o que tentam é a partir de uma disciplina auto-imposta tentar criar alguma coisa. Serviu-me assim como metáfora da literatura e reflectir sobre o que é escrever um livro. A terceira dimensão, e para mim a mais interessante, é a possibilidade de nós, homens, sermos provavelmente esse macaco infinito. O símio cujas capacidades mentais não pararam ainda de evoluir e que não sabemos se algum dia esta evolução irá parar. O problema é o de através desta capacidade aparentemente infinita sermos capazes por um lado de enviar uma sonda até Júpiter, curar doenças mortais, sermos capazes de criar obras de arte sublimes, e ao mesmo tempo sermos capazes enquanto comunidade de impor regras absolutamente absurdas do ponto de vista humanístico. Trinta anos depois da queda do muro de Berlim estamos novamente a construir muros na Europa e estamos todos os dias a provocar uma mortandade a pessoas que procuram chegar cá fugindo de guerras e sem que isto nos pese particularmente na consciência. No fundo, o termos criado as condições para que quase semanalmente ocorressem crimes bárbaros como foi o caso do atentado de ontem [a entrevista foi feita na passada sexta-feira] em Nice. Na minha opinião este tipo de atentados sucedem porque é relativamente fácil a um indivíduo cair numa situação de desequilíbrio mental que nos leva a ultrapassar essa fronteira entre o que temos como humano e essa outra condição. Passa a ser muito fácil matar centenas de pessoas porque ninguém olha para nem por ninguém na nossa sociedade. Acho que o problema do terrorismo é mais do que tudo um problema de psiquiatria. Desde o início dos tempos que há homens com instintos homicidas – que é o que mais se opõe ao sentido de sociabilidade que caracteriza o Homem enquanto espécie. Ninguém no seu perfeito juízo mata por sua vontade outra pessoa. É preciso pelo menos um instante de loucura para chegar a esse ponto. O que sucede com o terrorismo foi terem sido criadas condições para que pessoas desequilibradas psicologicamente se sintam enquadradas por ideais completamente enviesados que oferece a estas pessoas uma cobertura ideológica para todo o género de atrocidades.


Depois de mais de duas décadas a trabalhar como jornalista, e sobretudo num período em que o rosto que o país de si tinha era em grande parte reflexo do trabalho dos jornalistas, classe que tem vindo a perder meios e influência... Agora como romancista, em que medida pensa que a literatura pode ou não compensar a perda da capacidade mediadora dos jornais?
Nenhum jornalista, ou ex-jornalista, consegue livrar-se de um olhar crítico sobre a realidade. Mas isto é antes de tudo uma postura cidadã. Todos devemos adquirir essa capacidade de questionar o ambiente que nos rodeia, sejamos jornalistas ou tenhamos qualquer outra profissão. A minha literatura é tributária dessa tensão com a realidade. Creio que a literatura tem um papel de mediação mas que não se substitui ao do jornalismo. São processos de mediação completamente diferentes. O do jornalismo é muito mais directo, uma reflexão diária e continuada sobre factos e em cima dos factos. A literatura não o é necessariamente. Toda esta nossa conversa é um pouco uma simplificação do que é o livro. O livro não coloca as questões de um modo tão directo. Cria uma situação completamente ficcional e até, em alguns aspectos, inverosímil, e, a partir dessa falsificação da realidade, a literatura tenta problematizar para buscar assim uma verdade. Mas não é uma verdade semelhante para todos os leitores. O que a literatura tenta é levar as pessoas a pensar a partir de uma mentira. Uma ficção de algum modo inverosímil e que não se confunde com a realidade. Não fiz sequer trabalho de campo para perceber se existe um bordel como o Bar Mitzvá [o do livro]. Mas foi o bordel que eu inventei para cumprir a função que lhe determinei. A partir da ficção o trabalho do escritor não é entregar verdades formatadas ao leitor mas levar o leitor a reflectir sobre a realidade que está na origem daquela ficção. E o obrigar o leitor a pensar também o leva a retirar as suas próprias conclusões.


Neste livro opta por um tipo de escrita bastante acessível, bastante directo na forma como narra a sua história, apresenta o elenco dos personagens, parece às vezes o tipo de narrativa que facilmente teria uma adaptação cinematográfica pela forma tão visual como se desenrola a acção. Isto resulta de algum esforço para tentar cativar um público mais vasto?
Não foi essa a preocupação. Tratando uma realidade que é cruel e até agressiva, este livro precisava de uma linguagem que também fosse crua e seca. Essa aparente simplicidade da linguagem é contrabalançada pela agressividade de palavras que sei que podem provocar alguma aversão aos leitores. Não houve minimamente uma preocupação de escrever simples para ser mais fácil de entender, mas de escrever de um modo nu e cru para se adequar à realidade sobre a qual o livro procura reflectir. 


Qual o papel do romancista numa sociedade em que os meios tecnológicos parecem ter criado a possibilidade para que todos se reclamem autores?
Aquilo que eu entendo como sendo a minha obrigação enquanto escritor é contar uma história mas não fazer dessa história um exercício vazio e sem mais sentido que não seja o do entretenimento. O papel da literatura é ir além do entretenimento e induzir e praticar uma postura desde logo cívica, uma atitude de questionamento, mas também um gesto literário que construa uma visão sobre o mundo que temos à nossa volta.


No teorema do macaco infinito o exemplo dado é a obra de Shakespeare, mas quais foram para si os escritores que mais o impressionaram por essa capacidade de, contando uma história, problematizar o mundo à sua volta?
Houve dois livros que me marcaram profundamente na fase final da adolescência. O “Cem Anos de Solidão”, do García Márquez, e “A Jangada de Pedra”, do Saramago. Li-os muito próximo um do outro e não só me educaram enquanto leitor mas obrigaram-me a ser mais criterioso nas escolhas que fazia em termos de leituras. Indicaram-me o caminho para o que eu haveria de ser como autor. Para simplificar, “A Jangada de Pedra”, a ideia da Península Ibérica libertar-se da Europa e ficar à deriva não é à partida uma história verosímil, não é uma coisa que possa acontecer amanhã nem em 100 anos, mas o que o Saramago com esse livro me ensinou é a possibilidade de a partir de uma ideia inverosímil ser possível criar uma história que, internamente, ao mergulharmos nela e nos vermos imersos naquela linguagem, rodeados daquelas personagens e seguindo aquelas reflexões, aquilo torna-se uma verdade para quem está a ler. É o que eu tenho tentado fazer.
 

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