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The National. Nunca se deve regressar à casa onde se foi feliz

The National. Nunca se deve regressar à casa onde se foi feliz

João Porfírio José Paiva Capucho 15/07/2016 11:00

Isto se a casa tiver outro nome. Os homens de Ohio regressaram a Portugal para encher de melancolia os milhares de fãs no Super Bock Super Rock. Agarraram o público quando queriam, mas o Meo Arena não é o palco que merecem

Os The National regressaram a Portugal dois anos depois de terem estado no NOS Primavera Sound no Porto – e um ano antes no Pavilhão Atlântico. Na passada sexta-feira voltaram a  este palco, agora no Super Bock Super Rock (SBSR), que tem  um nome diferente: Meo Arena. E pois bem, com um alinhamento melancólico e espaçado, Matt Bernninger e companhia agarram o público presente, assim que queriam. Mas a troca de nomes no pavilhão parece não ter resultado perfeitamente bem, porque se, por um lado, voz do vocalista era audível até em Marte – aquele timbre profundo tem quilómetros de distância para dar -, o resto da banda não soou tão bem.

Matt estava com saudades. Isso e com uns cabelos longos, barba grandes e uns óculos com fundo de garrafa – entrou a certa altura no modo caótico, e assim é que nós gostamos. Gostamos de um qualquer homem das cavernas que nos veio conhecer (outra vez). Começou-se pelo último álbum, “Trouble Will Find Me” (2013). Não só porque os últimos são os primeiros, e depois porque o melhor vem sempre para o fim. "Don’t Swalow the Cap” e “Should Leave the Salt” deram o primeiro passo, quase coladas uma à outra,  logo veio “Bloodbuzz Ohio” (High Violet, 2010). Todas as três são Berninger, e é, no fundo, aquilo que toda a gente quer.

Sai o blazer, arregaça-se as mangas, fazem-se rodopios furiosos de um lado para o outro em palco, com o vocalista a resolver  lançar a primeira surpresa: “The Day I Die” é uma das músicas novas – já que este ano não será lançado nenhum álbum – e lá está, como o concerto era para viajar ao passado, o público reagiu um pouco mal ao futuro – quase como a evolução do homem das cavernas, que, por questões de natureza, lá se teve de ambientar. Não faltaram clássicos como “Slow Show” ("Boxer", 2007) ou “Pink Rabbits” ("Trouble Will Find Me") ou Fake Empire ("Boxer"), que foram contribuindo para um estado de dormência contagiante que, quando quisesse, poderia despertar através do grito histórico de Matt. The National cumprem sempre onde vão, mas este regresso foi agridoce. Nem mesmo “I Will Keep You”, outra das novas músicas apresentadas, causou maior impacto. “É a única oportunidade que os norte-americanos têm de fazer sexo”, chutou Matt que recebeu risos da plateia. O vocalista tem ar de mal encarado, mas gosta dos portugueses, e isso conta quando cá vem, nem que seja para salvar um SBSR que não foi feito para eles.

Claro que há excepções: ouvir “Mr. November” ("Boxer") com os gritos de um mundo inteiro pela voz de Matt, sempre necessários, faz qualquer um sair da gruta. Lá esteve, sem dúvida, a bateria non stop, os versos com o nome da música em loop, tudo o que faz parte de uma música que se exterioriza mesmo que se lá ninguém estivesse. “Terrible Love” ("High Violet"), a última antes do remate acústico destes rapazes – leia-se Vanderlyle Cry Baby Cry” (High Violet, 2010), uma música que vale pelo momento de união que se cria à volta dela – que trouxe o vocalista aos seus velhos tempos. A de um homem que abraça o público, que sua com eles, que os faz sofrer e sentir.

Bem sabemos que o título acima é ditado popular. E, a bem dizer, o melhor esteve mesmo para o fim - tal como os cânticos entusiastas sobre a seleção nacional. Mas este não pareceu ser o seu palco para sofrermos todos em conjunto. Nem para um homem das cavernas com uma voz tão sábia quanto o resto dos que o rodeiam.

 

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