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NOS Alive. O limbo feliz de Arcade Fire

NOS Alive. O limbo feliz de Arcade Fire

Diana Tinoco José Paiva Capucho 10/07/2016 11:00

Os canadianos regressaram a Portugal dois anos depois com um best of dos seus cinco álbuns que deixou o Passeio Marítimo de Algés a sonhar com o que deverá ser a vida depois da morte.

Já se sabe quase tudo sobre a vida. Sobre aquilo que nos acontece quando morremos, isso, cabe a cada um decidir no que quer acreditar. Os Arcade Fire regressaram a Portugal dois anos depois com uma missão simples: levar-nos no seu comboio musical, agora longo e bem construído, rumo ao maravilhoso mundo da vida pós-morte.  Antes vieram os Band of Horses, ou os red neck fofinhos, que cumpriram a missão de se tornarem um bom espetáculo para ouvir durante o jantar.
E como se começa uma viagem para o além? Com "Ready to Start", obviamente. Lá fomos, sem medos, com o grupo g-i-g-a-n-t-e de doze músicos, em tons de prateado, qual anjos da guarda, andando por "The Suburbs" e "The Suburbs" (Continued) - do álbum de 2010 com o mesmo nome -, com o público, entre danças esquisitas e “tchin’s tchin’s” habituais, a receber "Reflektor", da sua última obra, o "Afterlife" (2013), como deve ser recebido: de sintetizadores ao alto, temperatura máxima e com os batuques a dizerem-nos "we all have things to hide". Nunca se deve partir sem se olhar ao espelho, e por isso, agora sabemos, não há nada a esconder.

Arcade Fire estão crescidos, tanto que se assemelham a uns quaisquer líderes espirituais em que toda a gente acredita cegamente, quer se seja crente ou não na sua religião  - e eles não o são por muito que os colem a essa imagem. Dúvidas existissem bastou chegar a "No Cars Go" do álbum "Neon Bible" (2007) (ironias das ironias), uma música que, segundo o vocalista, "já não tocavam há algum tempo" – não se nota nada, e ainda bem. Pois é, só que nesta viagem não se pode parar, estamos todos no mesmo comboio (ou carro, o que mais convier ao leitor), pois o caminho é em frente. Um, dois, um dois. "Lets go", nada está enferrujado.

Win Butler é o motorista de serviço e a Régine  Chassagne, com o seu vestido prateado, a pendura que tudo toca e tudo faz – quem não quer uma pessoa assim? E como qualquer bom condutor, é Butler quem confirma se ainda está tudo vivo neste último dia de NOS Alive: em "Rebellion (Lies)", saltou para o público, resgatou um cachecol de Portugal e cantou-nos "it’s ok its alright". Lá está, Arcade Fire são agora bons conselheiros - quase como os pais que nunca tivemos - depois de terem nascido em 2004, um ano maldito para nós. Doze anos depois quiseram dizer-nos: este domingo é para ganhar aos franceses no Euro - mas se não ganharmos, bom, o leitor sabe a resposta.

Já toda a gente no Passeio Marítimo de Algés tinha aceitado que estávamos a caminho do além através deste limbo canadiano. Os confettis de "Here Comes The Night Time", lançados ao mesmo ritmo do girar de cabeça dos gigantones em palco, ditou que estava mesmo a chegar a altura de partir – e que bem que sabe partir assim, com um som de verão. "But if there is no music up in heaven then what’s it for?". Não se preocupem, assim que chegarmos Butler e companhia tomaram conta de nós.
Mas, quase como aquela sensação de quem nos tira o tapete, Arcade Fire relembraram que mais concertos estavam para chegar. E é com "Wake Up", o single de "Funeral" (2004), o primeiro álbum da banda de Montreal, que somos obrigados a acordar e a perceber que não estamos no além, mas sim na terra - mas sempre de braços abertos apontados para o ar, porque a felicidade já está espalhada neste recinto e ninguém quer estar num funeral antecipado. "We will work it out", canta-se repetidas vezes no recinto. Claro que sim, o desconhecido serve para ser descoberto. Os Arcade Fire, mesmo já os conhecendo, e numa fase mais adulta, continuam a surpreender-nos. Havemos de encontrar uma forma de irmos todos juntos para o além - fiquemos, entretanto, no limbo de Arcade Fire, sempre feliz, como se quer.

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