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Estrela D’Ouro. O café que era também estação de correios

Estrela D’Ouro. O café que era também estação de correios

DR Joana Marques Alves 28/06/2016 19:15

Segundo o filho do fundador do Estrela D’Ouro, foi neste café que Pedro Homem de Mello escreveu “Povo que Lavas no Rio”

Quem frequenta hoje o Estrela D’Ouro sabe que pode contar com menus com preços em conta, noites de diversão com os amigos e festas até de madrugada. Mas as pessoas mais antigas da Invicta sabem que este estabelecimento é muito diferente daquele com que cresceram.

Aberto desde 1944, na Rua da Fábrica, o café Estrela D’Ouro era frequentado por muitos portuenses. Uns sentavam-se ali para estudar para os exames da faculdade, outros aproveitavam para pôr a leitura em dia, enquanto a maioria passava ali bons serões a conversar e… a conspirar.

“Era conhecido como o café dos comunistas”, diz António Fortes, filho de José Fernandes Fortes, fundador do espaço. “Após as eleições presidenciais de 1958 [disputadas entre o ministro de Salazar Américo Thomaz e o general Humberto Delgado] e a derrota da oposição ao regime, as pessoas foram para a rua manifestar o seu descontentamento. Começaram a ocorrer cargas policiais sobre os manifestantes – empurravam-nos para a Rua da Fábrica, barrando-lhes as entradas pela Rua do Almada. O café fica nessa rua.”

“As pessoas insultavam a polícia, atiravam pedras, paus, garrafas, e enfiavam--se no café. A PIDE já tinha entrado no estabelecimento e dado ordens para que a porta se mantivesse fechada, não permitindo a entrada dos manifestantes. O meu pai decidiu deixá-la apenas encostada e muitas pessoas refugiaram-se ali”, recorda António Fortes.

Esta não foi a primeira nem a última vez que o Estrela D’Ouro serviu de refúgio aos que se manifestavam contra o Estado Novo e Salazar. “Nós recebíamos muitos amigos que tinham sido presos pela PIDE. Guardavam as coisas na nossa casa. Acolhíamos também, como disse anteriormente, aqueles que fugiam – as pessoas entravam no café, eram mandadas para o segundo andar [o lar do proprietário] e ninguém as via. No segundo andar, a PIDE já não entrava”, diz.

Mas muitos dos que ali se escondiam davam algumas dores de cabeça ao proprietário: “Os estudantes comunistas deixavam frases contra o regime nas casas de banho. A PIDE via aquilo e dizia que não podíamos ter aquelas frases nas paredes – ou limpávamos tudo ou fechavam--nos o café. O meu pai disse-lhes que estava sempre a limpar as frases e que não conseguia fazer nada em relação a este assunto. Por isso, a PIDE obrigou-o a pôr azulejos até ao teto. Mas, mesmo assim, os estudantes continuavam a gravar ali os seus protestos”, conta ao i.

Porém, as coisas nem sempre foram pacíficas entre José Fernandes Fortes e a PIDE. O filho relembra o dia em que o dono do espaço podia ter ficado sem nada. “Eu tinha 12 anos quando um membro da PIDE entrou no Estrela D’Ouro de pistola em punho. O meu pai, galego, levantou-se e tirou-lhe a pistola da mão. Aquilo foi grave e o meu pai teve voz de prisão. A minha mãe estava ao seu lado a acalmá-lo. A PIDE deve ter percebido que eram pessoas de bem e não levaram o meu pai”, recorda.

Um café com música e poesia No meio de tantos tumultos existiam momentos de paz. E muitos decidiam gozá-los com um cimbalino no seu espaço preferido – segundo António Fortes, este café era frequentado por figuras importantes de várias áreas da sociedade portuguesa.

“O poeta Eugénio de Andrade costumava ir ao Estrela D’Ouro. Também [o professor, linguista e crítico] Óscar Lopes, [o advogado e deputado no tempo do Estado Novo] Simeão Pinto de Mesquita e o [oficial da Marinha e político da Primeira República] capitão Agatão Lança frequentavam o café”, conta o filho do fundador do espaço.
Mas a principal figura que ali se sentou a ler, escrever e tomar um café foi o poeta Pedro Homem de Mello. “Ele ia sempre ao Estrela D’Ouro tomar o seu pequeno-almoço. Foi lá que escreveu a letra de ‘Povo Que Lavas no Rio’, o famoso fado interpretado por Amália Rodrigues”, refere António Fortes.

Um café com marco do correio O Café Estrela D’Ouro era conhecido por ter um marco do correio à porta. “Tudo começou quando o meu pai estava à porta do café e estava a chover muito. O posto dos correios era muito longe e um cliente do café não sabia como deslocar--se até lá. “Assim, o meu pai teve a ideia de colocar um marco no café”, recorda.

Mas houve quem quisesse imitar a ideia: “Um café na Rua Passos Manuel decidiu copiar a ideia. A diferença é que o meu pai ia pôr as cartas ao posto principal depois de as pessoas as deixarem lá. O responsável por este café não ia. As pessoas começaram a apresentar queixa. Os responsáveis pelos correios foram a esse café dizer que não podia existir ali um marco e o dono queixou-se, dizendo que também havia um no Estrela D’Ouro. Eles foram lá e o meu pai disse que levava sempre as cartas. Deixaram-no ficar com o marco, mas obrigaram-no a pagar 1600 escudos por ano para o manter.”

Hoje em dia já não há marco nem pessoas a correr para dentro do café a fugir das autoridades. Mas quem passa pelo Estrela D’Ouro não esquece as aventuras ali vividas ao longo de décadas.

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