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Variações, de António. As vezes que for preciso

Variações, de António. As vezes que for preciso

Cláudia Sobral 24/06/2016 21:11

Estreia-se hoje em Lisboa peça em que Sérgio Praia é finalmente António Variações. Um monólogo que não podia ser outra coisa, escrito e encenado por Vicente Alves do Ó

“Às vezes é preciso morrer muitas vezes para se aprender a viver”, António Variações morreu em 1984 e terá sido no ano anterior o ponto mais alto da sua carreira, o concerto da sua vida, acredita Vicente Alves do Ó, autor e encenador de “Variações, de António”, com Sérgio Praia, que estreia esta noite na Sala Mário Viegas, no São Luiz, em Lisboa. É então a essa noite a que regressa, 26 de maio de 1983, Aula Magna. Variações prepara-se para fazer a primeira parte do concerto de Amália Rodrigues, referência, fonte de inspiração, é aliás a sua versão de “Povo que Lavas no Rio” a primeira faixa do sei primeiro LP, “Anjo da Guarda”, que dedicou à fadista.

Faltam horas para o concerto e Variações já chegou, manda sair os técnicos, precisa de estar sozinho. Pensa no pai que já morreu, na mãe que está em Fiscal e não pode trazer para Lisboa, na vida que pressente já que será curta. “O que tentamos pôr em palco é tudo o que lhe deve ter passado pela cabeça naquele dia. Sendo ele um fã incondicional da Amália, acredito que nessa noite lhe tenha passado tudo pela cabeça, toda a gente”, diz Vicente Alves do Ó, que o ator Sérgio Praia desafiou a escrever uma peça sobre Variações, personagem que prepara há anos para um filme de João Maia que ainda não se concretizou por problemas de financiamento. “Já fui convidado para escrever sobre outras personagens históricas que recusei por sentir que não tinha absolutamente nada a ver com elas”, diz na conferência de imprensa de apresentação da peça. Aqui o desejo de aceitar foi enorme. “Sabia que ia ser difícil, mas lembrei-me logo de ver o António no Júlio Isidro quando era miúdo, do dia em que ele morreu, a minha mãe chorou imenso, lembro-me das cassetes, tinha a do primeiro álbum, que ouvia muito.”

O princípio de “Variações, de António” foi em dezembro de 2014, quando Alves do Ó começou a fazer a pesquisa, com o que estava escrito, em conversa com os que o conheceram, nas letras das canções, que às vezes quase surgem no texto. “Se prestarmos atenção, são altamente biográficas, a gente quase que consegue desenhar a história da vida dele pelas letras das canções.” Mas não era a história da vida de Variações como cronologia de acontecimentos que lhes interessava aqui. “Os dados biográficos servem para eu fazer uma interpretação do que ele é, o que ele sente, mais do que o que ele faz. Os dados sobre a vida não contam nada, são apenas dados. Dentro da tua cabeça e do teu coração é que se passa imensa coisa e o que eu queria descobrir era o que se passava dentro dele. Como é que eu posso interpretar o que é que se passa na cabeça de um miúdo de 12 anos que chega a Lisboa em 1957?”

Um palco-altar Em dezembro, Alves do Ó foi a Fiscal, conhecer o lugar onde Variações nasceu António Joaquim Rodrigues Ribeiro, numa família de 11 irmãos, onde fez a quarta classe e começou a trabalhar até aos 12 anos se mudar sozinho para Lisboa, depois Londres, Amesterdão e Lisboa outra vez. “Ele faz uma coisa absolutamente extraordinária – com a qual Portugal ainda tem muita coisa para resolver – que é nunca renegar a sua origem, nunca renegar a sua identidade, esta ideia de juntar Braga e Nova Iorque é para mim altamente sofisticada e eu precisava de perceber o porquê disto, das opções dele, daquela atitude, daquela roupa, de ele estar aqui. Por que é que ele não ficou em Londres, por que é que voltou para Lisboa? Quando se é um homem que quer o mundo, Londres ou Nova Iorque será certamente muito mais interessante do que Lisboa em 1978. Mas ele volta para aqui.”

E regressando sempre a Fiscal, onde encontraram um penedo onde ele cantava que trouxeram para o palco. O penedo que é palco e é altar de sacrifício, “às vezes é preciso morrer muitas vezes”. Alves do Ó sempre achou que Fiscal ficava num vale. “A ideia para mim de uma pessoa que vive num vale é de uma pessoa que vive em sufoco porque vive no meio de montanhas, portanto a necessidade de fuga vem de uma aflição.” Mas estava enganado. “O António não vivia num vale, o António vivia no cimo da serra, automaticamente um palco, diante do horizonte. Isso muda toda a minha perspetiva em relação a ele”, recorda. 

Variações é isto tudo que vemos nesta viagem que conseguiu fugir ao retrato óbvio de quem olha para o homem de fora. “As pessoas acham que só nasci agora, eu já cá ando há muito tempo. Elas é que não me viam”, ouvimo-lo dizer no palco da Aula Magna, neste monólogo que não podia ter sido outra coisa, era esta ideia do homem sozinho que Sérgio Praia queria explorar. “Há muita gente que diz que o conhecia, mas às medida que fui falando com as pessoas percebi que muito poucas que o conheciam verdadeiramente para lá do lado performático.”

Três variações de uma história António era de Fiscal, Vicente é do Alentejo, Sérgio é de Ovar. “Eu, o Sérgio e o António somos uma espécie de três variações da mesma história”, diz Vicente Alves do Ó, que explica: “Viemos os três da província, temos os três um background familiar intenso, vamos dizer assim, não temos propriamente dentro do nosso seio familiar ou da nossa estrutura aquelas armas que podiam explicar por que é que somos aquilo que somos. De certa maneira o que sonhámos foi fugir àquilo que vivíamos, tornámo-nos obcecados com a ideia de ser e vir para Lisboa ser aquilo que sonhámos ser. Somos pessoas profundamente focadas naquilo que sonhámos ser e até agora os três conseguimos cumprir isso de uma forma muito solitária até.”

Sentado no penedo, sob uma bola de espelhos que é a lua, António regressa à altura em que tinha 12 anos, ao dia em que a mãe o mandou para Lisboa com uma carta para entregar ao Sr. Coelho que havia de lhe arranjar qualquer coisa, regressa à carta que enviou de volta à mãe a contar como em Lisboa não havia estrelas, como era apenas mais um, como chorava à noite mas não podia por ter 12 anos, já ser um homem. “Se calhar para as pessoas que são de Lisboa isto não é fácil de se perceber mas quando chegas a uma cidade deste tamanho e não conheces ninguém… O António chegou aos 12, eu cheguei aos 27, contratado para escrever argumentos e não conhecia absolutamente ninguém”, recorda o encenador. “Era olhado como ‘o que é que este gajo está aqui a fazer’, lembro-me de me perguntarem muitas vezes ‘você é filho de quem?’” 

Quando se tem um objetivo muito claro “deve abandonar rapidamente o ninho, a mãe o pai”, acrescenta Sérgio Praia. “Eles protegem-nos de outras formas mas ao nível da arte temos que ser nós a tomar consciência e a fazer um caminho nosso. Isso é muito importante e o António tinha muito esse foco de fazer o seu caminho e não se juntar a pessoas só porque queria chegar a determinado sítio, determinadas pessoas ou determinado estatuto. Acho que, mesmo sabendo que não era fácil, ele sempre acreditou muito na sua figura, naquilo que queria fazer e não no que os outros queriam fazer dele.” 

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