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Ricardo Costa 16/06/2016
Ricardo Costa

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O povo do 10 de Junho

Neste ambiente de festa que marcou o novo programa do Dia de Portugal, o que ficou de mobilizador para o país e para o “português”?

Não há dúvida de que esta coabitação entre António Costa, federador das esquerdas, e Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente vindo da direita, tem rasgado horizontes. Se ambos estão em campanha (digamos) institucional - entre níveis diferentes de legitimidade e legitimação -, a asserção parece ser a de entendimento até prova do contrário: se possível e sempre que possível, juntos na caminhada. A nova modalidade de comemorações do 10 de Junho - militarista (enaltecendo a função agregadora das Forças Armadas, sem temores de recuperar os traumas do “Império”), popular (no sentido de elogio ao “povo”) e global (atendendo à presença do português pelo mundo, destacando a gesta do português desfavorecido e combatente em França) - fez todo o sentido nessa coesão de esforços e vontades. A iconografia registará o momento: aquele em que Costa abriga Marcelo da chuva. A história futura decidirá se e quando Marcelo vai tirar o guarda-chuva de cima de Costa.

Este 10 de Junho fica na história em modo de reality show premeditadamente genuíno. Se o dia celebra as “comunidades portuguesas” (como antes comemorava a “raça”), Marcelo soube reinterpretá-lo com engenho e arte. E muita empatia popular, no timbre de afetos que se entranhou no modus operandi presidencial. Entre os avisos para a derrapagem da despesa pública, por força da lei das 35 horas na função pública, e as recomendações associadas ao veto do diploma sobre a “gestação de substituição”, a viagem a França fez-se em ambiente de festa, porventura até para surpresa de François Hollande, rendido aos mais altos representantes desta nação de canto. Ter-se-á até interrogado sobre o estereótipo que os franceses têm do nosso “povo”, aquele que acorreu para lá dos Pirenéus para lutar contra uma vida desgraçada e sem remédio. Afinal, o que é ser português e qual é o perfil do português? Qual a reputação que temos de nós próprios e levamos lá para fora, no passado e agora? Teremos identidade, avessa ao espaço físico, ou somos um somatório de identidades e comunidades desconjuntadas? Estamos condenados à hiperbolização legada pelos heróis mal estudados nas salas de aulas, em contraponto à descrença dos falhanços, ou transformámo-nos entretanto numa outra síntese neste período último de duas gerações, o tal hiato em que se fez tanto cortando etapas e diminuindo tempos? E se a identidade não é assim tanta que valha um perfil, o que faz o português reagir depreciativamente à circulação pelo mundo para ser reconhecido e ter melhores condições de vida? Será porque acredita piamente no país, aconteça o que lhe acontecer? Será porque patriotismo é querer ser feliz no país, numa espécie de plano coletivo que nunca acaba por se concretizar perenemente?

Assim estivemos em dias de festa além--fronteiras sem verdadeiramente mobilizar o país “daqui”, mais virado para buscar o sol no Sul a seguir às filas da A2. Mas sem verdadeiramente discutir e perceber para onde vamos e como vamos. Ficam as frases de Marcelo, um preâmbulo para um programa classista. “Foi o povo, a arraia--miúda, quem nos momentos de crise soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal. Mesmo quando algumas elites nos falharam em troca de prebendas vantajosas, de títulos pomposos, meros ouropéis luzidios, de autocontemplações deslumbradas, ou simplesmente tiveram medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos.” Assim sendo, avance o povo.

Professor de Direito na Universidadede Coimbra. Jurisconsulto

Ricardo Costa

 


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