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Santos 2016. Bairros de Lisboa unidos salvam desfile

Santos 2016. Bairros de Lisboa unidos salvam desfile

Mariana Madrinha 11/06/2016 12:50

A três dias de desfilar no Meo Arena, quatro marchas populares souberam que não tinham os figurinos. Como a união faz a força, os colegas uniram--se e todos vão desfilar com brio no próximo domingo. Porque o importante é continuar a marchar

Como depois de uma tempestade vem a bonança, também com a história de Joaquim Guerreiro, conhecido como o “Novo Mourinho das Marchas”, que a semana passada fugiu com milhares de euros deixando as marchas para as quais trabalhava sem roupa, nasceram coisas bonitas. Neste caso, histórias de entreajuda entre as marchas que, no próximo domingo, descerão a Avenida da Liberdade. Ao saberem do prejuízo dos colegas, os bairros meteram as rivalidades para trás das costas e uniram-se para conseguir acabar os figurinos a tempo. Desde pagarem faturas a oferecer costureiros, tudo foi feito para que ninguém ficasse de fora. “Tivemos muita gente das outras marchas que nos ofereceram serviços, foi muito bom. Conseguimos dar a volta à situação com a Junta de Freguesia de Benfica, que nos ajudou desde o primeiro momento, por isso agradecemos mas não foi preciso”, diz Lena Rebelo, da Boavista.

Também Pedro Jesus, do Alto do Pina, realça a ajuda que receberam de outras marchas. “Alfama, Bica, Marvila, Penha de França e Olivais e todas as outras mostraram-se solidárias connosco, nem estávamos à espera. São Vicente chegou a pagar faturas nossas, quer dizer, faturas do Joaquim Guerreiro”, avança o responsável. “Julgo que todas as marchas se uniram, de certa forma, para defender as festas.”

Bruna Mesquita, que marcha há 11 anos por Marvila, assume que se tem ouvido muito burburinho e confirma que a sua marcha está solidária e se ofereceu para ajudar. “Há sempre muitas rivalidades, mas num caso destes não se liga nada a isso. As nossas costureiras ajudaram a terminar os fatos. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós”, diz a marvilense.

Tanto a marcha do Alto do Pina como a da Bica acordaram que tomarão decisões mais sérias para a semana – como apresentar uma queixa-crime –, já que por agora só querem estar concentradas na noite na Avenida. “Não queremos mais má publicidade, não é isso que são as marchas nem as Festas de Lisboa”, diz Pedro Jesus.

Em parte incerta “Um profissional reputado, recomendado por todos.” É assim que os responsáveis pelas marchas da Boavista e do Alto do Pina se referem a Joaquim Guerreiro, o figurinista encarregado da criação do guarda-roupa dos marchantes destes dois bairros e também da Bica e do Lumiar. Desde há mais de uma semana, altura em que o figurinista conhecido por o “Novo Mourinho das Marchas” desapareceu sem entregar roupas que valiam milhares de euros, que o assunto tem dominado as conversas dos marchantes das Festas de Lisboa.

“Disseram-nos que por vezes ele se podia atrasar, mas nunca tinha havido questões com dinheiros”, explica Bela Rebelo, da Boavista. “Toda a gente das marchas conhecia o nome dele e foi quando o contratámos, assim que soubemos que íamos marchar, em setembro do ano passado.” Esta era – e é – uma marcha especial para os habitantes desta zona lisboeta. “O nosso bairro faz 75 anos e este é o primeiro ano que vamos participar, e aconteceu isto”, conta a responsável. “É inédito: a primeira vez na Avenida e fomos roubados!”

Bela Rebelo diz que a associação responsável pelas marchas do bairro da Boavista não conhecia Joaquim Guerra antes de selarem contrato, mas que o figurinista estava “referenciado como um grande profissional”. “Conhecemo-lo depois, quando ele se veio apresentar para prestar os seus serviços”, recorda a moradora do bairro. “Ligou-nos em setembro e depois, em novembro, começámos a acertar os detalhes das roupas.” O orçamento terá ficado fechado em 22 mil euros. “Ficámos sem os 22 mil euros, que foi a quantia que lhe entregámos. E depois, quando fomos buscar a roupa, só tínhamos os sapatos”, relata. A três dias da marcha realizada no sábado passado no Meo Arena, o pânico instalou-se. E as próprias costureiras não faziam ideia do que se estava a passar. “As costureiras, quando chegámos ao armazém e começámos à procura das coisas, estavam em choque. Desconheciam totalmente o que se passava.” Há uma semana que o bairro da Boavista apresentou na esquadra da PSP local uma queixa-crime contra o figurinista, mas diz que agora isso não interessa. “Nem estamos a pensar em reaver o dinheiro, só pensar nisso faz-nos muito mal, estamos a tentar esquecer. Só queremos é abrilhantar a Avenida dia 12, depois na justiça logo se resolve o caso.” Joaquim Guerreiro apagou, entretanto, o seu perfil das redes sociais e continua em parte incerta. “Enviou-nos um pedido de desculpa por email, mas não sabemos dele.”

Já para Pedro Jesus, responsável do Alto do Pina ­– que conhecia bem o trabalho de Joaquim Guerreiro, apontado por ter levado esta marcha à vitória o ano passado –, esta é a história de “um homem que se desorientou e optou talvez pela pior saída, que foi fugir”. Lesada em 10 mil euros, a marcha do Alto do Pina diz que Joaquim deixou todos os fatos cortados nas costureiras – que foram acabados à pressão. Ainda assim, assume que os prejuízos vão para além do dinheiro perdido. “Há muito prejuízo humano envolvido, muita gente que teve de deixar os seus trabalhos subitamente para resolver esta situação. E isso não tem preço.”

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