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Vânia Conde. Este fado vai a todos os corredores

Vânia Conde. Este fado vai a todos os corredores

João Porfírio Pedro Rainho 01/06/2016 15:52

A reação dos doentes, quando Vânia Conde lhes canta um fado, não precisa de muitas palavras. Ainda assim, a enfermeira que esta sexta-feira apresenta no CCB o seu primeiro álbum a solo, “Vânia Conde”, admite: “O meu serviço começou a ter muito mais barulho desde que fui para lá”

É quase sempre depois das visitas que os doentes de Vânia Conde têm direito a um fado improvisado. “Nos Cuidados Intensivos é mais difícil perceber as reações, porque tenho os doentes monitorizados o tempo todo, mas mesmo assim consigo ver que estão a gostar”. O seu fado, diz, altera-lhes a frequência cardíaca e a respiração.

Vânia vive dividida entre a enfermagem e o fado. “Tenho a sorte de fazer coisas de que gosto muito”, admite. A “fadista” – são suas as aspas, porque, diz, o estatuto traz “uma responsabilidade muito grande” – apresenta esta sexta-feira, 3 de junho, o seu primeiro álbum de originais, homónimo, com um concerto no Centro Cultural de Belém.

O espetáculo vai ser uma prova de fogo. É a primeira vez que muitos dos temas com que se apresenta em nome próprio vão ser escutados pelo público. Pelo menos, por um público tão vasto. Nos turnos no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, os doentes internados há mais tempo foram-se tornando cobaias dos seus ensaios. Em função da reação que recebia, Vânia fazia contas se o público lá de fora gostaria ou não de ouvi-la cantar este ou aquele tema. “Aquela unidade começou a ter muito mais barulho depois de eu ir para lá”. A dada altura, já eram os doentes que lhe pediam para ensaiar mais alguns versos. “Então, hoje não quer cantar nada para a gente?”. E Vânia cantava.

A tuna e as casas de fado. O CCB e um disco próprio. De fado, ainda para mais. Uma viagem e tanto para a jovem de 16 anos que, ainda nas Caldas da Rainha, olhava para o fado como um género de “velhotes”. Foi por essa altura que o país parou para ouvir um sentido “Lenda da Fonte”. E Vânia, como tantos miúdos naquela altura, fixou pouco mais que os versos do fado. Como fazia parte de um grupo que organizava angariações de fundos e onde “cada um fazia o que sabia fazer minimamente”, calhou-lhe entoar algumas passagens da canção.

Dois anos depois veio para Lisboa para estudar enfermagem, ainda muito longe de imaginar que o fado haveria de cruzar-se com o seu destino. Mas a vergonha nunca foi aliada sua. E, na tuna, acaba por ser nomeada solista. “Comecei a pensar: ‘Então, eu só canto fados?’”

Se era assim, mais valia ir conhecer uma casa de fados. Mas a experiência acabaria por correr de forma ligeiramente diferente daquilo que tinha imaginado. A mãe foi convidada para ir a uma noite de fados e Vânia acabou lançada aos leões. “Vou, sim senhor, e levo a minha filha que também canta”, respondeu a mãe. Pânico. Nessa altura, a estudante de enfermagem conhecia apenas quatro fados, todos aprendidos nos ensaios da tuna. Mas foi. E cantou “O Namorico da Rita”, a “Maria Lisboa”, o “Oiça lá, Ó Senhor Vinho” e “Barco Negro”.

Foi o mote de que precisava para começar a palmilhar o palco das casas de fado de Lisboa. Até porque surgiram logo aí os primeiros convites e, pouco tempo depois, Vânia Conde começa a atuar na Mesa de Frades, com Aramac. Já tocou noutras casas de Lisboa, na Casa da Música e já representou Portugal nos Estados Unidos, perante um público que não percebia uma sílaba de português mas que a varreu com aplausos com uma força que não esquece. “O que me atraiu mais nesta coisa dos fados, para além da musicalidade e da portugalidade do som – porque a guitarra leva-nos logo para este cantinho à beira mar plantado –, foram as letras”.

A tradição como sempre foi. Escrever não é com ela. “Fora um textinho que escrevi quando tinha 12 anos – que não estava mau para uma miúda daquela idade, não tenho jeito para a poesia”, confessa. Não há problema. É a agarrar os versos escritos por outros e a cantá-los, sentidos, que Vânia se sente melhor. “Mas como não tinha nenhuma tradição, tive de ir descobrindo quem eu era no fado.”

E descobriu-o acompanhada pela guitarra portuguesa e a viola. Basta. “Não acho mal” que alguns fadistas incluam outros instrumentos em fados, “mas chamarem fado àquilo também não acho bem”, atira. “Os limites não são estanques e a própria evolução da música e das carreiras das pessoas fá-las talvez querer chegar a outros públicos e a produzir outras linguagens no fado”, reconhece a fadista.”

Por isto, no CCB, vai apresentar-se com um alinhamento “tradicional, mas com uma ou duas surpresas”. E bem acompanhada: além do marido, Ricardo Parreira, vai ter consigo no palco Vítor Zamora. “Tenho o privilégio de ter grandes músicos no palco”, diz Vânia Conde. Nervosa? Nem por isso. “Tenho ensaiado bastante para isto e é raro ficar muito nervosa, porque se souber o que estou a fazer está tudo bem”.

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