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Ricardo Sá Fernandes 31/05/2016
Ricardo Sá Fernandes

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Paula e Zé, os meus irmãos

A ideia de irmão é tão forte que, nas associações religiosas, na maçonaria ou na generalidade das confrarias nos tratamos por irmãos porque esse é, afinal, o ideal de cumplicidade a que mais aspiramos

1. Tenho a felicidade de ter dois irmãos, a Paula e o Zé. Nascemos em Lisboa durante a década de 50 do século passado. Em 1954, eu, em 1956 a Paula, em 1958 o Zé. Filhos de uma família da classe média portuguesa.

O meu pai, engenheiro técnico, era do Porto, como toda a sua família. De raízes transmontanas, com traços aristocráticos. Mas com convicções republicanas, ligada a uma atividade económica laboriosa (da produção e comércio de vinhos à banca ou à edição livreira). A minha mãe, doméstica, é de Lisboa. Fala francês mas não toca piano. De uma família de militares. O pai dela, o meu querido avô João, foi um dos tenentes do 28 de Maio.

Quanto às convicções ideológicas e políticas, havia de tudo. Republicanos e monárquicos, miguelistas e liberais, antifascistas militantes e servidores do Estado Novo. Gente no geral remediada, nalguns casos abastada. Dois traços comuns: por um lado, os valores da honradez, da honestidade, das boas contas, da caridade cristã existiam no mesmo grau e qualidade para todos eles. Esse é, aliás, o nosso mais rico património comum. Não me lembro de alguma vez nos ter sido elogiado, defendido ou sequer sugerido qualquer comportamento que não fosse ditado pelos mais irrepreensíveis princípios morais. Por outro lado, o repúdio de qualquer forma de ostentação e de venalidade. Até entrar na universidade só conheci um carro ao meu pai, um Volkswagen carocha de cor azul (LC-50-41, a única matrícula que na minha vida decorei).

2. A Paula, o Zé e eu crescemos, pois, num ambiente muito protegido. Nunca tivemos vida de ricos, mas também nunca sentimos problemas económicos. Enquanto eu estudei numa escola pública (o Liceu Camões, de tão boa memória), os meus irmãos frequentaram colégios particulares: a Paula, o Sagrado Coração de Maria; o Zé, o São João de Brito. Nas férias íamos dois meses para a praia (Estoril, Praia das Maçãs ou Ericeira) e, em Setembro, à quinta da família no Norte.

Porém, as coisas complicaram-se no final da nossa adolescência e princípio da idade adulta. Os nossos pais separaram-se e isso teve significativas consequências económicas no nosso dia-a-dia. A Paula e eu tivemos de ir trabalhar enquanto acabámos os nossos cursos. A chegada da revolução, por nós sentida com a alegria da liberdade, também teve para a nossa família sequelas patrimoniais negativas. Houve saneamentos e perseguições económicas que afetaram o quadro tranquilo em que tínhamos crescido. Acresceu a dificuldade na entrada no mercado de trabalho, sobretudo para a Paula e para o Zé. Além disso, no final dos anos 70, arrendar uma casa em Lisboa era um processo difícil e ainda não estava generalizado o incentivo à compra de casa própria.

Mas não nos podemos queixar. Todos fizemos as nossas vidas com algum sucesso. Eu comecei na universidade e na advocacia, mas acabei um advogado liberal a cem por cento, do que ainda gosto todos os dias. A Paula tem tido uma carreira brilhante na magistratura judicial, hoje é desembargadora na Relação de Lisboa. O Zé teve vários ofícios, mas foi mais feliz como homem de Lisboa que lutou pelas causas mais nobres da nossa vida cívica e hoje é um vereador de que os lisboetas se podem orgulhar

Eu casei três vezes. Tenho dois filhos. O Zé casou duas vezes, tem uma filha. Ambos temos enteados que tratamos como filhos. A minha irmã só casou uma vez, tem dois filhos e um neto a caminho.

3. Ninguém nos conhece tão bem como os nossos irmãos. Das nossas misérias àquilo que temos de melhor, das nossas angústias aos nossos sonhos, dos nossos medos e dificuldades até aos momentos verdadeiramente felizes.

Em relação aos nossos pais e tios e aos nossos filhos e sobrinhos, temos a distância de pertencermos a gerações distintas. Relativamente aos nossos amores, sofremos a fragilidade dos desencontros e reencontros que ocorrem. Mas em relação aos nossos irmãos, eles são o nosso porto seguro, a âncora da tranquilidade. Aqueles a quem nada podemos esconder e com quem sempre podemos contar.

É seguramente por isso que todos dizemos daqueles que, não sendo nossos irmãos, mais amamos, que são como irmãos. A ideia de irmão é tão forte que, nas associações religiosas, na maçonaria ou na generalidade das confrarias nos tratamos por irmãos, porque esse é, afinal, o ideal de cumplicidade a que mais aspiramos.

Felizmente, tenho mais alguns irmãos para além da Paula e do Zé. Alguns dos meus primos e dos meus amigos (incluindo as enteadas do meu pai) são como meus irmãos. Ser irmão e ter irmãos é a melhor coisa do mundo. E a Paula e o Zé são os melhores irmãos do mundo. É a eles que pertence este abraço no Dia dos Irmãos, amanhã, 31 de Maio.

Advogado

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