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São Gonçalo. O café que inspirava Teixeira de Pascoaes
O café localiza-se na Praça da República, mesmo ao lado do rio Tâmega

São Gonçalo. O café que inspirava Teixeira de Pascoaes

O café localiza-se na Praça da República, mesmo ao lado do rio Tâmega DR Joana Marques Alves 07/05/2016 13:41

Quando Teixeira de Pascoaes entrava no Café São Gonçalo com a boina na cabeça, os empregados já sabiam que não podiam incomodar o escritor, que ali gostava de se dedicar à sua obra

São Gonçalo é uma das figuras mais importantes da cidade de Amarante. Se existe uma ponte com o seu nome, um mosteiro e até festas anuais em sua honra, não podia deixar de ser construído um café que homenageasse este santo. Situado na Praça da República, mesmo ao lado do rio Tâmega e dos restantes monumentos que celebram o trabalho do eclesiástico, o Café São Gonçalo faz parte da história dos amarantinos há dezenas de anos.

Fundado nos anos 30 pelos irmãos Queirós, este estabelecimento quis também homenagear uma das figuras mais conhecidas de Amarante. Nascido em 1187 em Vizela, Braga, Gonçalo começou a sua vida dedicada a Deus nesta localidade, tornando-se pároco da freguesia de São Paio de Vizela. Ansioso por ver os túmulos de São Pedro e São Paulo, o eclesiástico parte em peregrinação a Roma e Jerusalém durante 14 anos, deixando os seus paroquianos ao cuidado de um sobrinho. Reza a história que, quando regressa, Gonçalo é escorraçado pelo próprio familiar que, recorrendo a documentos falsos, consegue provar ao então arcebispo D. Silvestre Godinho que o tio falecera e que a pessoa ali presente não passava de um impostor. Gonçalo é assim obrigado a abandonar a sua igreja, mudando-se para Amarante. Terá sido no local onde hoje se ergue a Igreja e o Convento de São Gonçalo que este religioso ergueu uma pequena ermida sob a invocação de Nossa Senhora da Assunção e se recolheu como eremita.

Gonçalo manda também construir uma ponte sobre o rio Tâmega, junto à sua ermida, local onde foi sepultado e, segundo várias lendas, onde ocorreram muitos milagres. Estes são ainda hoje celebrados a 10 de janeiro, dia da morte do eclesiástico, cuja obra foi enaltecida não só em Portugal, mas também nos territórios que eram paulatinamente evangelizados: “Se do Céu onde estais, abaterdes os mesmos olhos divinos, e os puserdes em Amarante, vereis pela fama, e experiências dos milagres de S. Gonçalo, os que concorrem neste seu dia a visitar suas sagradas relíquias, e encomendar-se a seu patrocínio, não são cinco mil, nem dez, nem vinte senão trinta, e quarenta mil. Vereis que a multidão inumerável de naturais, estrangeiros não cabe pelas estradas, que cobre os montes, que inunda os vales, e que não podendo todos entrar, nem chegar de perto, cercam tumultuosamente a Igreja, venerando, e adorando de longe as paredes santas, que encerram tão benéfico, e soberano depósito.” Esta é uma parte do Sermão a São Gonçalo, pregado pelo Padre António Vieira na Baía, Brasil, no século xvii.

Devido à proximidade dos monumentos que São Gonçalo erigiu e à devoção do povo para com este santo milagroso, só fazia sentido homenageá-lo também neste café, um espaço que desde os primeiros tempos desempenhou um papel fulcral na vida cultural da cidade. “O café- -bar sempre foi um local de cultura, de debate, de tertúlias, de apresentação das artes à comunidade. Aliado à sua localização privilegiada no coração da cidade, aos pés do Mosteiro de S. Gonçalo, tornou-se um ponto de paragem obrigatório para quem quer conhecer a cidade, a gastronomia, o vinho e um pouco da história e da cultura amarantina”, disse ao i Rodrigo Silva, gerente do espaço.

O café de eleição de Teixeira de Pascoaes Este estabelecimento foi frequentado por várias personalidades das mais diferentes áreas. “Cruzeiro Seixas e Manuel D’Assumpção, Mário Cesariny, António Leite e Justino Alves aquando das suas estadias em Amarante elegiam o café-bar como o local predileto para se encontrarem”, explica Rodrigo Silva. António do Largo Cerqueira, ministro da i República, Alexandre Pinheiro Torres, escritor e ensaísta, Maria Eulália Macedo, poetisa, Eduardo Teixeira Pinto, fotógrafo, e o fundador da multinacional Mota-Engil, António da Mota, foram outras das figuras que frequentaram o café.

Mas a pessoa mais conhecida que ali passou foi o escritor Teixeira de Pascoaes, a principal figura do movimento cultural Renascença Portuguesa e, em particular, do saudosismo, teoria literária e doutrinária de regeneração patriótica que tem como base a saudade, descrito pelo mesmo autor como o grande traço espiritual definidor da alma portuguesa. Teixeira de Pascoaes, nascido em 1877 em Amarante, era um cliente assíduo. De tal forma que os empregados já sabiam quando deviam ou não dirigir-lhe a palavra: “O café-bar era ponto de paragem frequente do poeta, já que este era o seu local de eleição para a escrita. Quando ele entrava no café com a boina na cabeça, os empregados já sabiam que vinha maldisposto e não queria que falassem com ele”, conta o atual gerente do espaço.

Mesmo depois da sua morte, em 1952, o café ficou sempre ligado à figura de Teixeira de Pascoaes. “Temos no nosso espaço uma estátua de Teixeira de Pascoaes. É o elemento de destaque do café- -bar. A quantidade de pessoas, portuguesas e estrangeiras, que se interessam pela vida e pela obra do poeta amarantino da Renascença Portuguesa fez com que, de facto, o café ganhasse uma nova vida”, afirma Rodrigo Silva.

O café que também é emissora O Café Bar São Gonçalo está também intimamente ligado às campanhas políticas da cidade: este espaço acolhe uma rádio local que, na altura das eleições, entrevista todos os políticos que concorrem.

Para além disso, é um ponto de referência para todas as comitivas que passam pela cidade de Amarante, sem excluir qualquer partido. “Não temos qualquer ligação partidária, estamos abertos a todos. Qualquer partido que contacte o café-bar no sentido de organizar um evento, uma apresentação, uma tertúlia, um debate, é bem recebido”, conta o gerente ao i.

O Café Bar São Gonçalo assume-se assim como um dos cafés históricos do país, um local por onde passaram escritores, pintores, políticos. Um café que enaltece os milagres de São Gonçalo e lembra as palavras de Teixeira de Pascoaes.

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