29/7/21
 
 
José António Moreira 04/05/2016
José António Moreira

opiniao@newsplex.pt

Iliteracia financeira ou algo mais?

1.    O título sobressaíano alinhamento do jornal Público: “25 portugueses mais ricos reúnem 8,5% da riqueza nacional”. Em idênticos termos, a RTP1 e a Agência Lusa, entre muitos outros, também pegaram na peça.

“Parte significativa da riqueza nacional é controlada pelos 25 mais ricos de Portugal. Mais uma vez, o estudo levado a cabo pela revista Exame conclui que o total combinado das 25 maiores fortunas voltou a aumentar este ano.A riqueza deste grupo ascende a 14,7 mil milhões de euros (14,3 mil milhões em 2014), o que equivale a 8,5% do Produto Interno Bruto português de 2014.”

2.    Do ponto de vista pedagógico, a notícia é um bom caso de estudo para ser ministrado a alunos de uma qualquer unidade curricular introdutória de Contabilidade ou de Economia, destinado a discutir a diferença entre uma variável “stock” (a riqueza) e uma variável “fluxo” (o PIB). 

A primeira, tem subjacente a ideia de acumulação. A riqueza dos ditos cidadãos é uma medida do que eles acumularam ao longo das suas vidas, até ao momento. A segunda, está ligada à mensuração do que ocorreu num determinado período de tempo. 

Tome-se como exemplo a albufeira de uma barragem. A água que nela está contida num determinado momento é uma variável “stock”, é o volume que existe acumulado por via de todasas entradas e saídas de água do reservatório. Partilha as caraterísticas da variável riqueza acima referida. 

A água que nela é despejada por um rio durante um determinado período, por exemplo, um ano, é uma variável fluxo, tem subjacente a ideia do movimento ocorrido desde que se inicia a contagem do período. Equivale, no caso referido, à variável PIB, que é o valor dos bens e serviços produzidos durante um ano pela economia nacional. 

A variação do “stock” de água na albufeira num determinado ano corresponderá ao fluxo de entrada (a água que chega) deduzido do fluxo de saída (a água que é libertada para seguir rio abaixo).De idêntico modo, no caso da riqueza nacional a variação corresponde, aproximadamente, ao efeito do PIB gerado num dado período (o efeito positivo), deduzido do consumo agregado efetuado nesse mesmo período (o efeito negativo). Ou seja, em termos aproximados, a riqueza nacional varia em cada ano pelo valor da poupança agregada. O mesmo acontece no caso da riqueza dos referidos cidadãos. 

3.    Do ponto de vista informativo, esta breve explicação dos conceitos permite perceber o que de errado existe na notícia acima.Relaciona, sem cuidado, uma variável “stock” com uma variável “fluxo”, produzindo um resultado sem sentido. A pretender-se relativizar a riqueza desses cidadãos, deveria ter-se comparadoo respetivo montante com o “stock” de riqueza do país (o valor acumulado). Alternativamente, por dificuldade em calcular tal “stock”, poderia comparar-se a variação da riqueza dos cidadãos no ano em causa (400 milhões) com a do país, tomada esta, grosso modo, como sendo a poupança bruta agregada (9,8 mil milhões,em 2013, Pordata).

O título da notícia reflete ainda em maior grau a iliteracia contabilístico-financeira de quem a produziu, e de quem a reproduziu acriticamente. É assumido, implicitamente, que o PIB é uma medida da riqueza do país. Não é. É apenas, como se referiu, a vertente positiva da respetiva variação num dado período, sendo necessário retirar a vertente negativa, relativa ao consumo.  

4.    Reli o texto. Será que me está a passar algo ao lado? Tratar-se-á de iliteracia financeira, ou poderão tais erros concetuais ser deliberados?

 


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×