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Aníbal Fernandes. O tradutor como perfumista

Aníbal Fernandes. O tradutor como perfumista

Diogo Vaz Pinto 04/05/2016 16:27

A tradução de "As Lojas de Canela", de Bruno Schulz, é um dos mais expressivos exemplos da relevância de um dos ofícios artísticos mais negligenciados no campo da literatura. À margem do mercado editorial, que dita a redução apressada dos textos para outras línguas na tentativa de apanhar a boleia dos fenómenos de massas, há ainda alguns que se ocupam da tradução como um desses ofícios sem preço e hoje ameaçados, mas que garantem a alma do ócio.

É difícil dizer se sonhámos ou se existiu mesmo uma época em que os livros – chegados de outras línguas, vertidos num lento e apaixonado, incansável labor, o de um tradutor que deitasse as vértebras como carris para fazer o transporte de uma carga preciosa, numa intimidade que se funda com a obra de outro, atenta ao uso ideal das palavras, à respiração entre elas que ganha um fulgor quase místico – se equivaliam a verdadeiros oráculos, colocando ao alcance da imaginação distâncias que ali cresciam mais do que deixadas só à realidade. 

Aníbal Fernandes é um desses tradutores que tantas vezes esforçam mais uma língua, para lá da vénia ou do arrasto, mais do que tantos romancistas, poetas a jogar em casa. AF impôs-se discreta mas incontornavelmente entre os que mais lutaram para fazer revivescer aqueles minérios verbais caídos em desuso e que se tornam parte do legado oculto da nossa língua. Não se contentando com parciais reflexos, inventa as mesmas formas debaixo de outra luz. É na verdade um perfumista transpondo visões para um mundo diverso. Como se a distância entre duas línguas fosse a mesma que vai entre dois sentidos. Obrigando assim a um passe de mágica. A meta é que nada se perca, se desencontre da sedução original.

Na considerável biblioteca que nos vem chegando do tão generoso quanto ingrato talento exercido por AF, elegeríamos “As Lojas de Canela” (Ed. Sistema Solar). O livro de Bruno Schulz comprova inteiramente esse domínio que parece renovar-nos a língua, alargar-lhe maravilhosamente os horizontes expressivos. A certa altura comparado a Kafka, na excelente apresentação que sempre assina nos livros que traduz, AF esclarece que os dois estão separados por quanto “ao ascetismo de Kafka opunha-se a sensualidade de Schulz; à secura estilística de Kafka a exuberância verbal de Schulz, o delírio de um amante das palavras que a todo o momento travavam batalha dura para as dominar”.

Os que não lemos Schulz no original (no polaco), os que chegamos a ele nesta tradução a partir dos textos em francês e inglês somos levados pela sensação de estarmos perante um dos melhores livros alguma vez escritos em português. O convulsivo êxtase de uma narrativa que tem nas suas descrições o prato principal, o suficiente para que um cego que guardasse alguma memória da luz julgasse, ao ser-lhe lida esta litania ligando sons, aromas, formas, que lhe fora devolvida a visão.

É a diferença de uma escrita em que se investe como num antídoto para dias destes, no seu curso dedicado à depressão. Numa das suas cartas, Schulz falou da miséria da vida a que se via obrigado, separado dos outros pelo seu desejo de se desamarrar: “Gostaria de flanar, não fazer nada, vadiar, extrair um pouco de alegria à paisagem, extraí-la do firmamento que se abre entre as nuvens da tarde. Talvez a melodia me voltasse, a onda de prosa me submergisse.”

 


Ilustração: Bruno Schulz

Páginas: 160

Preço: 14€

 

Três excertos:

"Depois de arrumar a casa, Adélia puxava os estores de linho e mergulhava tudo na penumbra. Nessa altura as cores baixavam uma oitava, os quartos enchiam-se de escuro como se fossem mergulhados de repente numa luz de profundidades marinhas que se reflectia nos espelhos verdes da água [...]"

"O cãozinho era de veludo e morno, todo ele vibrante com as pulsações do seu pequeno e apressado coração. Em vez de orelhas tinha duas pétalas, tinha olhos azulados e turvos, uma boca cor-de-rosa onde podíamos, sem perigo, enfiar um dedo, delicadas e inocentes patas com uma almofada por baixo que era rosada e nos enternecia."

"A casa abandonada não o reconhecia como dono, os móveis e as paredes espreitavam-no com uma desaprovação emudecida. [...] E depois de andar de um armário para outro, quando acabava por encontrar toda a roupa necessária e se vestia entre móveis que o suportavam em silêncio e com ar ausente, ao ficar finalmente pronto e em condições de sair, com o chapéu na mão, sentia-se no derradeiro instante incomodado por não encontrar a palavra capaz de quebrar aquele mutismo hostil [...]"

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