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Beyoncé. Não se metam com ela

Beyoncé. Não se metam com ela

DR Raquel Carrilho 26/04/2016 22:04

Sem aviso prévio, a cantora lançou o seu sexto álbum, mais uma vez acompanhado por um vídeo. “Lemonade” é uma crua viagem pela dor de uma mulher que foi traída pelo marido. Beyoncé não deixou nada por dizer a Jay Z

Se a vida te dá limões, faz limonada. Se a vida te dá dor, escreve sobre isso. E canta. Parece ter sido este o lema de Beyoncé para criar o seu mais recente álbum, “Lemonade”, um projeto duplo em que as 12 canções são acompanhadas por um vídeo de cerca de uma hora. Um autêntico murro no estômago para uma mulher que aqui se apresenta totalmente despida, confessando ao mundo as suas dores e as suas angústias, sobretudo no que diz respeito à traição do marido, o rapper Jay Z. As suspeitas eram antigas, sublimadas no famoso episódio do elevador em que a irmã de Beyoncé, Solange, agrediu o rapper, mas nunca tinham sido confirmadas. Agora, Beyoncé resolveu falar sobre tudo o que se passou. Aliás, cantar. E dificilmente se poderá ficar indiferente a este que é o sexto álbum de estúdio da multipremiada cantora.

Não é a primeira vez que Beyoncé canta sobre temas como o amor, a inveja e a traição, mas nunca com esta crueza e maturidade. E seguramente nunca com esta verdade. Ao revelar a sua raiva por ter sido traída pelo homem que ama, Beyoncé parece falar por todas as mulheres que já se viram nesta situação, mas ao mesmo tempo aborda questões históricas da posição das mulheres, durante anos educadas para aceitarem as traições dos maridos e para resistirem em relações desequilibradas, agressivas e que não as preenchem.

Com “Lemonade”, Beyoncé veio mostrar que a pop pode ter conteúdos de afirmação política e racial, desabafos viscerais sobre a vida, o amor, a traição, sobre o que é ser mulher e o que é ser uma mulher negra na América. Numa viagem pela dor, tristeza, raiva, alegria, perdão, Beyoncé é cada vez mais uma artista com algo a dizer. E que não se quer privar de o fazer. Sejam as suas visões políticas, como a luta em defesa dos negros - algo que se tinha visto no vídeo do single já apresentado “Formation”, onde presta tributo aos Black Panthers, ou agora em “Forward”, onde as mães de Michael Brown e Trayvon Martin aparecem a segurar as fotos dos seus filhos, negros, assassinados respetivamente por um polícia e por um segurança. Ou o seu profundo espírito feminista, bem resumido no verso “I’m gonna keep running cause women don’t quit on themselves”.

Mas apesar de abordar todas estas temáticas fraturantes, “Lemonade” é sobretudo um álbum pessoal, sobre o percurso na dor de uma mulher traída. Logo no primeiro verso do primeiro tema do álbum “Pray you catch me” ouve-se “You can taste the desonesty, it’s all over your breath”. E fica assim definido o tom, com a agressividade a marcar a primeira parte do trabalho, seja em termos das letras, por vezes com versos muitíssimo diretos, como: “This is your final warning, if you try to do it again, you’ll lose your wife”, ou até em termos dos próprios vídeos, sendo que Beyoncé aparece mesmo, no tema “Hold Up”, com um bastão de basebol a partir carros no meio da rua.

As Avós é que sabem Já se suspeitava que Beyoncé se estaria a preparar para lançar um novo projeto. Primeiro foi a apresentação do single “Formation”, em fevereiro, depois o espetáculo no intervalo da Super Bowl e o anúncio de uma tournée, e na semana passada foi lançado um trailer de um especial com a cantora, a ser emitido na HBO, este sábado. O especial era, afinal, o lançamento do novo álbum de Beyoncé.

“Lemonade” conta com uma vasta lista de colaborações, algumas bem inusitadas. Jack White, James Blake, The Weekend e Kendrick Lamar juntam-se a Beyoncé para cantar quatro temas. Mas além destes, nos créditos autorais constam ainda Ezra Koenig dos Vampire Weekend, Diplo, Father John Misty, The-Dream, Jon Brion, e são utilizados samples de bandas como os Animal Collective, os Yeah Yeah Yeahs, Led Zeppelin, OutKast ou Isaac Hayes, revelando uma Beyoncé musicalmente mais completa que nunca, viajando por ritmos como o rock, o country, o jazz, o R&B e o hip-hop.

Disponível para streaming no Tidal, serviço online a que o próprio marido está ligado, “Lemonade” é, tal como o anterior trabalho da cantora, “Beyoncé”, lançado em 2013, um álbum visual. Dividido em capítulos, assim que foi conhecido, o vídeo foi automaticamente comparado a “Vivre Sa Vie” (1962), de Godard, que além de ser dividido em capítulos, retrata uma mulher decidida a viver a vida segundo as suas regras.

Com várias participações, entre as quais Serena Williams, Quvenzhané Wallis, Amandla Stenberg, Zendaya, Winnie Harlow, além do marido Jay Z e a filha Blue Ivy, a cada capítulo foi atribuído um sentimento - Intuition, Denial, Anger, Apathy, Emptiness, Accountability, Reformation, Resurrection, Hope e Redemption - como se dos vários passos da dor se tratasse. Nos interlúdios a cantora declama passagens do poema “Women Who Are Difficult to Love”, da britânica com raízes na Somália, Warsan Shire, e outros escritos pela própria Beyoncé.

Com um tom - e uma imagética - que viaja da escuridão para a luz, da dor para a felicidade, da revolta para a paz, ao chegar-se ao último capítulo, o da redenção, pode ver-se um pequeno vídeo caseiro com a avó de Beyoncé, no seu 90º aniversário, em que esta diz que sempre tentou aceitar o que a vida lhe deu e quando a vida lhe deu limões, aprendeu a fazer limonadas. É também desta avó que chega o conselho que fecha esta viagem de Beyoncé. Numa voz já claramente mais serenada, a cantora diz: “My grandma said ‘nothing real can be threatened’. True love brought salvation back into me. With every tear came redemption and my torturer became my remedy. So we are gonna heal, we are going to start again, you brought the orchestra, synchronized singers, you’re the magician. Pull me back together again, the way you cutted me in half. Make the woman in doubt disappear.”

No final, fica a ideia de absolvição, de que Beyoncé fez uma escolha, perdoar o marido e continuar casada. Mas foi a sua escolha, a escolha desta mulher que “Lemonade” retrata: segura, independente, bem sucedida, uma feminista assumida que não se vai calar. E Jay Z pode bem ter passado a ser o homem mais odiado do mundo.

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