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Eugénio de Andrade e o olhar que comanda todos os sentidos

Eugénio de Andrade e o olhar que comanda todos os sentidos

Diogo Vaz Pinto 21/04/2016 19:04

Da grandeza cheia de dignidade da poesia de Eugénio disse Herberto Helder que era esta a que, entre as poéticas que marcaram o século XX, melhor expressa uma "nobílissima visão" do mundo

Há um dom inequívoco na forma como Eugénio de Andrade compunha, respeitando essa grande música límpida que Herberto reconhece na entonação que as suas palavras alcançam. Isto era conseguido através de um tão exigente quanto apurado trabalho, em que cada frase pinta, dá a ver, pinga de muito alto e soa, se abre nos 360 graus, irradiando, sugerindo pontos focais que invocam a memória de todos os sentidos. Esta qualidade é bastante notória nos poemas em prosa e momentos narrativos reunidos neste “Vertentes do Olhar”. O que faz da sua uma arte modelar é um exercício que sublima sem tornar virtual, sem se desviar de uma naturalidade nas suas representações. “...os seus olhos eram diferentes, eram os olhos da própria solidão”; “os olhos, instrumentos felizes da realidade mais real”.

Na carta que lhe escreveu depois de ler a sua poesia reunida, Herberto reparou como a tal música que se lhe metia nas palavras, se aparentemente fácil e captável, lida minuciosamente, se revelava afinal sinuosa, complexa e, de quando em quando, deliciosamente difícil. O elogio do poeta tantas vezes referido como mestre de um fragoroso canto cheio de lugares ermos, abismos e emboscadas, tido mesmo como um autor hermético, o elogio de Herberto a Eugénio, que, por sua vez, representava uma poesia do lado de um obstinado rigor, grande artesão da matéria solar, este é um elogio que deixa claro como a poesia não está do lado das ideias, mas inteiramente da sua expressão, e como o verso ou a frase poética busca afinal uma inversão da percepção geral, o inusitado que pode causar a sensação de um estremeção, uma poesia que causa tumulto na própria realidade, no caso de Herberto, ou, no caso de Eugénio, uma arte poética em que o “apelo da luz é o mesmo, como se dela tivesse nascido e só a ela não pudesse deixar de regressar”. Gémea da sua poesia, a prosa de Eugénio é um tratado sobre como a beleza se alcança no ponto em que o olhar não se distingue dos demais sentidos, e o real esplende como se ferido pela interioridade que o encara.

 

Ano de edição ou reimpressão: 2016

Editor: Assírio & Alvim

Páginas: 88

Preço: 11€

Nota do autor: Entre o mais antigo poema deste livro ("Fábula", 1946) e o mais recente ("A Sereia do Báltico", 1988) passaram mais de quarenta anos. É uma vida à procura de uma voz. A melodia do homem nasce dessa busca incessante: descobre-se quando nos descobrimos. Não foi fácil: desaprender custa mais do que apren- der. Estarei agora, ao menos, mais perto desse dizer que ajude outros a falar?

 

Soberania

Voltar, recomeçar – com que palavras? Um bando de ganapos ri, canta na esquina da rua. Gostaria de pensar que eu e essas vozes que chafurdam na noite se ignoram até ao osso. Mas não é assim: a vulgaridade desses sons atravessa as paredes; são, apesar dela, uma companhia. Habito um país sem memória – alguém sabe de lugar mais triste? É o tempo do tordo branco emigrar. Voltemos pois ao princípio. E o princípio são meia dúzia de palavras e uma paixão pelas coisas limpas da terra, inexoravelmente soberanas. Essas, onde a luz se refugia, melindrosa. Só elas abrem as portas aos sortilégios, e os sortilégios são diurnos, mesmo quando invocam a noite, e as águas do silêncio, e o indelével tempo sem tempo.

3.2.56

 

Com os Olhos

Talvez um dia. Talvez um dia alcancemos essa voz, já sem o peso da luz sobre os ombros. Os olhos chegarão então ao fim da sua tarefa; os olhos, instrumentos felizes da realidade mais real. Porque ver sempre foi tocar. Tocar uma a uma cada coisa com os olhos, antes da mão se aproximar para recolher os últimos brilhos de setembro. Vede como se afasta com fulva lentidão de tigre.

4.12.85

 

Outro exemplo: Visconti

Trabalhava como um doido, ocultando o seu sofrimento. A doença humilha, agora era de uma cadeira de rodas que dirigia os actores, alterava a decoração, discutia as luzes. Trabalha para não morrer, dizem os amigos. Horas e horas para escolher o tom de um cortinado, a maneira de erguer um véu à altura da boca, a cor das maçãs no linho baço da toalha, com esse amor à realidade que só conhece quem a sabe tão fugidia. Abandonada a câmara, era ainda no trabalho que pensava em ler duas ou três páginas de Proust, de Stendhal. Apagara a luz, depois de ter ordenado que retirassem as flores do quarto, o aroma das gardénias começava a enjoá-lo. Mas o sono demorava. Tinha a cabeça cheia de imagens, sobretudo de sua mãe, surgindo no meio de uns versos de Auden, que fizera seus nos últimos tempos: When you see a fair form chase it / And if possible embrace it / Be it a girl or a boy… Adormecia tarde e era o primeiro a despertar. Chamou para que o lavassem, o vestissem. Recomeçaria uma vez mais a cena, com nova iluminação. O rosto de Tullio Hermil deveria estar na penumbra, só as mãos francamente iluminadas. Porque é nas mãos… Não, não, as mãos são inocentes. É no espírito que tudo tem origem; mesmo o amor; mesmo o crime. Excepto a morte. A morte era bem no seu corpo que principiava. Ali estava ela, tomando conta de si. Via-a crescer a cada instante, essa cadela. De súbito, tornara-se real, os dentes afiados, a baba escorrendo, o salto iminente. Em grande plano.

6.5.85

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