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Jaime Rocha de volta à prosa e à paisagem da sua infância com "Escola de Náufragos"

Jaime Rocha de volta à prosa e à paisagem da sua infância com "Escola de Náufragos"

Diogo Vaz Pinto 14/04/2016 16:56

O novo livro de Jaime Rocha volta a ter como cenário a Nazaré onde o mar dita o ritmo da vida

Poeta e autor de textos dramáticos, Jaime Rocha (pseudónimo de Rui Ferreira de Sousa) tem toda a sua obra ameaçada por um mesmo desequilíbrio, em que contenção e o fulgor das imagens são aspectos centrais, propagando e sendo modulados nos diferentes géneros que delimitam um estilo dos mais característicos entre os autores portugueses contemporâneos. É talvez um exagero chamar às suas novelas/romances obras de ficção, dado que a prosa do autor conflui com os ambientes que elabora a sua poesia, uma dinâmica sempre fragmentária, episódica, própria de um autor interessado em criar ‘cenas’ – como um encenador que apenas escrevesse. Esta é uma obra recortada a golpes, impregnada de inquietação, uma obra que funciona como uma alegoria imarcescível e em tons de susto, que se serve de intensos contrastes numa visão que sublinha o realismo até um ponto em que se torna doloroso, violento, atravessado de uma névoa onírica.

“Escola de Náufragos” puxa as suas redes a partir da memória, arranca vivências impressivas de um país que é o retrato de uma das mais veementes noções que temos de Portugal, aquele da austera e firme têmpera que de diferentes modos foi glosada pelos grandes cronistas portugueses (Raul Brandão e o seu “Os Pescadores” é só o mais óbvio dos exemplos), uma terra encostada à margem litoral, dependente do mar, acossada por ele, à sua mercê. São os desastres de vidas no osso, lapidadas em pormenores grotescos, essa é a única trama: um ambiente de sufoco, até na beleza, uma sensação de trauma, de intimidade magoada, como se se tratasse de uma história de embalar em que o narrador se encantou pelos detalhes, se excedeu nas descrições. Quem quer que estivesse sob os lençóis, prestes a adormecer, acabou por amarfanhá-los e passar a noite em claro.

 

Editor / Relógio D'Água

Nº de págs. 96 / 12€

 

«Estavas ali sentado ao meu lado e eu a dizer-te como se saía da infância para a vida do mar. Ali, à minha frente, à escuta, e eu a ver-te crescer, a encheres o peito de ar e os olhos a dilatarem-se, a quereres ser homem de repente. E então, eu olhei, eu vi para dentro de ti, o que estava lá dentro, uma mancha negra por detrás da pele da tua testa que alastrava para os lados, a toda à volta da cabeça, como uma cinta preta que se cosia na nuca, uma costura que podia rebentar a cada momento, mas que sabia que estava à espera do momento certo para se partir, o momento em que perderias o medo e toda a gente te respeitaria pelo que irias ser, um homem marcado pelo destino, um homem arraçado. Eu vi que tu estás feito para uma morte diferente da dos outros, que não irás nunca para o Bacalhau, nem uma vez que seja entrarás no mar como pescador. Tu és feito de uma outra coisa, os teus ossos e a tua carne foram cruzados por vários sangues. E eu apenas estava ali, ao pé de ti, a passar-te um testemunho antes de morrer.»

 

Jaime Rocha nasceu em 1949. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu em França nos últimos anos da ditadura. Publicou o seu primeiro livro, «Melânquico» (poesia) em 1970. Tem editadas várias obras no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Recebeu este ano o Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos com a peça «Seis Mulheres Sob Escuta» e o prémio APE de Teatro referente a 1998, com «O Terceiro Andar».

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