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Versailles. O palácio dos bolos (e croquetes) da Avenida da República

Versailles. O palácio dos bolos (e croquetes) da Avenida da República

João Porfírio Joana Marques Alves 09/04/2016 17:56

Tem nome de palácio real, mas localiza-se numa avenida que enaltece o regime político em vigor. Quem passa pela Avenida da República é “obrigado” a entrar na Versailles

Estamos no ano de 1922, em plena Avenida da República. Lisboa tenta recuperar da depressão pós-guerra e reafirmar--se no plano europeu. Começam a surgir (já com algum atraso) vários edifícios inspirados no estilo Arte Nova, construções que pretendem dar alguma magnificência à capital portuguesa. Num deles é inaugurada a Versailles.

Fundada a 25 de novembro por Salvador José Antunes, a nova pastelaria da avenida que homenageia o regime político em vigor enaltece um dos maiores símbolos da monarquia francesa – construído três séculos antes por vontade de Luís xiv, o Palácio de Versalhes foi encarado por muitos como o modelo de residência real. A abertura realiza-se com pompa e circunstância, como se de um acontecimento real se tratasse… 12 anos após a implantação da República.

No dia seguinte à inauguração, o extinto “Diário de Lisboa” escrevia o seguinte: “É verdadeiramente notável a nova casa de chá. Desde os lindos quadros do pintor Bemvindo Ceia, evocando os lagos maravilhosos de Versailles, até aos belos trabalhos de talha do construtor Fausto Fernandes, toda ela está rigorosamente no estilo de Luís xiv. A Pâtisserie Versailles, além de pastelaria, a cargo do conhecido pasteleiro madrileno Mariano Rey, e do serviço de chá e de charcuterie, está plenamente habilitada ao fornecimento de qualquer serviço para fora, para soirées, casamentos, etc. Assim, qualquer pessoa que queira dar uma festa em sua casa será prontamente servida, sem as demoras que teria não existindo no bairro tal estabelecimento (…) A Pâtisserie Versailles ficou sendo, de todos os estabelecimentos do género, o melhor da capital e dos melhores da península.”

E tudo o tempo levou Este artigo do “Diário de Lisboa” encontra-se disponível na internet, permitindo aos mais curiosos saber como era esta pastelaria nos primeiros tempos. No entanto, para infelicidade de muitos, a maioria dos documentos relacionados com a Versailles e a sua história foram-se perdendo ao longo do tempo. Ainda tentamos insistir um pouco com Paulo Gonçalves, um dos nove sócios do estabelecimento, mas ele volta a dar-nos a resposta que não queremos ouvir: “Muita coisa se foi perdendo, não consigo dar-lhe informações sobre o que aconteceu antes de aqui chegarmos [em 1985]”.

Mas as poucas fotografias ainda existentes ajudam-nos a ter uma pequena ideia do que terá sido esta pastelaria nos anos 30. “Faziam-se aqui vários almoços com pessoas ligadas ao Estado Novo. Algumas das poucas fotos que temos mostram encontros de membros da Mocidade Portuguesa [organização juvenil do regime]”, conta ao i Paulo Gonçalves.

Depois disso, pouca informação existe. Os registos e as memórias acabaram por desaparecer, ficando apenas a fachada e o interior de outros tempos.

A pastelaria dos Ministérios Hoje em dia, a Versailles é frequentada por milhares de pessoas dos mais diferentes meios. “Recebemos vários ministros, deputados e primeiros-ministros, mas quem passa aqui com frequência são os funcionários dos ministérios existentes na zona”, diz ao i o sócio da pastelaria.

Situada numa das artérias de Lisboa, a Versailles encontra-se no meio de muitas empresas, institutos e organismos. Grande parte da clientela deste espaço durante a semana vem destes escritórios. “Recebemos pessoas do setor financeiro, advogados, pessoas de várias áreas. Ao fim de semana, os clientes são completamente diferentes – famílias inteiras vêm de mais longe até ao nosso espaço. Temos recebido também mais turistas do que nos últimos anos”, afirma o responsável.

O espaço é também frequentado por vários atores, “mas nunca foram organizadas aqui tertúlias. Não existia esse hábito”, explica Paulo Gonçalves. “Aqui realizavam-se reuniões espontâneas entre pessoas ligadas ao Sporting (…), mas este nunca foi um café sportinguista – somos nove sócios e todos benfiquistas. Um deles – José Gaspar Ramos – até foi dirigente do Benfica”, afirma.

O famoso croquete Todas estas pessoas escolheram a Versailles como o local onde fazem uma pausa da correria do dia-a-dia ou onde relaxam durante as folgas – muito por causa do espaço, da localização, do ambiente e do profissionalismo, mas também pelo que é oferecido.

“Um dos nossos produtos que mais se destacam é o croquete de vitela, é um dos preferidos de muitos dos nossos clientes”, diz o sócio-gerente. “Os nossos duchesses têm muita saída e o bolo de chocolate da Versailles também”, acrescenta.

O tempo pode ter levado muita da história da Versailles, mas basta entrar no “palácio real” da Avenida da República para perceber que muito se terá passado entre aquelas quatro paredes. Nem que seja pelo facto de estar quase a completar o 100.o aniversário, ter nascido nos tempos do pós-guerra e convivido com um regime autoritário, passando pelo rebuliço do 25 de abril e pela crise financeira do século xxi. Esta última obrigou a pastelaria a passar por “tempos negros”, com os sócios a terem dificuldades em pagar aos seus mais de 100 funcionários. Mas os tempos estão a mudar e a gerência de tudo faz para manter as portas deste café histórico de Lisboa. “Estamos a sentir algumas melhorias”, afirma Paulo Gonçalves.

Aos cliente, aos donos, aos funcionários e aos que prezam a história da cidade em geral resta apenas fazer frente aos tempos mais difíceis, ao esquecimento, e preservar o que existe para as gerações de lisboetas que aí vêm – aquelas que vão parar no tempo cada vez que entrarem na Versailles e tentarão fazer com que este nunca mais roube nada.

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