2/3/21
 
 
Gered Mankowitz. “Os Stones sempre quiseram ser temperamentais, quase conflituosos”
Repare-se na multidão que se encontra de lado no palco: apostamos que a maioria eram jornalistas

Gered Mankowitz. “Os Stones sempre quiseram ser temperamentais, quase conflituosos”

Melhor que o fotógrafo que percorreu vales e montes à boleia dos Rolling Stones para nos contar as epopeias de uma das maiores bandas de sempre é impossível. “Off The Hook” é inaugurada hoje na Snap Galleries, em Londres, com uma série de imagens inéditas e escalas nunca antes atingidas. Tanto que até vão originar um livro: “Backstage” 

A inveja é tramada. Se o é, tratemos de a assumir, até porque pode bem ser daqueles sentimentos que, quando assumidos se tornam mais levianos, mais facilmente aprováveis por outrem. E como invejamos Gered Mankowitz, o homem, à época miúdo, que com 18 anos teve a felicidade – depois de lidas as suas palavras, o melhor será dizer mérito – de se cruzar com os Rolling Stones e de se tornar seu fotógrafo oficial durante anos a fio.

“Off The Hook: The Rolling Stones by Gered Mankowitz”, que hoje é inaugurada na Snap Galleries, em Londres, foca-se sobretudo na relação do inglês com a banda durante o período 1965-67, altura em que esteve nove semanas em digressão pelos EUA com Mick Jagger e companhia. Tempos loucos que serviram de lição de vida. Não fosse ter conhecido Marianne Faithfull e Andrew Loog Oldham – produtor e manager da banda – e não seria hoje conhecido pelas suas dezenas de livros sobre os Rolling Stones. As próximas linhas são mais uma prova de que, como estes senhores, não há quem. 

Digamos que a sua vida teria sido totalmente diferente se não tivesse conhecido o Andrew Loog Oldham, certo?
Absolutamente. Ele mudou-me a vida por completo, e até diria mais, a realidade é que a minha vida não seria a mesma se não tivesse conhecido a Marianne Faithfull. Foi precisamente o facto de me ter cruzado com ela e de a ter fotografado que fez com que o meu trabalhado chamasse a atenção do Andrew e, por consequência, ele perguntou-me se queria fotografar os Stones. No fundo, foi uma combinação extraordinária de pequenos acidentes. 
Tinha apenas 18 anos quando fotografou os Rolling Stones pela primeira vez. Como se lida com algo desta dimensão? Era apenas um miúdo...
Bem, comecei a trabalhar aos 15 anos, assim que consegui desistir da escola, e em 1963 já tinha o meu estúdio. Ou seja, já tinha bastante experiência, apesar de ter apenas 18 anos. 
E em termos de emoção? 
Tenho de dizer que os Stones foram fantásticos para mim, foram generosos, não eram de todo intimidantes. Sentíamo-nos profundamente tranquilos, sobretudo porque naqueles dias não havia seguranças, não havia uma equipa à nossa volta, era apenas a banda e eu, quase como um gangue de jovens a divertir-se. E o melhor é que me permitiram retratá-los à minha maneira. 
Recorda-se do momento em que se conheceram? 
Perfeitamente. A sessão decorreu no meu estúdio, mas antes disso já os havia conhecido no escritório do Andrew. Saímos juntos e tudo, penso que para eles conseguirem ver-me e conhecer-me. Para depois o Andrew dizer o que toda a gente tinha na cabeça, e todos pareciam felizes com isso. Quando eles se deslocaram ao meu estúdio, encarei o trabalho como sendo mais um, pelo menos foi o que lhes disse. Fiz tudo o que pude para garantir que tinha uma sessão completa. Sabia que, se lhes demonstrasse que era um fotógrafo compreensivo e atento, eles ficavam com bastante material e chamar-me-iam de novo. 
Bem jogado. Pouco depois acompanhou-os numa digressão de nove semanas pelos EUA. Presumo que tenha sido uma loucura.
Sem dúvida, foi de loucos, foi uma experiência bastante selvagem (risos). Teve os seus momentos mais inusitados, sabes, um bocado de sex, drugs and rock’n’roll, mas foi sobretudo uma experiência sobre a música, tal como sobre o aborrecimento que é estar em digressão. Não há nada de glamoroso em andar na estrada. Pode ser hoje em dia, se viajares em primeira classe e afins, mas na altura era um tempo de muito trabalho. Depressa me apercebi que tinha de seguir o ritmo deles, dar importância à música. Estar em palco todas as noites com aquelas pessoas foi o melhor que me aconteceu na vida. Para alguém com 19 anos, foi uma experiência incrível. 
Eram demasiado exigentes consigo?
Eles não eram exigentes. Oque ficou claro para mim, logo à partida, é que existiam momentos privados. 
Foi uma perceção que atingiu por si?
Sim, não foi preciso ninguém dizer-me. Não ia fotografá-los a divertirem-se na praia, isso não representaria os Rolling Stones enquanto banda, não era o que eles faziam, era o que as pessoas neles faziam. E isso foi algo que percebi instintivamente e talvez tenha sido uma das razões para nos darmos tão bem. 
A pergunta pode parecer parva, mas tenho de a fazer: o que têm os Stones para serem bons de fotografar?
Em primeiro lugar, a sua aparência. São fantásticos, ainda hoje. Eram cinco personagens distintas, cada um com os seus detalhes próprios. Testemunhei a sua mudança durante aquele incrível ano de 1965. No início do ano, o Mick e o Keith ainda pareciam algo estudantis, pareciam estudantes de arte. O Brian, por exemplo, era mais popstar. No final de 65, isso mudou, o Mick e o Keith tornaram-se rockstars, em nove meses de palco deu-se esta alteração. 
O Gered considera-se um privilegiado, portanto. 
Sem dúvida. Era emocionante trabalhar com eles porque desafiavam a ordem estabelecida, não pretendiam ser uma “smiling show business band” [uma banda que sorri perante tudo o que o mercado lhe quer impor], eles sempre quiseram ser temperamentais, sexy, quase conflituosos. 
Se tivesse de escolher um para fotografar, qual escolheria? 
Agora ou na altura? 
Em 1965. 
Agora tramaste-me, é uma pergunta muito difícil. Mas, provavelmente, diria o Keith. Senti-me mais confortável com o Keith e com oCharlie. O Keith era um bom amigo e o Charlie era como um irmão mais velho. Nesse sentido escolheria o Keith, se tivesse de escolher... porque na verdade preferia não ter de o fazer (risos). 
“Off The Hook” centra-se sobretudo na sua relação com os Stones entre 1965 e 67. Que material podemos encontrar?
Há uma série coisas. Duas ou três fotografias que nunca mostrei, mas é sobretudo a escala da exposição que marca a diferença. Tentei imprimir tudo num formato bem maior do que já fiz até aqui e o impacto é notável. Fiz ainda algumas peças propositadamente para a exposição, interpretações únicas do que já havia feito. 
A peça das fotografias de passaporte é o caso mais evidente disso. 
Sem dúvida, apercebi-me quando a terminei que era a peça central da exposição. No final da minha primeira sessão com os Stones, o Andrew disse-me que eles precisavam de fotografias para os passaportes, eu entrei em pânico, era algo que nunca tinha feito e cujo resultado final sempre me embaraçou. Recentemente voltei a olhar para as mesmas, reparei na sua inocência, algo especial e único que emanavam. Então decidi reinterpretá-las, 50 anos depois. Dei-lhes cor e a própria impressão foi feita com um processo particular que acentua as cores e lhes confere uma vivacidade bastante própria. A par disto decidi ainda apresentá-las em forma de cruz, parece-me poderoso. 
E em relação ao livro a que esta exposição está ligado, “Backstage”?
O tamanho do livro e das fotografias dentro dele dão-nos um sentimento de intimidade, uma proximidade com a banda nunca atingida até aqui. Além disso, penso que 70% das fotografias que constam no livro nunca foram vistas. 
Diria então que, no conjunto, esta exposição e este livro são obrigatórios para os fanáticos e colecionadores de Rolling Stones?
Penso que os fanáticos da banda estão sempre interessados em ter algo que esteja relacionado com os Stones, seja o que for. Ao longo dos anos fui-me tornando bastante conhecido pelo meu trabalho com eles e penso que esta exposição e o livro podem ultrapassar os fanáticos e colecionadores da banda.Acho que podemos alcançar colecionadores da história social, da fotografia musical no geral e até, quem sabe, colecionadores de arte. 
Teve a possibilidade de estar em Cuba no recente concerto histórico?
Não fui, mas adoraria. Já vi umas partes através de uns pequenos vídeos e parece-me que foi, efetivamente, um concerto histórico. Não tenho acesso livre à banda, tenho bons amigos que trabalham no seu escritório, alguns deles vêm à inauguração hoje, mas a ideia de ir a Cuba nunca foi sequer uma possibilidade. Infelizmente. 
Posso perguntar-lhe o seu tema preferido dos Rolling Stones?
Essa é outra pergunta tramada, não me podes fazer isto, o catálogo é tão grande... mas diria que “Get Off of My Cloud” me traz uma memória particular, é como se voltasse à digressão dos EUA. Nessa altura, esse era o tema número 1 dos Stones, era o que as pessoas mais queriam ouvir e o momento alto de todas as suas atuações. Sou levado de volta a esses extraordinários concertos do final de 1965, momentos mágicos do rock’n’roll. 

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